Vale quer preço ''de volta à realidade''

Presidente da empresa diz que preço à vista do minério já é o dobro dos contratos de longo prazo, e que é impossível conviver com a distorção

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Um dia depois de a imprensa chinesa informar que a Vale negocia um reajuste de até 100% no preço do minério de ferro com as siderúrgicas do país, o presidente da mineradora, Roger Agnelli, afirmou ontem que há uma série de fatores que obrigam a um "reajuste importante". Ele não confirmou, no entanto, o número divulgado pela Associação do Ferro e do Aço da China (Cisa, na sigla em inglês). Agnelli citou, como exemplos dos fatores que pressionam o preço, a questão cambial, custos com frete e a disparidade entre os preços praticados no mercado à vista e no de longo prazo.

"O mercado já está praticando uma realidade de preço completamente diferente do que foi o ano passado. Este ano a demanda é muito forte, deve continuar forte pelos próximos três anos, quatro anos. E o aumento de produção não está acompanhando de forma nenhuma o aumento da demanda por minério", ressaltou o presidente da Vale, que participou de eventos ao lado do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB). "Então, vamos ter aumento de preço sim, assim como teve aumento de preço do carvão, assim como o preço do aço subiu no mundo inteiro."

Segundo Agnelli, o preço do mercado spot (à vista) "está 100% acima do preço do mercado de longo prazo". Nas negociações com os clientes, a mineradora tem afirmado que não é possível conviver com uma distorção tão grande, ressaltou. "Isso desestimula novos investimentos e tira completamente a competitividade."

"A gente tem de trazer a realidade da nossa produção à realidade do mercado. Não faz sentido nenhum você vender com desconto alguma coisa que você possa vender no mercado à vista com preço bem maior, bem superior."

O presidente da Vale salientou que a empresa ainda não concluiu o processo de negociação com as siderúrgicas e que foi proposto um modelo de "flutuações" de preços trimestrais ou semestrais. "Que garanta de alguma forma uma certa estabilidade para os nossos clientes negociarem com os clientes deles."

Royalties. Em meio à polêmica envolvendo a partilha dos royalties do petróleo, o presidente da Vale reafirmou a discordância com a proposta de elevação da alíquota da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), espécie de royalties que as mineradoras pagam aos municípios, Estado e União pelo direito de explorar as riquezas minerais.

A proposta do Ministério das Minas e Energia para o novo marco regulatório do setor mineral, enviada ao Congresso na semana passada, deixou de fora a questão dos royalties que, além de causar polêmica entre as empresas, ainda encontra resistência na pasta da Fazenda, pois prevê também a redução de outros impostos para que seja mantida a competitividade. Em 30 dias, os dois ministérios deverão concluir estudos para definir se haverá ou não mudanças nos royalties cobrados no setor.

Perguntado sobre as declarações do ministro Edison Lobão, que na última quarta-feira reiterou a opinião de que as alíquotas da CFEM pagas pelas mineradoras são baixas, Agnelli reagiu com certa irritação.

"Eu acho que o ministro Lobão não conhece bem o que é o desafio de uma mineração, o que é o mercado internacional, onde você disputa", disse, ressaltando que a conta acabará sendo paga pelo consumidor. "Hoje a gente está num nível de carga tributária extraordinariamente elevado", reclamou.

Ao Estado, o presidente da Vale, contudo, considerou que houve "alguma evolução" na proposta encaminhada ao Congresso, considerada "não hostil". Anfitrião durante uma visita às obras do Memorial Minas Gerais, patrocinado pela Vale, Aécio, no entanto, demonstrou descontentamento com a retirada dos royalties da proposta encaminhada ao Congresso. Segundo ele, os recursos pagos atualmente são "irrisórios". "É uma discussão que nós ainda temos de aprofundar no Congresso Nacional."

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