'Vamos avaliar caso de vaca louca no Brasil'

Dirigente da OIE diz que o País será submetido a avaliação em fevereiro para manter ou não status em relação à doença

Entrevista com

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2012 | 02h11

O governo brasileiro terá de esperar até fevereiro para ter certeza de que a Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE), com sede em Paris, não vai rever o nível de alerta sobre a carne bovina do país. A advertência foi feita pelo diretor-geral da entidade, Bernard Vallat, em entrevista ao Estado.

Segundo a autoridade, se nenhum novo caso de encefalopatia espongiforme bovina (ESB) - ou doença da vaca louca - se manifestar no rebanho brasileiro, todos os embargos anunciados terão de ser levantados.

Por outro lado, se os casos se multiplicarem nas próximas semanas o status do Brasil, que hoje apresenta "risco negligenciável" - o mais baixo possível -, poderá ser revisto.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Países como Japão, China, África do Sul ou ainda a Rússia anunciaram embargos ou estudam a possibilidade em razão de um animal contaminado pela doença da vaca louca no Brasil. Essa decisão se justifica?

A vaca louca é a doença mais complicada que existe no mundo animal. Para avaliar o risco, temos de decidir baseados em importações. É normal quando há um primeiro caso identificado que os países importadores peçam informações muito detalhadas e parem de importar. É uma prática internacional corrente. Essa prática deve cessar quando as garantias de saúde animal forem dadas. Então a decisão final dos importadores deve se basear nas disposições do código da OIE, que foi votado por todos os países-membros.

Logo esse embargo precisa obedecer às disposições da OIE, que neste momento não vê riscos elevados no Brasil. É isso?

As disposições fazem parte de um artigo do código da OIE votado pelos países-membros. A OIE recebeu a declaração oficial do Brasil sobre o caso. Publicamos os detalhes da declaração de alerta. A etapa seguinte é a análise do risco, da qual a OIE é encarregada. O Brasil é reconhecido entre os países em risco negligenciável, a mais favorável categoria. A questão é se o Brasil vai continuar nessa categoria. Temos uma comissão científica, com excelentes experts internacionais, que vai se reunir em fevereiro, uma reunião já prevista há muito tempo. Vamos submeter o Brasil a avaliação e decidir se vamos manter ou alterar seu estado.

Qual seria a tendência hoje dessa análise?

Sabemos que um caso de ESB em um animal com idade avançada não gera alteração de nossa análise de risco. Se for provado que o animal identificado com ESB no Brasil tinha mais de 11 anos, não haverá razão para alterar o status do país.

Então quais são as razões para esses países anunciarem embargos? O sr. vê razões comerciais, além de questões de saúde?

Não sei quais são as razões. Mas quero frisar que é uma prática corrente, ainda mais sobre um país com um status tão favorável quanto o Brasil. Quero ressaltar algo aos consumidores: a carne vermelha não representa nenhum risco aos consumidores. Órgãos ou outras partes podem causar eventualmente representar, mas a carne vermelha é absolutamente segura.

O animal identificado como portador da doença da vaca louca aparentemente tinha 13 anos e morreu em 2010. O sr. vê negligência na conduta do Ministério da Agricultura, que levou dois anos para informar o problema?

Não sei. O Brasil levou dois anos para publicar o resultado, é verdade. Mas não temos elementos para explicar por quê.

O Ministério da Agricultura do Brasil enviou uma missão para se reunir com o sr. e com a direção da OIE em Paris. Qual é o resultado dessa reunião?

Já tivemos vários contatos com altos funcionários brasileiros e não apenas uma reunião. Pedimos muitas informações para poder responder as perguntas - em especial da imprensa, aliás. Temos uma troca contínua com o delegado do Brasil na OIE, que fala em nome do país. As relações entre a OIE e o Brasil foram sempre muito transparentes e eficazes.

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