Amanda Perobelli/Reuters
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

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Vai ter festa na Bolsa?

Um gatilho para a Bolsa neste 2º semestre será o avanço de reformas estruturais

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 04h00

O Ibovespa voltou ao patamar simbólico de 100 mil pontos na semana passada, causando surpresa em alguns, pela rapidez da recuperação, e otimismo em outros, de que o pior do impacto da pandemia do coronavírus ficou para trás e que, nos próximos meses, a trajetória é uma só: de alta.

Se, de um lado, os fundamentos que levaram à rápida recuperação da Bolsa brasileira ainda estão presentes, de outro, os riscos que podem levar a uma nova correção não se dissiparam.

Só para lembrar: no pico histórico, atingido no final de janeiro, o Ibovespa foi a 119.593,10 pontos. Com o pânico deflagrado pela pandemia, quando uma grande incerteza dominava os investidores sobre o tamanho do impacto na atividade e na saúde pública, em relação ao número de infectados e de mortos pela doença, a Bolsa entrou numa espiral de queda vertiginosa. No seu pior momento em 2020, ao longo do pregão do dia 23 de março, o índice caiu até 62.161,38 pontos.

E desde esse menor nível do ano, o Ibovespa já subiu mais de 60% até o fechamento da semana passada, quando encerrou a 100.031,83 pontos. Mas quais são os riscos que podem impedir a festa na Bolsa de continuar?

Um deles é o de que ocorra uma segunda onda de contaminação da covid-19 forte o suficiente para levar as autoridades mundiais, inclusive no Brasil, a voltarem a impor medidas de isolamento social e de restrição de mobilidade, prejudicando a incipiente retomada da economia. Nos EUA e no Brasil, a pandemia ainda não está sob controle. Essa é uma preocupação do investidor enquanto um tratamento ou uma vacina eficaz contra o coronavírus não se tornem realidade.

Outro risco é geopolítico, incluindo as eleições presidenciais americanas, marcadas para novembro, e a relação entre EUA e China. Em relação às eleições, os investidores têm se mostrado nervosos com a liderança do democrata Joe Biden nas pesquisas de intenção de voto, bem à frente do presidente Donald Trump. Quanto à relação entre EUA e China, a guerra comercial entre americanos e chineses foi uma das principais fontes de turbulência do mercado antes da pandemia.

Mas o que mais preocupa os investidores em relação ao Brasil é que os juros não permaneçam baixos por muito tempo. No exterior, a injeção de liquidez sem precedentes pelos bancos centrais dos países mais desenvolvidos, muitos dos quais cortaram os juros para zero ou para taxas negativas, alimentou o apetite a risco dos investidores globais, puxando para cima os preços das ações.

No Brasil, o Banco Central também cortou a taxa Selic para o seu menor nível histórico, de 2,25%. Mas aqui o que interessa aos investidores do mercado acionário é o seu custo de capital, referenciado nos juros de longo prazo. E esse custo, via prêmio de risco na parte longa da curva de juros, tem sido influenciado principalmente pela percepção da trajetória fiscal e da dívida pública brasileira.

Já está na conta do investidor o forte aumento do déficit primário, devendo ultrapassar R$ 800 bilhões, e da dívida pública neste ano, como reflexo do estado de calamidade pública para combater o impacto da crise do coronavírus. O que o investidor quer, porém, é que, passada a pandemia, o governo e o Congresso, a partir de 2021, façam um ajuste fiscal e mantenham intacto o teto de gastos, a principal âncora de confiança do mercado em relação ao Brasil.

Um gatilho importante para a Bolsa neste segundo semestre será o avanço ou não de reformas estruturais no Congresso, em especial a tributária. Nem se espera aqui o início da votação dessa reforma, mas um avanço nas negociações entre todos os envolvidos – governo, parlamentares, governadores e empresários – que dê confiança aos investidores de uma tramitação em breve de um projeto para modernizar o complexo sistema tributário brasileiro.

Se a relação entre o governo e o Congresso voltar a azedar ou uma crise política paralisar o Palácio do Planalto, dificilmente as negociações para uma reforma tributária sairão da estaca zero. Se os gastos extras com a pandemia forem transformados em despesas permanentes, a percepção de descontrole fiscal contaminará a curva de juros via prêmio de risco. E provavelmente jogará um balde de água fria na festa da Bolsa. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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