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Vale cobra indenização de R$ 300 mi da Thyssen por má gestão na CSA

Disputa. Para a mineradora brasileira, erros do grupo alemão oneraram a operação da CSA em mais de R$ 1 bilhão; pendência, que tem origem num acordo feito entre Vale e Thyssen em 2009, pode emperrar negociação com a CSN, de Benjamin Steinbruch

DAVID FRIEDLANDER / SÃO PAULO, MÔNICA CIARELLI , MARIANA DURÃO / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2013 | 02h07

A Vale está cobrando uma indenização de R$ 300 milhões do grupo alemão ThyssenKrupp, a quem responsabiliza por graves falhas no comando da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), na qual os dois são sócios. Para a mineradora, os erros do sócio alemão oneraram a operação com custos adicionais de mais de R$ 1,1 bilhão na compra de energia, matéria-prima e investimentos corretivos.

A indenização pleiteada pela Vale corresponde à sua participação de 27% na siderúrgica. Para cobrir totalmente a perda bilionária, a mineradora quer também que a Thyssen reembolse a CSA com mais R$ 800 milhões. Como a siderúrgica deve mais de R$ 2 bilhões ao grupo alemão, a mineradora entende que a Thyssen deveria cancelar parte do débito e deixar os recursos na CSA como compensação pelas perdas supostamente provocadas por falhas de gestão.

Para complicar o quadro ainda mais, a pendência pode ser um obstáculo ao processo de venda de parte da fatia de 73% que a Thyssen tem na CSA para o empresário Benjamin Steinbruch, dono da CSN. Localizada no Rio de Janeiro, a CSA tem um histórico desastrado desde sua construção e o grupo alemão está ansioso para passá-la adiante. O problema é que a Vale, sócia minoritária na siderúrgica, só aceita discutir a oferta de Steinbruch depois que a Thyssen se comprometer a pagar a indenização.

A origem da disputa está num acordo feito entre a Vale e a Thyssen em 2009, quando a CSA ainda estava em construção. Os alemães ficaram sem dinheiro e pediram socorro à mineradora, que colocou mais R$ 2,5 bilhões no projeto e ampliou sua participação de 10% para 27%.

Nesse rearranjo societário, a Vale propôs participar da gestão da CSA, mas a Thyssen não aceitou e preferiu continuar mandando sozinha na empresa. Para se garantir, a mineradora então exigiu colocar em contrato uma cláusula prevendo que ela seria reembolsada caso a siderúrgica perdesse dinheiro por causa de erros cometidos por má administração. Procuradas, Thyssen e Vale não quiseram se manifestar.

Atrasos e defeitos. As tais perdas por má gestão foram calculadas em US$ 550 milhões (ou R$ 1,1 bilhão) e ocorreram principalmente na coqueria, área em que ficam os grandes fornos de uma siderúrgica. Como a unidade atrasou e mesmo depois de pronta continua a dar problemas, a CSA precisou fazer compras adicionais de energia elétrica, gás natural e carvão coque, no período de setembro de 2010 até dezembro de 2012.

Apesar de ser dona de uma empresa especializada na construção de coquerias, a Uhde, ao construir a CSN a Thyssen preferiu contratar a empresa chinesa Citic, que cobrava bem mais barato pelo serviço. No final, depois de muito atraso e falhas no funcionamento, a Thyssen acabou recorrendo à Uhde para terminar o projeto.

O grupo alemão não reconhecia essas perdas até semanas atrás, quando resolveu discutir o assunto por causa do interesse mais firme por seus ativos por parte do dono da CSN. Sem isso, o grupo alemão não consegue levar adiante a proposta de Steinbruch, que fez uma oferta de cerca de US$ 2,5 bilhões para ficar com parte da CSA e 100% de uma laminadora da Thyssen no Alabama (EUA). As duas unidades fazem parte de uma divisão do grupo alemão chamada Steel America.

Na prancheta, o projeto da Thyssen parecia promissor. A nova usina no Rio seria abastecida com minério de alto teor e preço camarada garantido pela Vale. As placas de aço seriam exportadas para a laminadora do Alabama, onde seriam processadas e distribuídas diretamente para os clientes americanos.

O projeto começou em meados dos anos 2000, momento em que a economia mundial estava acelerada e a siderurgia vivia uma fase de consolidação em que despontavam concorrentes como a ArcelorMittal e a Tata Steel. O projeto conjugado Rio/Alabama parecia uma boa fórmula para ganhar competitividade.

O acerto de contas com a Vale é um problema a mais para a Thyssen, que já precisou registrar baixas contábeis de US$ 7 bilhões em seu projeto siderúrgico das Américas. A CSA entrou em operação em junho de 2010, depois de consumir US$ 8,2 bilhões, valor bem acima dos US$ 3 bilhões previstos inicialmente.

Prejuízos. No início do ano, o presidente do conselho de administração da Thyssen, Gerhard Cromme, admitiu erros que contribuíram para grandes prejuízos sofridos pelo grupo alemão. Meses depois, o executivo deixou o cargo, em meio a críticas por sua suposta participação em escândalos relacionados ao pagamento de suborno e gastos excessivos com executivos.

Diante de um cenário complicado para a siderurgia, com um excedente de cerca de 500 milhões de toneladas de aço no mundo, a Thyssen corre para vender a siderúrgica do Rio e a laminadora do Alabama, que até o momento só deram prejuízo.

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