Vale compra minas da Rio Tinto por US$ 1,6 bilhão

Aquisição, que inclui unidade em Corumbá (MS), provocou reclamação de sindicatos

Mônica Ciarelli e Michelly Teixeira, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Em meio a demissões de 1,3 mil trabalhadores e acordos para reduzir em 50% o salário de parte dos empregados, a Vale anunciou ontem a compra, à vista, de US$ 1,6 bilhão em ativos da anglo-australiana Rio Tinto no Brasil, Argentina e Canadá. Pelas atividades em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, que incluem uma mina de minério de ferro e projetos de logística, a Vale vai desembolsar US$ 750 milhões. Outros US$ 860 milhões serão gastos na aquisição de depósitos de potássio na Argentina e no Canadá. Em nota, a Vale diz que as operações da Rio Tinto em Corumbá têm sinergias com a companhia, que opera a mina de Urucum na mesma cidade, e deve reduzir custos administrativos, de logística e racionalização no uso das reservas. Analistas reconhecem que o negócio é vantajoso para a empresa brasileira no futuro, mas consideram alto o valor pago. "A Vale pagou caro, mas uma aquisição como essa tem toda uma lógica de longo prazo", afirma o chefe da área de análise da Modal Asset Management, Eduardo Roche. Ele calcula que o preço por tonelada produzida nas operações de minério de ferro em Corumbá saiu por cerca de US$ 300, bem acima dos valores praticados nos contratos de longo prazo no mercado internacional, que giram na casa dos US$ 80 a US$ 90. A mina da Rio Tinto em Corumbá tem capacidade de produção de 2 milhões de toneladas por ano e teve seu processo de expansão suspenso pela multinacional este mês, por causa dos efeitos da crise. A companhia planejava aportes de US$ 2,15 bilhões para ampliar a capacidade para até 12 milhões de toneladas, com a construção de novos fornos e de um moderno sistema de transporte do minério até o porto. Não está claro se a Vale dará prosseguimento ao projeto. A companhia anunciou este mês a compra de 49 barcaças para transportar o minério de Urucum pelo rio Paraguai, expediente já utilizado pela Rio Tinto e pela MMX, que também tem uma mina na cidade. As operações de Urucum, porém, estão suspensas desde dezembro e os funcionários, em férias coletivas.Em nota, o diretor-financeiro da Rio Tinto, Guy Elliott, lembrou que a transação mostra a qualidade dos ativos e a capacidade da empresa gerar valor para os acionistas, "apesar das condições difíceis da economia e do mercado de crédito". A Rio Tinto carrega uma dívida de US$ 38,9 bilhões decorrente da compra da produtora de alumínio canadense Alcan, e tem de pagar US$ 8,9 bilhões em outubro, mais US$ 10 bilhões um ano depois.RECLAMAÇÃOO anúncio da operação aumentou a grita dos sindicatos de trabalhadores ligados à Vale, que buscam atualmente estratégias para conter demissões e a flexibilização dos acordos trabalhistas. "A Vale deveria estar usando o dinheiro que tem em caixa, que supera os US$ 15 bilhões, para segurar os empregos, e não para sair comprando outras empresas", reclamou o presidente do Sindicato Metabase de Congonhas, Ouro Preto e Inconfidentes, em Minas Gerais, Valerio Vieira dos Santos. A compra de ativos pela Vale nesse momento também revoltou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Mineração de Corumbá, Cassiano de Oliveira. Segundo ele, a Vale adota um "capitalismo selvagem", sem nenhuma preocupação em preservar sua força de trabalho. "Nós estamos pagando o prejuízo total. São mais de 12 mil terceirizados que já foram dispensados pela companhia. O dinheiro que está hoje no caixa deveria ser usado para garantir o social", disse.

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