Agência Vale
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Vale vende à japonesa Mitsui fatia de ativos de carvão em Moçambique

Recursos reforçarão caixa da companhia, afetado pela queda de 50% no preço do minério de ferro

MARIANA DURÃO, MÔNICA CIARELLI, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2014 | 02h02

Após um ano de negociações, a Vale fechou um acordo para transferir parte de suas operações logísticas e de carvão em Moçambique, na África, para a trading japonesa Mitsui. O negócio deve evitar a saída de US$ 3,7 bilhões do caixa da mineradora, pressionada pela queda de 50% no preço do minério de ferro, seu principal produto, em 2014. A conta inclui os pagamentos da Mitsui pelas participações e o capital que a Vale deixará de investir nos projetos.

A operação é mais um desinvestimento feito na gestão de Murilo Ferreira na Vale, dentro da estratégia de concentrar esforços em seu principal negócio e na execução do projeto Serra Sul, em Carajás, o maior da história da companhia (cerca de US$ 17 bilhões). Em 2013 a Vale levantou US$ 6 bilhões com a venda de ativos não estratégicos. "Vivemos momento desafiador da indústria de mineração global, mas nossa visão é de longo prazo", disse Ferreira em teleconferência para comentar o acordo.

Pelo acerto, a Mitsui pagará US$ 450 milhões por 15% da Vale Moçambique, dona de 95% da mina de Moatize. Também injetará US$ 188 milhões, valor proporcional à sua fatia, para financiar o investimento para completar a mina. A japonesa ficará ainda com metade dos 70% da Vale no Corredor Nacala, formado por 912 quilômetros de ferrovia e um porto. Para isso, investirá US$ 313 milhões no corredor logístico, que escoará o carvão produzido pela Vale em Moçambique.

Empréstimo. A transação também envolve um financiamento de até US$ 2,7 bilhões via "project finance" - em que o projeto e suas receitas garantem o empréstimo - para bancar investimentos pendentes em Nacala. A garantia será um contrato "take or pay" (em que a tarifa é paga mesmo sem uso do serviço) de embarque de carvão entre a mina e o corredor. A captação será usada ainda para resgatar US$ 1 bi em dívidas assumidas pela Vale para financiar o projeto até aqui.

Segundo o diretor executivo de Finanças da Vale, Luciano Siani, a Mitsui e a Vale esperam concluir as negociações com bancos japoneses, agências multilaterais e outros bancos até junho de 2015. A meta é levantar US$ 2,7 bi, mas a empresa trabalha com um mínimo de US$ 2 bilhões. Enquanto não for batido o martelo, a Vale continuará financiando os investimentos. "O project finance poderá ser mais competitivo que os empréstimos que temos na mina. É possível até que o custo total econômico baixe", disse Siani.

O Corredor Nacala está orçado em US$ 4 bilhões, dos quais US$ 1,9 bi executados até junho deste ano. De acordo com o diretor executivo de fertilizantes e carvão da Vale, Roger Downey, a ferrovia começou a operar este mês e o primeiro embarque no porto ocorrerá no primeiro trimestre de 2015. Os executivos garantiram que a tarifa cobrada para o transporte no corredor será competitiva o suficiente para remunerar as despesas operacionais de US$ 16 por tonelada e bancar os custos do financiamento fechado para terminar o projeto.

Principal operação de carvão da Vale hoje, Moatize deverá produzir 5 milhões de toneladas de carvão este ano, um crescimento de 34% ante 2013. O cronograma prevê um aumento gradual da produção, até 26 milhões de toneladas em 2018. A ferrovia poderá transportar até 22 milhões de toneladas ao ano e terá que abrir espaço para carga geral, honrando um acordo com o governo local.

Em comunicado divulgado ontem, a Vale ressalta que a transação "suporta a estratégia da Vale de operar ativos de classe mundial, melhora o seu balanço e reduz sua necessidade de aporte de recursos futuros, ao passo que diminui sua exposição ao risco do projeto".

Depois de concluída, a Vale passará a deter indiretamente 81% da mina de Moatize e aproximadamente 35% de Nacala. Como o controle do corredor logístico será compartilhado, a Vale não terá mais que consolidar a dívida do projeto em seu balanço. O negócio deve ser finalizado ao longo de 2015.

O anúncio do acordo não foi suficiente para evitar a queda de 2,27% nas ações com direito a voto da mineradora.

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