Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Valorização do franco cria 'sacoleiros' suíços

Com a moeda nacional mais forte, moradores da Suíça cruzam as fronteiras da França, da Alemanha e da Itália para fazer compras

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2015 | 02h05

FERNEY-VOLTAIRE (FRANÇA) - Nas lojas de cidades na França, Alemanha ou Itália que fazem fronteira com a Suíça, a valorização do franco suíço foi comemorada. Isso porque, assim que a moeda passou a ter outro valor, milhares de suíços abandonaram seus comércios locais e passaram a cruzar a fronteira para fazer compras. Em Ferney-Voltaire, que faz fronteira com Genebra, donos de lojas, supermercados, farmácias e postos de gasolina foram obrigados a contratar novos empregados.

"Basta ver o estacionamento do supermercado local", disse Henry Bernet, vereador local. "Estamos na França, mas todos os carros têm placas suíças." A cidade sempre viveu do comércio com Genebra e, de um modo geral, de cada dez francos gastos por um habitante suíço, um é realizado em lojas nas cidades da fronteira. Mas, agora, o que se nota é que as pessoas mudaram seus hábitos e passaram a fazer compras da semana fora de seu país de origem.

Num país onde uma mudança no horário de ônibus chega a gerar debate entre a sociedade, mudar o local onde a população faz compras chega a ser um pequeno terremoto.

Claude Giraud é uma dessas pessoas que, desde que o franco se valorizou, mudou de país onde faz compras. "Ficou tudo muito mais barato na França", afirmou. "Num mês, acho que conseguirei economizar quase 300", disse, mostrando que compra de fraldas a macarrão. "Antes, vínhamos uma vez a cada dois meses. Agora, decidimos que será toda semana."

De sua casa, a distância não é grande - menos de 15 quilômetros. Ela comenta que, aos sábados, a fila de carros suíços tem causado congestionamento.

Na ótica da mesma cidade, o dono da loja, Gabriel Mombelli, também comemora. "Vimos uma explosão do número de clientes e estamos até com problemas para atender a todos dentro do prazo que desejamos." Segundo ele, os óculos custam 40% a menos que em Genebra.

A mesma realidade foi vista do lado da fronteira com a Alemanha. No primeiro fim de semana pós-valorização do franco, a corrida pelos produtos alemães gerou um trânsito de 2 quilômetros em Konstanz, na fronteira entre os dois países.

A "invasão" foi tão grande que os estacionamentos dos supermercados alemães não davam conta dos carros. Centenas deles pararam pela rua e, ao voltar, descobriram que os alemães ganharam também com as multas aplicadas.

O serviço de trem que liga Basileia à Weil am Rhein passou a ficar lotado. Do lado suíço, os caixas automáticos chegaram a ficar sem euros, diante de tantos consumidores que retiraram a moeda para ir às compras.

No auge do inverno e da temporada de esportes de neve, estações suíças passaram a dar descontos de até 30% para aluguel de equipamentos e do passe para o teleférico. Na estação de Verbier, há descontos de 15% sobre o aluguel de chalés aos turistas. Muitos, porém, estão optando por montanhas francesas e italianas, mais baratas.

Efeito em cidades europeias. A mudança cambial na Suíça está levando mais de 1,5 mil cidades da Europa a uma profunda crise da dívida, com centenas delas alertando que não têm mais como pagar as contas. 

Muitas prefeituras, justamente pensando em se proteger de variações bruscas no euro, decidiram pegar empréstimos em franco suíço, considerada como a moeda mais segura da Europa. Com a valorização, a realidade é que as dívidas cresceram em 18% da noite para o dia, em locais já altamente deficitários. 

Apenas na França, 1,3 mil prefeituras estão nesta situação. Uma delas é a cidade de Elven, com 5,6 mil habitantes e que, em 2008, pegou empréstimo de 3 milhões. O contrato, porém, foi indexado em francos e com taxas de juros que acompanhariam eventuais mudanças - jamais pensadas - na Suíça. 

"Quando somamos agora com a nova situação o que temos de pagar por ano, as taxas de juros, os custos dos serviços públicos e outras obrigações, nos damos conta de que não temos dinheiro", admitiu o prefeito de Elven, Gérard Gicquel.

A conta que ele faz é relativamente simples: a dívida da prefeitura está em uma moeda que se valorizou em 18%. Já os impostos recolhidos para justamente fazer esse pagamento estão em outra moeda, o euro, que se desvalorizou. "É um tema de importância nacional", defendeu um dos responsáveis pelas finanças da cidade de Quiberon, Serge Brosolo, também endividada em francos. 

Tribunais. Muitos atacam o banco Dexia por ter vendido essa ideia. "Apenas nos resta os tribunais", disse Auguste Louapre, prefeito de Bruz, com 18 mil habitantes. A cidade de Laval também optou por um recurso no tribunal, insistindo na relação que o banco fez entre uma eventual valorização do franco e a elevação da taxa de juros. Entre as vítimas ainda estão cidades como Chambéry, Clermont-Ferrand ou mesmo Lyon.

No total, cerca de 300 prefeituras e governos regionais já entraram com processo contra o banco, hoje com 75% de suas ações nas mãos do Estado. Uma delas foi a de Haute-Corse, que pegou 40 milhões emprestados. O contrato estava indexado em franco suíço e, no valor da moeda anterior, a taxa de juros era de 5%. Agora, serão de 20%. 

Na Alemanha, a situação não é diferente. A cidade de Essen fez seu primeiro empréstimo em franco suíço há 14 anos. "Tomei a palavra dos suíços como garantia", justificou o tesoureiro do local, Lars Martin Klieve, que em um dia viu sua dívida aumentar em 70 milhões.
Mais conteúdo sobre:
Suíça França

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.