'Vamos financiar 40% da expansão com caixa próprio'

Projeto de ampliação dafabricante de celulose emMS consumirá R$ 7,7 bi e financiamento dependerá menos do BNDES

FERNANDO SCHELLER, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2015 | 02h03

Depois de um longo processo de reorganização financeira, a Fibria - resultado da união da VCP com a problemática Aracruz -, anunciou na quinta-feira o primeiro projeto de expansão da companhia, criada em 2009. O "dever de casa", explicou o presidente da Fibria, Marcelo Castelli, permitirá que 40% do investimento de R$ 7,7 bilhões na expansão da fábrica de Três Lagoas (MS) sejam feitos sem empréstimos. A construção começa em junho e a unidade deverá ser concluída no fim de 2017.

Ontem, o executivo falou ao Estado sobre o projeto, que elevará a produção anual da Fibria para 7 milhões de toneladas. Veja os principais trechos:

A empresa usará o próprio caixa para financiar o projeto?

Sim. A nossa geração da caixa vai nos trazer tranquilidade para que cerca de 40% do investimento seja feito com o caixa originado pelas operações.

No financiamento dos 60% restantes, a participação do BNDES será mais discreta?

Sim, até porque o BNDES está reduzindo o potencial máximo de financiamento (de projetos). Hoje, o financiamento é de até 50% dos projetos, com duas taxas de juros distintas. Até 30% do projeto tem uma taxa de juros que continua bem atrativa. Acima disso, existe uma outra taxa, que não deixa de ser interessante para a maioria do mercado. Mas a Fibria vai contar mais com esses 30%. E vamos procurar outras linhas além das oferecidas pelo BNDES.

Um grande projeto de celulose geralmente leva três anos. Por que a Fibria conseguirá fazer tudo em dois anos e meio?

Esse projeto já vinha sendo trabalhado. A Fibria sempre forma suas bases florestais com antecedência. Já temos as licenças ambiental e de instalação, toda a engenharia conceitual básica está feita.

A partir de agora, qual é o cronograma do projeto?

A aprovação do projeto ocorreu agora em maio. A compra dos primeiros equipamentos será feita em junho. O início da movimentação no canteiro de obras começa entre o fim de junho e o início de julho. As obras civis começam no quarto trimestre. Depois vem a montagem de equipamentos. A produção começa no último trimestre de 2017.

Parte do mercado esperava que o projeto viesse antes. Por que esperar um ano após o grau de investimento?

A indústria de celulose é de capital intensivo. Não há como conseguir fazer uma expansão sem pensar no risco de crédito. A lição de casa foi feita nesses cinco anos, trouxemos a empresa para o patamar de grau de investimento. Todos os nossos custos de captação embutem um dos menores riscos de crédito do País. O nosso DNA é de crescimento com responsabilidade. O último grande investimento que nós fizemos foi em 2009, um pouco antes da criação da Fibria, ainda na época da VCP.

Como ficará a alavancagem da Fibria no 'pico' de investimento do projeto?

Com o grau de investimento que conquistamos, temos tranquilidade. Mesmo com os investimentos altos, teremos um nível de alavancagem máximo de no máximo 3 vezes o Ebitda (juros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações).

Qual será o custo de produção do projeto?

A Fibria, dependendo do cenário de câmbio, tem hoje um custo-caixa de US$ 199 (na produção de celulose). Esse projeto vai ajudar a Fibria a ser mais competitiva, pois o custo estará mais próximo de US$ 100 do que de US$ 199. A Fibria já é uma das mais competitivas nesta curva de custo. Com esse aumento de capacidade, ficará mais competitiva ainda.

Esse custo mais baixo está intimamente ligado à proximidade entre floresta e fábrica?

Sim. Quanto mais no 'quintal' da fábrica a floresta estiver, maior a competitividade. Se pudéssemos escolher, faríamos a fábrica pertinho da floresta, e as duas perto do porto. Mas, se temos de abrir mão de um dos dois, preferimos ficar longe do porto. Isso porque movimento quatro vezes madeira do que celulose pronta. As florestas, no nosso caso, estarão a uma distância média de 95 km das duas fábricas.

Qual será a geração de empregos, na obra e na operação dessa nova unidade?

O histórico mostra que grandes projetos deste tipo podem empregar, ao longo de pouco mais de dois anos, cerca de 40 mil pessoas (diretos e indiretos). O pico da obra terá 10 mil pessoas. Na operação, serão 3 mil empregos na indústria e nas atividades florestais.

Com o desenvolvimento dos fundos florestais, as grandes empresas de celulose não precisam mais ter florestas próprias?

O mercado brasileiro se desenvolveu e há investimentos para a criação de bases florestais próximas às fábricas. Antigamente, a terra era barata e não se tinha um marco regulatório para o arrendamento. Agora temos segurança jurídica. A base florestal será mais enxuta, liberando capital a outros investimentos. Teremos florestas próprias e de terceiros, sempre gerenciadas pela companhia.

E o projeto da Eldorado, a ser erguido também em Três Lagoas, não pode levar a uma superoferta de celulose em 2018?

As duas empresas terão de ter sabedoria para equilibrar os projetos para contornar eventuais sobreposições e tirar o máximo de benefício (deles).

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