Vale o escrito

O potencial da tecnologia de blockchain vai muito além das criptomoedas e finanças

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2017 | 06h00

Quando uma tecnologia é de propósito geral - ou seja, quando possui características genéricas o suficiente para suportar múltiplos tipos de aplicações - a dificuldade em prever seu alcance e utilização aumenta. Blockchain (ou “corrente de blocos”) enquadra-se nesta categoria. Embora tenha ganho popularidade por seu papel fundamental para suportar criptomoedas, as possibilidades de uso em diversas indústrias e com várias funções distintas ainda estão nos passos iniciais.

A tecnologia de blockchain possui características que atendem um grande número de requisitos. Podem armazenar qualquer tipo de informação e sempre o fazem em ordem cronológica. Graças ao uso de criptografia, teoria de jogos e de protocolos de comunicação eficientes, não é possível editar a informação uma vez que ela esteja armazenada em um dos blocos da cadeia. Também não é possível apagar uma informação uma vez que ela esteja no sistema, e todo e qualquer dado precisa ser validado de forma independente pela rede de computadores que mantém aquele blockchain antes de ser aceito como um bloco válido. Isso faz com que fraudes, cópias ou duplicidade de informações sejam extremamente difíceis de ocorrer, pelo menos com as tecnologias disponíveis no momento, criando um ambiente extremamente seguro. Isso tudo sem depender nem de uma figura central nem de certificações para os participantes. Cada um dos blocos do blockchain tipicamente representa uma transação - a compra ou venda de determinada quantidade de bitcoins, o registro de uma patente, o credenciamento de uma pessoa, o atestado de posse de um imóvel, direitos autorais sobre uma música ou um filme, o voto em determinado candidato ou candidata. Qualquer que seja a aplicação, o ambiente distribuído, seguro e cronologicamente organizado permite auditoria, confiabilidade e transparência. Não é de surpreender então que tantas indústrias estejam interessadas em aplicar esta tecnologia aos seus negócios: todas as transações realizadas via blockchain já nascem validadas e auditadas, fazendo com que os custos associados à verificação de contra-partes, origens das mercadorias, pagamentos e afins tornem-se essencialmente zero.

Por enquanto, o setor de Finanças possui o maior número de aplicações práticas da tecnologia, com a possibilidade de ganhos de eficiência e reduções de custos no curto prazo. Até mesmo autoridades monetárias (no Canadá, Cingapura e Inglaterra por exemplo) estão analisando os impactos e benefícios da adoção da tecnologia para temas como impostos, pagamentos internacionais, liquidação de operações e pagamentos. Graças ao custo reduzido de transações via blockchain, as possibilidades para implementação de micropagamentos - valores muito baixos por serviços ou bens - torna-se viável para as indústrias de mídia, publicação, e propaganda, conforme estudos realizados pelo professor-assistente da Sloan School of Management do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Christian Catalini. Questões como privacidade, anonimato, respaldo legal e normas técnicas ainda são alvo de discussão, impactando o processo decisório das empresas no que diz respeito à utilização de blockchain. No final de 2016, uma pesquisa realizada pela Deloitte com mais de 300 executivos de grandes empresas dos EUA, com faturamento superior a US$ 500 milhões por ano, indicou que 56% acreditava que o estabelecimento de padrões universais para implementação de blockchains seria um divisor de águas para a adoção da tecnologia, e 48% reforçaram a necessidade de uma legislação para garantir segurança jurídica no ambiente de auditorias, contratos e atestados obtidos via blockchain - temas para nossa próxima coluna. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

Mais conteúdo sobre:
Blockchain Bitcoin [moeda virtual]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.