Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

'Vamos entregar as empresas de bandeja', diz presidente da BM&F Bovespa

Para o executivo, perda do grau de investimento derruba o preço das companhias brasileiras e inviabiliza IPOs

Fernanda Guimarães, Aline Bronzati , O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2015 | 02h05

A perda do grau de investimento pelo Brasil torna todas as empresas brasileiras mais vulneráveis e mais frágeis, não apenas do ponto de vista financeiro, mas porque o valor de mercado das companhias "caiu dramaticamente", afirma o diretor-presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto. "Isso significa que vamos entregar as companhias brasileiras de bandeja para quem é de fora. O preço das empresas está na bacia das almas", afirma o executivo.

Com a decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P), segundo ele, o País perde a possibilidade de atrair investidores de longo prazo, como os grandes fundos de pensão globais, que precisam desse selo de bom pagador para entrar no país. "Nesse sentido a possibilidade, inclusive, de IPOs (ofertas iniciais de ações) fica mais distante para as empresas brasileiras", disse.

Na avaliação do diretor-presidente da BM&FBovespa, o governo brasileiro não se deu conta da gravidade da perda do grau de investimento para as companhias brasileiras, para os investimentos e, como consequência, para as perspectivas de recuperação da economia. "A perda do grau de investimento significa que todas as empresas brasileiras terão um custo de captação de recursos muito maior", disse.

O cenário do mercado de capitais, que já não era positivo, azedou ainda mais com a decisão da S&P e vai exigir dos bancos de investimento um esforço maior para emplacar ofertas a despeito do ambiente desfavorável. A perda do grau de investimento fecha a próxima janela de oportunidade para abertura de capital, principalmente de empresas que têm um braço do governo. As operações eram vistas como recursos certos para diminuir o rombo nas contas públicas. Na prática, a impossibilidade das ofertas de IRB Brasil RE, Caixa Seguridade e BR Distribuidora neste ano levará a União a um esforço adicional na busca de receitas para fechar as contas.

As três ofertas em curso, que haviam, inclusive, arquivado os pedidos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), aconteceriam na esteira do ajuste fiscal. Os investidores estavam exigindo um desconto nas avaliações das empresas antes mesmo do rebaixamento. Se forem mantidas, o preço pode significar uma perda ainda maior de valor para as companhias.

Para o início de outubro, era aguardada a operação do ressegurador IRB Brasil RE que planejava captar cerca de R$ 3 bilhões. Conversas com investidores tinham sido iniciadas, mas a percepção de executivos do mercado é de que, no cenário atual, a oferta dificilmente sairá em um mês. "A janela fica mais difícil. Já não seria fácil. O ponto é que insistir em um IPO neste cenário pode provocar uma destruição muito grande de valor", opina um gestor.

Com o rebaixamento do Brasil por uma agência e a expectativa de que outras perdas do selo venham a reboque, o entendimento de fontes do mercado é de que até mesmo o setor de seguros, com potencial de crescimento do Brasil, seja olhado com receio pelos investidores. "É difícil ter IPO em um cenário como esse. Alguns investidores têm restrições em alocar recursos em países sem grau de investimento", diz André Gregori, consultor e ex-presidente da seguradora do BTG.

O que agrava a situação é que os IPOs, no Brasil, são muito dependentes dos investidores estrangeiros, que na média histórica acabam ficando com cerca de 70% das ações ofertadas.

Interrupção. Além do IRB, ainda eram aguardadas as aberturas de capital da Caixa Seguridade, braço de seguros da Caixa Econômica, e da BR Distribuidora. No caso da seguradora, a possibilidade de a oferta não sair neste ano já existia, após as negociações com os sócios franceses terem emperrado.

Para a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás, havia uma expectativa de o IPO ocorrer em dezembro. A oferta já era vista com cautela, uma vez que a percepção comum era de que a companhia precisaria equacionar questões de governança corporativa antes da abertura.

Segundo Edemir Pinto, no entanto, a discussão em torno da perda do selo de bom pagador vai além dos IPOs. "Sem grau de investimento teremos menos crescimento e menos emprego." "(A perda do grau de investimento) significa que vamos entregar as companhias brasileiras de bandeja para quem está de fora. O preço das empresas está na bacia das almas"

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