Pilar Olivares/Reuters
Pilar Olivares/Reuters

ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Vale vê cenário incerto e mantém dividendo suspenso, mas descarta demissões

Executivos da mineradora detalham ações adotadas diante da pandemia do novo coronavírus; companhia tem buscado assumir protagonismo em medidas de ajuda humanitária e a fornecedores durante a crise

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 07h00

RIO - O cenário de recessão global será muito duro, mas a Vale tende a sofrer menos por estar em um segmento de commodities pouco afetado, ser um produtor de minério de baixo custo e contar com os sinais de retomada econômica da China, seu principal mercado. Apesar de ter caixa robusto, a mineradora sacou uma linha de crédito rotativo de US$ 5 bilhões e tirou do horizonte de curto prazo a retomada do pagamento de dividendos. 

“A política está suspensa. Hoje existe uma névoa enorme. Ninguém sabe se estamos diante de algo que vai durar três, seis ou 12 meses”, diz Luciano Siani, diretor-executivo de finanças da mineradora. Ele e Luiz Eduardo Osorio, diretor-executivo de relações institucionais, comunicação e sustentabilidade da Vale conversaram exclusivamente com o Estadão/Broadcast a respeito do cenário e das ações da companhia diante da crise.

Internamente, a Vale adotou o trabalho remoto desde 16 de março para empregados com funções elegíveis a home office e afirma tentar manter somente os serviços essenciais, apesar de reclamações de alguns sindicatos. Osorio diz que demissões e medidas como a redução de salários e jornadas não estão no radar

Marcada por uma crise de imagem após a tragédia de Brumadinho, a mineradora tem buscando assumir protagonismo em medidas de ajuda humanitária e a fornecedores para combater a pandemia no País. Na semana passada, como antecipou o Estadão/Broadcast, decidiu ampliar o pacote de apoio a pequenas e médias empresas de sua cadeia produtiva: até o fim de abril serão R$ 932 milhões em antecipação de pagamentos a cerca de 3 mil empresas.

A empresa também fretou 14 aviões para trazer 600 toneladas de insumos médicos, kits de testes de coronavírus e equipamentos de proteção individual (EPI) da China, que serão doados ao governo federal. À frente da gestão de crise, Osorio afirma que foi montada uma verdadeira operação de guerra. Diariamente às 21h, ele participa de uma teleconferência com dezenas de pessoas no Brasil e na China para discutir a evolução da pandemia e novas ações. Veja os principais trechos da entrevista.

Já é possível medir com mais precisão o impacto da pandemia sobre as operações da Vale?

Luciano Siani: O quadro está muito incerto ainda. O que pode vir a acontecer é um atraso na retomada das operações paradas. É preciso vir um auditor inspecionar a barragem, um consultor viajar para concluir um relatório, autorização da agência (Agência Nacional de Mineração). O mundo virtual não é perfeito para isso, então pode haver algum atraso. Isso é uma incerteza.

Há outras?

Siani: Já apontamos a operação de Brucutu (de extração de minério de ferro, em Minas Gerais). Se por acaso não conseguirmos as condições de segurança para retomar a operação até o fim do primeiro semestre, isso impactaria nossa produção. Outra questão é a do absenteísmo. Quando aparece alguém com sintoma (de coronavírus), é preciso isolá-lo. Temos segurança de que nossas operações estão com padrão classe mundial de segurança para os empregados, mas eles não ficam só nelas. Temos de aguardar a evolução da pandemia para ver se terá impacto na nossa condição de operar.

A Vale não aderiu ao movimento Não Demita, compromisso de grupos como BRF, Magazine Luiza, Pão de Açúcar e bancos. Há demissões no radar?

Luiz Eduardo Osorio: Não fomos convidados. No momento em que o Brasil passa por grande incerteza econômica, estamos mantendo nossa força de trabalho empregada e contribuindo com fornecedores e parceiros, antecipando pagamentos. Não tem (demissão no radar).

A Vale adotará medidas como reduzir jornada/salários e adiar recolhimento de FGTS?

Osorio: Não. Esse assunto também não está na mesa.

Por que a Vale decidiu sacar US$ 5 bilhões de crédito rotativo?

Siani: Centenas de empresas sacaram suas linhas de crédito rotativas no mundo todo. É absolutamente esperado que, num momento de tamanha incerteza, as companhias lancem mão de liquidez. Foi um seguro para com tranquilidade poder tomar as decisões e aguardar o que vem.

Havia uma expectativa de retomada do pagamento de dividendos pela Vale em 2020. A crise da Covid-19 elimina essa possibilidade?

Siani: Não é possível ver uma empresa que sacou uma linha de crédito rotativa como nós fizemos pagando dividendo. A primeira condição é uma retomada de normalidade para que se possa pagar o dinheiro adicional que pegou e aí então pensar em dividendo. No mundo atual, essa questão do dividendo não se apresenta. A política está suspensa. Hoje, existe uma névoa enorme. Ninguém sabe se estamos diante de algo que vai durar três, seis ou 12 meses. Se terá dois picos, reincidência. Então, o investidor entende que, nesse momento, o importante é preservar a saúde financeira da companhia.

O cenário aponta para recessão global. A Vale já começou a pensar na retomada?

Siani: Para nós, o impacto da recessão global num primeiro momento vai ser fora da China, porque lá já estão retomando. A siderurgia já está operando (naquele país) a praticamente 90% da capacidade. A tendência é que o mercado chinês retome a demanda de forma saudável. Como ele é 70% do mercado transoceânico de minério de ferro, a gente já garante aí alguma demanda. No resto do mundo houve várias reduções de capacidade na siderurgia. O cenário vai ser muito duro. Naturalmente, isso vai ter impacto no balanço de oferta e demanda de minério. A Vale precisa se preparar para ser eficiente. Como somos produtores de baixo custo, a tendência é que o impacto seja maior em outros.

Então a perspectiva de retomada na China é um alento para a Vale...

Siani: Diria que não tem como escapar (da crise), porque fora da China a demanda está caindo muito. Mas se você considerar o rol de impactos em outras indústrias, a Vale está no segmento menos afetado. O preço do minério foi um dos que se seguraram melhor dentre todas as commodities, desde o início da pandemia. O mercado futuro está apontando para uma queda suave (na cotação, para perto de US$ 75 em seis meses), como estava desde sempre. Esse é o cenário hoje, mas essa curva pode piorar.

A Comissão de Valores Mobiliários recomenda às empresas que reportem impactos do coronavírus. A Vale vai reapresentar guidances (projeções) ou fazer baixas contábeis?

Siani: Se eu tivesse essa informação, divulgaria hoje. Estamos seguindo as recomendações da CVM. Divulgamos, por exemplo, a estimativa de impacto na produção de cobre pelo (maior tempo de) fechamento da mina de Voisey's Bay, que foi de 2 mil toneladas para 6 mil toneladas.

A exemplo de outras empresas, a Vale vai cortar a remuneração de executivos?

Siani: Nesse ambiente, a companhia não consegue entregar suas metas financeiras. A remuneração das ações cai. Qualquer sistema de remuneração captura imediatamente uma crise como essa, reduzindo a remuneração dos executivos. O da Vale não vai ser diferente.

No fim de março, a mineração passou a ser considerada atividade essencial pelo Ministério de Minas e Energia (MME), mas há relatos de trabalhadores insatisfeitos com as condições nas operações da Vale...

Osorio: A portaria do MME classificou a mineração como atividade econômica essencial porque além de produzir minério de ferro, que é um dos principais produtos da pauta de exportação do País, a Vale produz energia que abastece centenas de cidades, transporta grãos e combustíveis por suas ferrovias. A gente é uma indústria de base e tem impacto em cadeia. Não podemos parar e tomamos as medidas de segurança e os protocolos de saúde estabelecidos por autoridades dos países nos quais a gente opera.

O plano de descomissionamento de barragens pode ser afetado pela crise?

Osorio: O plano anunciado está sendo cumprindo e não há nenhuma alteração. Em segurança de barragens e descomissionamento (o investimento) está mantido. O objetivo é que, nos próximos três anos, todas a estruturas a montante estejam descaracterizadas ou com o fator de segurança adequado, sem oferecer risco às comunidades e municípios localizados abaixo das estruturas e ao meio ambiente.

A Vale tomou medidas de ajuda humanitária, como a compra de 5 milhões de kits de testes para o coronavírus. É uma oportunidade de recuperar sua imagem após Brumadinho e Mariana?

Osorio: O principal interesse da Vale é ajudar o Brasil a enfrentar essa pandemia. A Vale vem aprendendo diariamente com a tragédia de Brumadinho, mudou sua governança, está reparando aquilo que pode ser reparado e buscando estabelecer um novo pacto com a sociedade. A gente já vinha falando desse novo pacto, mas com o gesto está exercitando esse novo pacto. Montamos uma operação de guerra para ajudar o País contra o coronavírus. A Vale ofereceu suporte ao governo federal e mobilizou toda sua estrutura logística e a parceria de cinco décadas com a China para viabilizar a doação humanitária.

A Vale está ajudando fornecedores com a antecipação de quase R$ 1 bilhão em pagamentos. As medidas tomadas pelo governo para ajudar as pequenas e médias empresas são suficientes?

Siani: Todos os governos, em todo o mundo, estão fazendo injeções maciças de recursos para suportar as parcelas mais frágeis da economia. O que o governo brasileiro está fazendo está seguindo a melhor prática mundial.

É um momento em que é preciso elevar gasto público?

Siani: É. Não tem jeito.

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