Valor da Embraer sobe R$ 3 bilhões em um só dia

Para especialistas, movimento da Boeing seria para se proteger da fusão Airbus-Bombardier

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 23h25

O anúncio de negociação para uma combinação de negócios entre a americana Boeing e a Embraer fez as ações da companhia brasileira dispararem ontem na B3 (nova denominação da Bolsa paulista). Com o salto de 22,5% ao fim do pregão, para R$ 20,20, o valor de mercado da Embraer superou R$ 15 bilhões, ou R$ 3 bilhões a mais do que na véspera. Na máxima, o papel chegou a R$ 23, com valorização de 40%.

O grande interesse da Boeing na Embraer reside no segmento de aviação regional, atendido por aeronaves com cerca de cem lugares, disse André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company e especialista em aviação. “Embora a Embraer tenha bons produtos de uso militar, a Boeing é um colosso no setor”, disse. “Os aviões da Embraer no setor são mais de transporte e treinamento do que, propriamente, de combate, o que fez o Brasil comprar caças suecos.”

O movimento da Boeing também seria uma forma de a americana se proteger do acordo firmado entre a franco-alemã Airbus e a canadense Bombardier, nesse mesmo segmento, em outubro. Conversas nesse sentido foram noticiadas pela colunista Sonia Racy em 21 de outubro, logo após o acordo entre Bombardier e Airbus.

Para Jorge Leal, especialista em aviação e professor da USP, a Embraer teria menor necessidade de formar uma parceria do gênero. “A Embraer vem se dando melhor no mercado do que a Bombardier”, disse.

Na visão de analistas de mercado, a potencial união com a gigante americana poderia ser benéfica à Embraer. O BTG Pactual calculou que o prêmio ante a avaliação atual da empresa brasileira poderia chegar a 50% e estimou o negócio em US$ 15 bilhões (mais de R$ 50 bilhões).

O BTG lembrou, porém, que as ações da Embraer vinham sendo negociadas em patamar bastante baixo. Com as dificuldades enfrentadas no ano passado, a empresa viu o preço de seu papel perder quase 50% – saindo de R$ 29,19, ao fim de 2015, para R$ 15,54, em dezembro de 2016. Ao longo deste ano, mesmo com a melhora dos dados do balanço (ver quadro ao lado), o ânimo dos investidores com o papel foi bem limitado.

Entre 1.º de janeiro e 20 de dezembro de 2017, o papel ON da Embraer havia avançado 6,11%, para R$ 16,49, uma alta de pouco mais de 6%. O desempenho da fabricante ficou bem abaixo do Ibovespa, que acumulava ganho de mais de 20% até quarta-feira.

Prós e contras. Ao se associar à Boeing, a Embraer ganharia acesso a clientes e a capital mais barato para seus aviões de médio porte, segundo Castellini, da Bain & Company.

No entanto, o especialista ressalvou que, qualquer que seja o desenho do acordo – aquisição de todo o negócio ou parceria específica na aviação regional –, a fabricante colocaria em risco uma de suas principais vantagens: a agilidade. “A Embraer é vista como uma empresa capaz de trazer bons produtos de forma rápida ao mercado”, explicou. “Ao se tornar subsidiária de uma gigante, esse poder de decisão seria reduzido.” / COLABOROU FABIANA HOLTZ

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