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Vale volta a pagar dividendos depois de Brumadinho e ações fecham com alta de 5,84%

Pagamento de US$ 2,3 bilhões ficou acima do previsto e indica que mineradora não prevê mais gastos de reparação referentes à tragédia em Minas

Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 13h36
Atualizado 11 de setembro de 2020 | 19h32

Na primeira distribuição de proventos após o desastre de Brumadinho (MG), a Vale pagará a seus acionistas US$ 2,3 bilhões. Esse montante surpreendeu: o mercado esperava US$ 1,3 bilhão, o mínimo que a empresa teria de pagar de acordo com sua política. O US$ 1 bilhão a mais passa, de acordo com analistas, a mensagem de que para a mineradora, os esforços de reparação referentes a Brumadinho feitos até aqui já foram suficientes.

A simples possibilidade de pagamentos adicionais, inclusive, ainda não era prevista por boa parte dos modelos, e é vista como um catalisador para que a ação da empresa reduza o desconto a que é negociada em relação aos pares australianos.

Nos balanços da Vale, Brumadinho já não era mais uma fonte de surpresas. A mineradora já havia provisionado desde 2019 os recursos que julgava necessários para fazer as reparações referentes à tragédia ocorrida no início do ano passado, e sinalizou que a quantia era suficiente. Entretanto, criou-se no mercado o temor em torno de possíveis novos desembolsos após algumas movimentações da Justiça.

A primeira, no fim de agosto, foi um pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para que R$ 26,7 bilhões fossem bloqueados das contas da empresa para pagamentos relacionados ao desastre. A segunda foi um pedido do Ministério Público Federal de intervenção na empresa e do congelamento do pagamento de dividendos. A ação, que chegou a agosto perto de suas máximas históricas, voltou a ser pressionada e caiu 1,69% no último mês.

O anúncio dos pagamentos feito na quinta-feira, 10, reverte, ao menos em parte, estes temores. "Em nossa visão, o anúncio reforça que a Vale está confortável com o cenário atual para a indenização e os trabalhos de reparação relacionados ao rompimento da barragem de Brumadinho", disse o analista Daniel Sasson, do Itaú BBA.

Os investidores também reagiram bem ao valor dos dividendos e as ações da Vale fecharam com forte alta de 5,84%, uma das maiores da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3.

Do ponto de vista financeiro, os indicadores da Vale têm sido vistos como sólidos, especialmente com a disparada que o minério de ferro exibe na China neste ano e com a alta do dólar, dois fatores que, juntos, aumentam o fluxo de caixa da companhia.

No segundo trimestre, a dívida líquida da empresa foi de US$ 4,697 bilhões, nível mais baixo em quase 12 anos. Isso porque em um ano o caixa da Vale dobrou: passou de US$ 6,064 bilhões em junho de 2019 para US$ 12,206 bilhões no mesmo período deste ano.

A meta "informal" da Vale, de acordo com os bancos, é manter a dívida líquida abaixo de US$ 10 bilhões. Esse valor inclui as provisões relacionadas a Brumadinho.

Alto retorno

Após o anúncio de quinta-feira, os bancos começaram a incluir em seus cenários a possibilidade de dividendos extras, algo que antes não era previsto e que pode levar a retornos altos em 2021. "Argumentamos que se os preços do minério de ferro tiverem correção de 20% a 25% em relação aos níveis atuais (entre US$ 125 e US$ 130 a tonelada), a Vale ainda pagaria um substancial retorno de 15% em dólares, incluindo 6% a 7% extraordinários", diz o BTG Pactual.

O Credit Suisse, por sua vez, estimou que, se o minério cair para US$ 84 a tonelada em média até junho do ano que vem, o retorno ao acionista da Vale será de 12%, também incluindo os dividendos extras. Se ficar em US$ 104, o pagamento seria ainda maior, de 24%, de acordo com os cálculos dos analistas Caio Ribeiro e Gabriel Galvão.

É exatamente por serem um elemento novo que os dividendos extraordinários abrem, segundo os bancos, espaço para que os papéis da Vale reduzam o desconto a que negociam em relação a seus pares australianos. "Hoje, vemos a Vale negociando a 3,2 vezes o valor da empresa/Ebitda para 2021, enquanto as mineradoras australianas negociam a uma média de 5,1 vezes", escrevem Ribeiro e Galvão.

Esse fator tende a ser chave em especial para os acionistas internacionais, dado que boa parte deles pode escolher entre investir nela ou em nomes como BHP e Rio Tinto.

De acordo com a empresa, em 31 de julho, os estrangeiros (excluindo aqueles ligados ao acordo de acionistas) eram 45,63% da base total. Em comparação, os brasileiros respondiam por 25,16% do total - sendo que apenas 6,69% eram pessoas físicas, total que inclui investidores que, no início dos anos 2000, aplicaram parte do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em papéis da mineradora.

Entretanto, outro fator ainda pesa na tese de investimento da Vale: as questões ambientais e de governança. Neste ano, a ação da mineradora foi excluída do portfólio do fundo soberano da Noruega, o maior do mundo, em função dos rompimentos de barragens em Brumadinho e em Mariana, este ocorrido em 2015.

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