Vamos acelerar o crescimento da economia brasileira?

O que se espera em 2018 é uma recuperação cíclica da taxa de investimento, mas ainda muito modesta, temporária e gradual

Roberto Giannetti da Fonseca *, O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 05h00

A economia brasileira perdeu dinamismo nos últimos anos e o nível de consumo deixou de ser o principal vetor de propulsão do PIB. Apesar da taxa de desemprego vir caindo moderadamente a partir do segundo trimestre de 2017, ainda permanece em nível muito elevado. Já o endividamento das famílias vem caindo desde o início de 2017, seja por ter atingido seu nível atual de saturação, seja pelo processo distributivo do FGTS promovido pelo governo federal no primeiro semestre de 2017, o qual recolocou cerca de R$ 40 bilhões no bolso dos contribuintes.

É certo que a economia brasileira está em recuperação, mas o que se deveria questionar neste caso é qual o custo social e econômico incorrido neste processo e a qual velocidade ocorre esta recuperação? Permanecem ainda em fins de 2017, algo como 12,5% de taxa de desemprego e de 32,0% de capacidade ociosa industrial. Certamente com um pouco mais de imaginação e iniciativa em políticas de estímulo ao consumo doméstico e às exportações, os níveis de desemprego e de capacidade ociosa poderiam ter sido reduzidos e consequentemente haveria uma maior velocidade de recuperação da renda das famílias, de maior nível de consumo, daí uma maior produção industrial e maior estímulo ao investimento. A virtuosa espiral ascendente do crescimento econômico concluiria sua tarefa.

Poderíamos identificar três vetores básicos para gerar com maior arranque o tal empuxe anticíclico: 1) os investimentos em infraestrutura; 2) um forte estímulo às exportações; e 3) a propensão a poupar das famílias e das empresas, principalmente por meio do mecanismo da previdência complementar. Até o momento não nos parece que nenhum destes três vetores tenha sido acionado de forma satisfatória. A taxa nacional de investimentos, atualmente num patamar inferior a 14% sobre o PIB, precisaria ser elevada para um nível de 25% sobre o PIB, de forma a proporcionar um crescimento potencial da economia brasileira mais condizente com nossa necessidade de geração de renda e emprego.

A boa notícia é de que há pelo menos dois fortes motivos para que o investimento se recupere nos próximos anos. O primeiro motivo é a própria recuperação da economia, mesmo que de forma lenta, que faz com que o aumento da produção elimine gradualmente a capacidade produtiva ociosa disponível. Os mais pessimistas acreditam que o PIB vai levar ainda algum tempo até voltar ao patamar de 2014. Por outro lado, muito da capacidade produtiva instalada antes da recessão talvez já esteja prejudicada para sempre, seja por defasagem tecnológica ou por desmontagem parcial das plantas. O segundo motivo é a recente queda da taxa de juros, que tem impacto direto sobre as despesas financeiras das empresas. Com esses custos em queda e as vendas em alta, a lucratividade das empresas melhora e com isto a propensão e a capacidade em investir. Isso já vem se refletindo nos indicadores de confiança empresarial, que há algum tempo apontam discretamente para cima.

Porém outros fatores poderão pressionar negativamente a disposição para investimento. Um deles é a péssima situação das contas públicas e, em especial, a tendência de alta consistente nas despesas previdenciárias. Como estas devem subir mais que as receitas públicas, outros gastos terão de ser cortados e em geral é o investimento público que sofre, e de quebra se reduz a confiança empresarial na sustentabilidade do crescimento da economia brasileira.

Essa possível retração poderá ficar mais evidente com a proximidade das eleições de outubro próximo, quando se saberá o que os principais candidatos à Presidência da República pretendem fazer em relação ao elevadíssimo déficit público. O que se espera em 2018 é uma recuperação cíclica da taxa de investimento, mas ainda muito modesta, temporária e gradual, sem a pujança de experiências anteriores. O desempregado clama: vamos acelerar a economia? Para ele não dá para esperar 2019.

* EMPRESÁRIO E ECONOMISTA, PRESIDENTE DA KADUNA CONSULTORIA, EX-SECRETÁRIO EXECUTIVO DA CAMEX (2000-2002) E AUTOR DO LIVRO ‘MEMÓRIAS DE UM TRADER’ (EDIT.THOMSON)

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