Vale e Baosteel desistem de siderúrgica no Espírito Santo

Queda na demanda por aço deve afetar também projetos de outras usinas, dizem analistas

Mônica Ciarelli e Natalia Gómez, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Depois de cortes na produção e demissão de 1,3 mil trabalhadores, a crise financeira mundial agora forçou a mineradora Vale e sua parceira chinesa, a Baosteel, a desistir da construção de uma siderúrgica no Espírito Santo. O cancelamento do projeto foi proposto pelos chineses, que viram a procura mundial por aço minguar nos últimos meses como reflexo da desaceleração global. O fim do projeto, que iria gerar 3 mil novos empregos, segundo analistas financeiros, não deve ser um caso isolado no setor. Para eles, todos os empreendimentos existentes nos mesmos moldes dessa usina estão ameaçados pela forte retração na demanda por aço. A parceria entre a Vale e a Baosteel foi costurada no auge do último ciclo de crescimento mundial. Orçado em US$ 5,5 bilhões, o projeto foi desenvolvido para entrar em operação em 2012, com capacidade para produzir 5 milhões de toneladas de placas de aço. Inicialmente, a mineradora brasileira e a Baosteel planejavam construir a usina no Maranhão, mas, por problemas com o governo local, o projeto foi levado para o Espírito Santo. Além da siderúrgica, o projeto incluía ferrovia, porto e uma termelétrica com capacidade para produção de 400 megawatts. No final do ano, o empreendimento sofreu seu primeiro revés: teve a licença ambiental negada pelo órgão estadual.O vice-governador capixaba, Ricardo Ferraço, não acredita que a negativa tenha influenciado na decisão. "Isso faz parte de uma questão conjuntural. A indústria siderúrgica trabalha com 25% a 30% de ociosidade e acredito que outros projetos em estágio inicial seguirão o mesmo caminho", afirmou. Ele acrescentou que "não se surpreenderá" se uma outra mineradora, a Ferrous, anunciar também a revisão de um projeto siderúrgico no sul do Estado."A ordem agora é reter dinheiro em caixa", concorda o analista da corretora SWL Pedro Gaudi. Na opinião de especialistas, apenas projetos que já estão em estágio muito avançado serão concluídos. É o caso da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), parceria entre a Vale e a ThyssenKrupp na região metropolitana do Rio. "Projetos de exportação de placas não fazem sentido em um mercado tão fraco quanto o atual", resume o analista da Gradual Investimentos, Paulo Esteves. FIM DA EUFORIAA crise pegou a siderurgia brasileira em um momento de grande euforia, com uma série de projetos de expansão em curso. A Usiminas e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), por exemplo, também tinham anunciado a construção de novas plantas. Até meados do ano passado, as empresas destacavam as vantagens de investir em usinas para produzir aço bruto no Brasil e exportá-lo para outros países, onde seria laminado. Para a Vale, ter uma participação na siderurgia é uma maneira de manter clientes de longo prazo. O projeto no Espírito Santo, que era conhecido como Companhia Siderúrgica Vitória (CSV), foi idealizado para atender às necessidades das usinas da Baosteel, sócia majoritária no projeto. A mineradora brasileira explicou em comunicado que foi a própria Baosteel quem sugeriu o cancelamento do projeto, por causa do agravamento da crise econômica mundial. Em novembro, o desaquecimento da economia provocou uma queda de 12,4% na produção de aço da China, em comparação com o mesmo mês do ano passado.Analistas acreditam, no entanto, que a Vale não deve buscar outros sócios para levar o projeto adiante. "A Vale tem sido bastante conservadora neste momento de crise", disse o analista da Link Corretora, Leonardo Alves.

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