Vale decide sair da Usiminas

Mineradora venderá sua participação, de 5,89% das ações ordinárias, por discordar da estratégia da empresa

Irany Tereza, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2008 | 00h00

Em comunicado distribuído na noite de ontem ao mercado, a Vale informou que irá vender toda a sua participação no capital da Usiminas. Hoje, a mineradora tem 5,89% das ações ordinárias da siderúrgica, integrando o bloco de controle. Essa participação é avaliada em cerca de R$ 1,3 bilhão.A saída iminente, anunciada ontem, põe um ponto final na queda de braço que a direção da Vale vinha travando com outros acionistas, principalmente os japoneses do Grupo Nippon, majoritários no capital ordinário, com participação de 24,7%, sobre a estratégia da empresa. Seguindo a tática de ingressar no mercado siderúrgico com participação minoritária - para alavancar vendas de minério no mercado doméstico e ampliar a exportação de placas de aço - a Vale pressionava a Usiminas a construir uma nova usina siderúrgica no País. Em novembro de 2006, a mineradora reduziu sua participação na Usiminas, então em 22,9% do capital ordinário, para ter direito a participar do bloco de controle e do acordo de acionistas. A intenção era ganhar poder de fogo para forçar uma mudança estratégica na principal produtora de placas de aço do País. Publicamente, o presidente da Vale chegou a cobrar, meses mais tarde, "mais agressividade" da Usiminas, na compra de ativos e no processo de internacionalização da empresa. A Vale tentou que a siderúrgica fizesse, no ano passado, uma oferta para a compra da siderúrgica americana Sparrows Point. A proposta não passou no Conselho de Administração. Foi barrada pelos japoneses. Fazem parte do grupo a Nippon, com 21,6%, a Mitsubishi, com 1,5% e a NSC, com 1,7%. Além de não ingressar pela linha "agressividade" empresarial no setor siderúrgico, a Usiminas deu sinais de verticalização ao comprar, em fevereiro deste ano, as empresas Mineração J.Mendes, Somisa Siderúrgica Oeste de Minas e Global Mineração, dedicadas à exploração de minério de ferro no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais. Pagou, inicialmente, US$ 925 milhões pelas empresas, mas comunicou que desembolsos complementares poderiam ser realizados em dois anos, dependendo das sondagens a serem feitas para confirmação da quantidade e da qualidade das reservas de minério. A verticalização passou a ser uma estratégia comum entre as siderúrgicas para garantir seu próprio fornecimento e fugir aos sucessivos aumentos de preço de minério ditados pelas grandes mineradoras, inclusive pela própria Vale. A decisão desagradou a Vale, que decidiu deixar a empresa e acelerar negociações com outras siderúrgicas para a construção de novas usinas no Brasil, provavelmente no Pará e no Maranhão. As especulações giram em torno da japonesa JFE e da indiana Tata Steel. A Vale já é sócia minoritária em projetos siderúrgicos capitaneados por multinacionais, como a chinesa Baosteel (Espírito Santo), a alemã Thyssenkrupp (Rio) e a coreana Dongkuk (Ceará). Ontem, no comunicado distribuído ao mercado, a Vale destacou que pretende vender seus papéis, observando os prazos e condições para o exercício do direito de preferência previsto no acordo de acionistas. ''Se e quando for implementar a referida venda, a Vale, de forma consistente com os padrões de transparência por ela adotada, comunicará publicamente ao mercado'', diz a nota. Um ano antes de ingressar no bloco de controle da Usiminas, a Vale chegou a contratar um banco para vender a participação na siderúrgica, exatamente por estar descontente com o ritmo da companhia. Desistiu quando conseguiu convencer os japoneses a aumentar os investimentos. A Vale se comprometeu a participar deste impulso, mas a condição foi entrar no bloco de controle.

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