Vale reduz preço do minério em 28%

Acordo, fechado com siderúrgicas do Japão e da Coreia do Sul, é melhor que o acertado antes pela Rio Tinto

Mônica Ciarelli e Natália Gomez, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Depois da australiana Rio Tinto, uma de suas principais concorrentes globais no fornecimento de minério de ferro, a Vale anunciou ontem a redução nos preços do produto em contratos de longo prazo para as principais siderúrgicas do Japão (Nippon Steel) e da Coreia do Sul (Posco). Em meio a uma das mais duras e longas negociações, a mineradora aceitou cortar em 28,8% o preço do minério fino, o principal produto exportado pelo grupo, e em 44,47% o do granulado. A queda foi menor que a firmada pela Rio Tinto no final de maio, que ficou entre 33% e 44%. "O acordo resultou em um diferencial a favor da Vale", avaliou a analista Cristiane Viana, da Ágora Invest. Isso porque, com o novo preço, a mineradora brasileira conseguiu recuperar boa parte da defasagem de preço acumulada desde o ano passado, quando as concorrentes australianas fecharam um reajuste maior para seus contratos, sob a alegação de oferecer um custo menor de frete. O acordo com a Nippon Steel e a Posco, porém, não acaba com as incertezas que rondam as negociações deste ano. A grande dúvida gira em torno das siderúrgicas chinesas, que continuam pressionando por uma queda maior nesse momento de retração da economia internacional. Fontes ligadas à Vale contam que a empresa já considera a possibilidade de a China migrar de vez do tradicional sistema benchmark (preço de referência), que se ancora em contratos de longo prazo, para o mercado à vista (spot). A China é hoje é o maior consumidor de minério de ferro do mundo, o que dá às siderúrgicas locais, capitaneadas pela Baosteel, um maior poder de barganha nas negociações. No primeiro trimestre, o país comprou 66% de todo o minério de ferro vendido pela companhia brasileira. O crescimento da demanda chinesa conseguiu minimizar o impacto da forte retração no consumo de minério registrada pela Europa, Estados Unidos e Japão, locais mais intensamente atingidos pelos efeitos da crise financeira. No final do mês passado, o próprio diretor executivo de Ferrosos da Vale, José Carlos Martins, admitiu a possibilidade de mineradoras e siderúrgicas atravessarem o ano sem a fixação de novo nível de preço para os contratos de longo prazo. A pressão das chinesas por um corte mais acentuado na cotação do minério este ano levou a companhia a flexibilizar suas estratégias de venda. Uma das alternativas foi conceder descontos de 20% nos preços para a China e também voltar a operar no mercado spot.A mudança de cenário também levou a Vale a fechar acordos para o fornecimento de minério de ferro a 38 pequenas siderúrgicas chinesas, representando um total de 50 milhões de toneladas para este ano, segundo o jornal Beijing News. Citando uma fonte do setor, o jornal disse que a Vale exportou 85 milhões de toneladas de minério de ferro para a China no ano passado, o que faz desses acordos com as siderúrgicas pequenas uma parte significativa de sua carga vinculada à China. Antes, muitas delas não constavam do portfólio da empresa brasileira. A demanda era maior que a disponibilidade de produtos e Vale optava por atender prioritariamente os grandes clientes.MUDANÇAO sistema de benchmark vem sendo colocado à prova desde o ano passado, quando as concorrentes australianas não seguiram o acordo fechado pela Vale e negociaram um reajuste maior para seus produtos, sob a alegação de oferecer um custo menor de frete. O fato de hoje os principais mercados consumidores do insumo viverem uma realidade econômica completamente diferente dificulta ainda mais as negociações deste ano."Acho que estamos caminhando para um sistema híbrido. Mas ainda tenho esperanças que esse acordo possa pressionar um pouco os chineses", disse uma fonte ligada à Vale. "Mas a verdade é que, hoje, eles têm muito poder de fogo nessas negociações." Caso os novos preços fixados ontem pela Vale sejam aceitos por todos os clientes, a receita da companhia com a comercialização do minério de ferro deve cair 32%. A estimativa leva em conta a participação de cada tipo de minério no mix da empresa, que concentra suas vendas no segmento de minério fino. Os cálculos foram feitos por analistas do banco Sicredi e da Ágora Invest. Os novos preços, que começam a valer retroativamente a partir de abril, serão aplicados sobre um desconto de 20% que já estava sendo concedido pela mineradora. A política de descontos foi adotada porque o mercado estava fraco e muitas empresas estavam migrando para o mercado spot em busca de preços mais baixos. COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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