Vale vai reduzir preço do minério em cerca de 10% a partir de outubro

Primeira redução de preços do minério de ferro desde que a mineradora adotou o sistema de revisão a cada três meses, decisão acompanha movimento de queda no mercado chinês; a empresa já havia aplicado um aumento acumulado de 170% este ano

David Friedlander, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

Depois de aplicar aumentos de 170% ao longo do ano, a Vale vai reduzir o preço do minério de ferro em cerca de 10% a partir de outubro. Resultado de uma política de revisão trimestral de preços adotada este ano pela mineradora, os novos valores usam como referência a cotação do mercado à vista da China, que caiu nos últimos meses.

O índice preciso só será fechado na próxima terça-feira, mas o Estado apurou que as contas já apontam uma redução de preços entre 9% e 10%. "Deve ficar nesse patamar, a menos que aconteça alguma mudança drástica, algo que a esta altura parece muito difícil", diz José Carlos Martins, diretor executivo de Marketing, Vendas e Estratégia da Vale.

Como um quinto do aço produzido no mundo é feito com minério de ferro da Vale, a decisão da empresa brasileira tem forte impacto nas economias da Europa e da Ásia, principalmente. A mineradora não vai tornar públicos os novos preços - a partir de primeiro de outubro cada cliente receberá sua fatura com os valores atualizados.

Será a primeira vez que o novo sistema de revisão da Vale produz uma redução no preço do minério. Analistas calculam que o valor médio do minério mais vendido pela Vale deve cair de US$ 150 para cerca de US$ 135 a tonelada. "Nossos clientes pagarão menos do que os valores cobrados no mercado à vista da China, que está entre US$ 146 e US$ 147 por tonelada", afirma Martins.

Resultados. A redução, pequena diante dos aumentos aplicados este ano, não deverá ter impacto nos resultados da companhia. Para este ano, a estimativa dos analistas do setor é que o faturamento com minério de ferro mais do que dobre em relação ao ano passado, atingindo a marca de US$ 30 bilhões. O faturamento total deve fechar em mais de US$ 40 bilhões.

"Apesar das incertezas na economia mundial, a China continua consumindo muitas commodities e a gente espera que a Europa continue estável", afirma o executivo da Vale.

Analistas do setor lembram que o fim de mais de um ano de greve na Inco, empresa canadense hoje controlada pela mineradora brasileira, deve fortalecer os resultados da companhia. "Estamos retomando e a intenção é atingir a capacidade plena de produção até o fim do ano", afirma o executivo.

Briga. Implantado no começo do ano, o sistema de revisão de preços a cada três meses foi muito criticado pelas grandes siderúrgicas. Ele sepultou o regime de reajuste anual, que vigorava há 40 anos. No padrão anterior, a Vale e seus principais concorrentes, as mineradoras australianas, sentavam para discutir preços com as grandes siderúrgicas no começo do ano e os valores acertados permaneciam em vigor pelos doze meses seguintes, até a próxima negociação anual e serviam como referência para todas as outras mineradoras.

O sistema tradicional começou a mostrar fraqueza com a crise mundial de 2008. A economia mundial entrou em recessão, o consumo de aço caiu brutalmente e as grandes siderúrgicas passaram a descumprir seus contratos com as mineradoras, para comprar no mercado à vista minério de ferro mais barato do que nos contratos anuais.

Quando a China esgotou seus estoques de minério de ferro e voltou a comprar, puxando novamente a demanda mundial pelo produto, as mineradoras deram o troco e decidiram trocar o sistema de reajustes anuais por revisões mais frequentes. No caso da Vale, os preços são atualizados de acordo com a média do mercado chinês, maior consumidor mundial do produto.

Pancadas. As siderúrgicas chinesas ameaçaram boicotar a Vale, os fabricantes de aço da Europa foram à União Europeia e acusaram a mineradora brasileira e as australianas de prática de cartel. A Vale também se queixou à União Europeia, afirmando que quem estava fazendo cartel eram as siderúrgicas do continente. Nos últimos meses, a temperatura entre os velhos parceiros diminuiu.

"Acho que o sistema está funcionando bem, e para eles vai funcionar melhor ainda agora que os preços vão cair", afirma Martins. "Mas ninguém deixou de comprar minérios quando os preços subiram."

Sobre as primeiras pancadas no preço do minério da Vale, que dobrou de preço no começo do ano e voltou a subir 35% em julho, o executivo diz que os preços estavam muito defasados. "O primeiro reajuste era sobre os preços fixados um ano antes, em abril de 2009, durante a crise", afirma. "O segundo ocorreu pelo sistema novo. Os preços da China subiram, os nossos acompanharam. Agora caíram, os nosso também."

A dança dos reajustes

170% é o aumento acumulado do minério de ferro desde o começo do ano

10% deve ser o corte nos preços do minério de ferro da Vale a partir de 1º de outubro

US$ 135 por tonelada, deverá ser o preço da tonelada de minério de ferro depois da redução

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