Vale tenta recuperar ''perdas'' de anos anteriores

Vale tenta recuperar ''perdas'' de anos anteriores

A Vale demorou a assimilar, no ano passado, a nova realidade econômica mundial, com retração drástica da demanda por minério. Agora, busca recuperar, com muita folga, o desconto de 28,2% que se viu forçada a aceitar para o valorizado minério de Carajás.

Análise: Irany Tereza, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

O tiroteio que agora se desenha parece mais pesado do que o de 2005, quando o então surpreendente reajuste de 71,5% marcou o início de uma era de aumentos recordes, embalados pelo aquecimento da demanda. Somente a crise mundial interrompeu a ascensão dos preços do minério, principal matéria-prima para a produção de aço.

Mas, a Vale, que por anos ditou as regras do mercado, formando o preço de referência que seria seguido por suas principais concorrentes, havia perdido a liderança nas negociações pouco antes da crise. Interessada em engordar caixa para o que seria mais uma aquisição bilionária - a compra da anglo-suíça Xstrata -, a brasileira antecipou-se nas negociações de 2008 e perdeu o bonde da BHP e da Rio Tinto, que conseguiram 100% de alta.

Naquele ano, a Vale teve de se contentar com "apenas" 71% e, mesmo assim, ficou sem a Xstrata, frustração que se transformou em alívio quando a crise mostrou o negócio fracassado que seria a compra. Agora, parece disposta a ir à forra: recuperar 2008, 2009 e emplacar 2010.

Na negociação, a mineradora alega estar seguindo a política imposta pelo mercado chinês no ano passado: a do preço à vista. A China, que comprou do Brasil, em 2009, 25% dos 130 milhões de toneladas de minério que importou, se ancora no peso de seu mercado para forçar um saldo menos desfavorável.

A Europa, outro grande mercado, vai atrás e ameaça apelar a organismos antitruste. As siderúrgicas brasileiras apenas esperam. Há muito tempo o mercado nacional replica as negociações internacionais, sem cacife para participar de negociações. Não é à toa o caminho das siderúrgicas rumo à mineração.

A "bolha" chinesa, prevista no início da década, não estourou. Ao contrário: a China garantiu uma crise mundial menos traumática. A siderurgia nacional está longe da autossuficiência em minério. E a Vale, ainda dona da situação, prevê apenas para 2012 um maior equilíbrio entre a oferta e a demanda.

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