Vale faz acordo com estatal chinesa e pode resolver impasse dos supernavios

O acordo anunciado ontem entre a Vale e a estatal China Ocean Shipping Company (Cosco) pode pavimentar o caminho da mineradora brasileira no mercado chinês, melhorando o trânsito da companhia no governo e fazendo com que a Vale consiga, finalmente, atracar seus supernavios no país. Hoje, a mineradora é proibida de ancorar esses navios na China por questões políticas. Resolver esse impasse, que já dura dois anos, era estratégico para a companhia brasileira, que tem tentado, ao longo dos últimos anos, reduzir seus custos com frete.

FERNANDA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2014 | 02h03

Na visão de analistas do setor, embora o acordo com a Cosco não represente geração de valor imediata, a aproximação com a estatal é um fator positivo. Em comunicado, a Vale informou que o acordo envolve quatro navios, com capacidade de 400 mil toneladas. Batizados de Valemax, esses navios são os maiores mineraleiros em operação no mundo e atualmente pertencem e são operados pela brasileira.

Com a parceria, eles serão transferidos para a Cosco e afretados para a Vale em contrato de 25 anos. No futuro, o acordo prevê o afretamento de mais dez navios. O valor da transação só será informado após a conclusão.

Uma fonte ligada à Vale, ouvida pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, disse que a expectativa da mineradora é exatamente de que o acordo seja o primeiro passo para a obtenção de licença para o Valemax atracar no país.

A estatal chinesa Cosco liderou, no início de 2012, um lobby para impedir os Valemax de atracar na China. A explicação dada, na época, era de que esses supernavios representavam "monopólio e concorrência desleal".

A frota atual da Vale, de 31 navios, já exportou 74 milhões de toneladas de minério de ferro. Com 360 metros de comprimento, o Valemax está entre os maiores do mundo. O Panamax, navio que tem as dimensões máximas para atravessar o Canal do Panamá, tem 230 metros. Só os transatlânticos da Royal Caribbean têm o mesmo tamanho dos Valemax.

Estratégico. O acordo com a Cosco é importante para reduzir a desvantagem logística da Vale em relação a suas concorrentes, as australianas BHP Billiton e Rio Tinto. A Vale está mais longe do maior mercado consumidor de minério de ferro do mundo do que suas rivais.

Para ser mais competitiva e conseguir mitigar a diferença em relação à distância, a Vale investiu um longo período em logística, com a construção dos supernavios, batizados de Valemax e de um centro de distribuição na Malásia. A mineradora vinha usando esse centro de distribuição para ficar mais próxima de seus principais clientes. O Valemax chega até essas estações e, de lá, navios menores levam o minério para o destino final.

Recentemente, o diretor executivo de Ferrosos e de Estratégia da Vale, José Carlos Martins, disse que os navios Valemax promovem uma economia de US$ 7 por toneladas no frete, mas que esse ganho diminui para US$ 5 quando a companhia precisa atracar o Valemax primeiro nas plataformas e não indo diretamente no destino.

"A Vale tem trabalhado há bastante tempo para resolver essa questão com a China e tal movimento deverá ajudar a interromper esse embargo", disse um analista sob a condição de não ser identificado. No segundo trimestre deste ano a China foi destino de 51,4% do total de minério de ferro e pelotas vendido pela Vale.

Em relatório, analistas do banco Brasil Plural levantaram dúvidas sobre a geração de valor do contrato firmado com a Cosco. "Por definição, a geração de valor de um acordo desses é questionável, a não ser que as partes tenham um custo de capital bem diferente uma da outra."

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