Valorização do real segue rumo global

Nas últimas semanas, dólar se desvalorizou ante principais moedas

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

02 de outubro de 2007 | 00h00

A forte valorização do real brasileiro nas últimas semanas explica-se, em boa parte, pela tendência global de desvalorização do dólar em relação a diversas moedas. O euro, que valia US$ 1,21 na média de janeiro de 2006, era cotado no fim da tarde de ontem a US$ 1,42. A libra esterlina, que valia US$ 1,72 no início de 2006, já está em US$ 2,04. O dólar canadense, no mesmo período, saiu de US$ 0,86 para US$ 1,007. A moeda brasileira, finalmente, valorizou-se de US$ 2,34 para US$ 1,81.Ilan Goldfajn, sócio da Ciano Investimentos, e ex-diretor do Banco Central (BC), explica que dois dos principais fatores que puxam o dólar para baixo são a expectativa de redução relativamente maior dos juros americanos, por um lado, e a perspectiva de desaceleração ou mesmo recessão nos Estados Unidos. Os fluxos de capital, que levam à valorização de uma moeda, são canalizados para os investimentos em renda fixa, dependentes de juros, ou para as participações em empresas, dependentes dos lucros, e, portanto, do crescimento da economia.''''O terceiro determinante'''', acrescenta Goldfajn, ''''é a necessidade do déficit em conta corrente americano diminuir''''. De fato, há muitos anos os economistas preocupam-se com a sustentabilidade do gigantesco déficit externo americano, de cerca de US$ 800 bilhões em 12 meses, ou 6% do Produto Interno Bruto (PIB).''''Eu acredito que veremos uma significativa correção na conta corrente americana nos próximos 12 meses, da ordem de 1,5 ponto porcentual do PIB, ou US$ 200 bilhões'''', avalia o americano Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele lembra que o colapso no mercado residencial americano, que está restringindo o crescimento e o consumo, deve impulsionar o ajuste na conta corrente (quando a economia desacelera, importa-se menos e sobram mais produtos para exportar). Rogoff acha que o ajuste pode prosseguir, com desvalorização de 10% do dólar para cada ponto porcentual do PIB adicional de redução do déficit em conta corrente.O economista Brad Setser, sócio do célebre Nouriel Roubini num dos sites econômicos mais prestigiados do mundo, não considera que os desequilíbrios da economia internacional estejam começando a ser eliminados. Ele observa que o déficit em conta corrente dos EUA pode cair um pouco por causa da desvalorização do dólar em relação ao euro, ao dólar canadense e às moedas latino-americanas, mas o déficit em relação à Ásia (especialmente a China) e aos exportadores de petróleo continua aumentando.Setser nota que muitos emergentes impedem suas moedas de desvalorizar, com maciças compras de reservas (US$ 1 trilhão em 12 meses), o que é um obstáculo à redução do déficit americano com estes países.

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