Divulgação
Divulgação

'Vamos estreitar laços de Israel com o Brasil'

Investidor israelense explica por que seu país virou a 'nação das startups' e diz como o Brasil pode aprender com essa experiência

Entrevista com

Nayara Fraga, do Economia&Negócios, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2012 | 03h04

SÃO PAULO - A empresa de investimentos Initial Capital, criada há um ano pelo brasileiro Daniel Cunha e dois israelenses, escolheu a startup Glambox, da princesa Paola de Orleans e Bragança, para apostar suas primeiras fichas no Brasil. A companhia vende caixas com produtos de beleza, entregues mensalmente na casa dos assinantes do serviço online.

O investimento é o quarto da Initial Capital, que já fez aportes em três startups israelenses: Evoz, Wibbitz e Pose. Outros negócios devem ser anunciados neste ano - não só lá, mas também no Brasil.

Por mais estranha que a sociedade entre investidores de países tão distantes possa parecer, a iniciativa pretende ir longe, segundo Roi Carthy*, sócio e cofundador da Initial. Sua ideia é promover uma conexão maior entre o Brasil e a "nação das startups". Israel só perde para os Estados Unidos e a China em número de empresas iniciantes listadas na Nasdaq.

Há um mês, ele esteve no País para conhecer 30 startups, em São Paulo, Rio e Belo Horizonte. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como foi a visita às startups brasileiras?

Vim sem nenhuma expectativa e tive uma surpresa muito agradável. Fiquei impressionado com a forma articulada de se apresentarem (em inglês). Algumas ideias são muito interessantes, mas outras estão baseadas em negócios que já vi fracassar. Nesses casos, sugerimos outro caminho e a seguinte reflexão: faça as contas. Tem sentido o seu projeto? Não queríamos magoar ninguém, mas acho que partimos o coração de um empreendedor. Afinal, estávamos falando de seu bebê.

Alguma cidade se destacou por suas jovens empresas?

Acredito que, dentre as que visitei, Belo Horizonte é a cidade com mais chances de se destacar no cenário das startups. Não me admiraria se isso acontecesse nos próximos três anos. Senti que havia uma comunidade unida lá (o bairro São Pedro, que reúne alguma startups, ganhou o apelido San Pedro Valley). Vi ideias qualificadas, bons empreendedores e um movimento mais orgânico.

O que elas têm em comum?

Eu já tinha uma ideia, mas, com a viagem, vi de perto como os empreendedores não são perspicazes como deveriam ser com procedimentos burocráticos, como registro de companhia. Infelizmente, para brasileiros, isso é chato. É preciso fazer muito dever de casa antes para aprender como abrir uma empresa. Aliás, esse é um desafio enorme e muito problemático. Se o governo do Brasil vê as jovens empresas de tecnologia como um ativo estratégico para o futuro, alguma fórmula deverá ser criada para facilitar sua criação.

Em quanto tempo se abre uma empresa em Israel?

Ah, é moleza. Uma tarde.

Como Israel consegue ser tão eficiente na área tecnológica?

Está no nosso sangue a cultura do empreendedorismo. Isso se alia ao fato de falarmos vários idiomas. Se é para negociar na Alemanha ou no Brasil, temos quem fale essas línguas. Existe também a força de um ecossistema formado por experientes investidores, advogados, contadores, designers... E somos um país pequeno. A maioria das startups está a menos de 30 quilômetros de distância uma das outras. Você sabe quem está a sua volta. O exército, onde se aprende programação de software, também é muito importante. Fora isso, investimos 4,4% do nosso PIB em pesquisa e desenvolvimento.

O que pode servir de lição para o Brasil?

Um dos desafios aqui é a conexão entre investidores e empresários e mesmo entre os próprios empresários. Em Israel, é muito comum empreendedores darem palestras para seus semelhantes. Não é necessário trazer uma celebridade para passar suas experiências, entende? Falta essa noção no Brasil. Além disso, aqui as discussões se concentram mais em como levantar dinheiro. Lá, conversamos mais sobre marketing, tecnologia e experiência do usuário. É por isso que queremos estimular essa troca com o Brasil.

Como?

Vamos tentar estreitar os laços com os empreendedores brasileiros, levando-os até Israel para mostrar o que fazemos lá. Nós vemos o Brasil muito mais próximo de Israel do que vocês. Se israelenses querem vir ao Brasil, ok. Compram uma passagem e voam. O contrário não é tão simples. O brasileiro médio nem sabe onde Israel está no mapa.

Qual é a sua expectativa em relação ao Brasil?

O negócio não será reinventado em um dia. Acho que o Brasil vai levar dez anos para se destacar no cenário tecnológico. Mas minha impressão é muito positiva. Todos os ingredientes para se criar a nova fronteira dos negócios na internet estão aqui.

* Roi Carthy, sócio e cofundador da Initial Capital, é um empreendedor israelense que investe em jovens empresas de tecnologia. É responsável pelo escritório da Initial em Israel e é correspondente do TechCrunch. Veio ao Brasil para avaliar 30 startups.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.