Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

coluna

Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

‘Vamos ter de correr algum risco para gerar empregos’, diz fundador da construtora Tecnisa

Empresário do setor imobiliário diz que é necessário priorizar funcionamento de setores que mais movimentam a economia; ele participou da série ‘Economia na Quarentena’, do ‘Estadão’

Entrevista com

Meyer Nigri, fundador da Tecnisa

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 17h48

Um dos principais empresários do setor imobiliário, Meyer Nigri, fundador e presidente do conselho de administração da incorporadora Tecnisa, defende a retomada ao trabalho para evitar uma crise econômica ainda mais profunda no País, mesmo em um cenário de alto índice de mortes por causa da crise gerada pela pandemia do novo coronavírus.

“A minha posição é de não abrir tudo. O risco tem de compensar. Vamos correr algum tipo de risco que possa gerar emprego do outro lado. No geral, sou a favor de liberar com critério”, disse Nigri. O empresário participou hoje da série de entrevistas ao vivo Economia na Quarentena, do Estadão.

Em relação à construção civil, o empresário não vê uma maior ocorrência dos distratos de contratos já celebrados na esteira da retração da economia prevista para 2020. Segundo Nigri, quem comprou recentemente o imóvel, não deverá se desfazer do negócio, a não ser que perca o trabalho. “O distrato não interessa a nenhuma das partes. Há interesse das empresas de renegociar contratos”, disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O setor imobiliário vivia um novo boom antes de quarentena. O sr. vê a volta dos distratos com a pandemia?

A questão do distrato (rompimento de contrato), que já foi o maior problema do setor, foi resolvido parcialmente com uma lei criada em 27 de dezembro de 2018. Essa lei diz que, no caso de uma rescisão por parte do cliente, os incorporadores podem reter até 50% do valor pago e devolver o restante. Isso já resolve parte do problema porque inibe o comprador a pedir o distrato, uma vez que ele tem uma perda caso faça isso. Antes do coronavírus, os distratos já tinham caído a níveis muito baixos. Agora, pós-covid-19, não acredito que vá ter um pedido muito significativo de distratos, considerando que os que compraram recentemente são pessoas que precisam do imóvel. Não acredito que o número vá crescer nem vejo os preços dos imóveis caindo. 

As incorporadoras e construtoras vão tentar renegociar?

O distrato não interessa a nenhuma das partes. A empresa perde e comprador também. É muito mais provável que as empresas vão tentar fazer acordo, renegociar os pagamentos e dar condições para os consumidores se adaptarem. 

Como está o cenário para Tecnisa em meio à pandemia? Fizeram demissões?

Nós não demitimos ninguém nos escritórios ou nas obras.  As obras continuaram andando e foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Medimos a temperatura de todos funcionários todos os dias. Eles recebem máscaras e álcool em gel e trabalham em lugar aberto. Acredito que muitos trabalhadores estão mais protegidos no trabalho do que na casa deles. Dos poucos casos que temos no setor, não dá para identificar se foi contaminado na obra, no transporte ou na casa deles. Os trabalhadores que fazem parte do grupo de risco foram afastados. Nas obras, 90% estão trabalhando com contingente normal. 

Analisando a tendência de home office, haverá menor demanda por imóveis comerciais?

Não sou especialista em escritórios, mas a sensação que tenho é que, num primeiro momento, haverá mais pessoas em casa fazendo home office e isso deve demandar menos espaço. Por outro lado, vamos precisar não adensar tanto e espaçar mais. Hoje temos uma regra da prefeitura, que exige um colaborador para cada 7 metros quadrados. Quase ninguém segue. Mas provavelmente vamos ver empresas que trabalham muito menos do que esse número e que vão ter de trabalhar com 10 metros quadrados (de distância). Não acho que vai ter muito mais gente fazendo trabalho em casa. A integração fica mais eficiente se o trabalho é presencial. 

E em relação aos imóveis residenciais? Vai ter correção de preços para baixo?

Não acredito nisso. A não ser imóveis avulsos. Para o incorporador, os preços não caem. As projeções até o início do ano era que os preços dos imóveis subissem. Não acredito que vá subir também. Vai depender do nível de emprego. Para ter um bom ambiente no mercado imobiliário, é preciso duas coisas: emprego e financiamento imobiliário. O financiamento ao comprador existe. É preciso ver como o nível de emprego fica. 

Pode mudar o perfil do consumidor, que buscava adquirir imóveis menores próximos à região central em vez de zonas periféricas? 

São Paulo é um município pouquíssimo adensado comparado a outras capitais no mundo. Nas periferias, é mais adensado, uma vez que se constroem imóveis irregularmente. O último plano diretor incentiva construções nos eixos. Isso vai continuar. Mas também vai chegar um momento que apartamentos de três e quatro dormitórios estarão em falta porque está muito difícil desenvolver imóveis nessas dimensões.

Muito se fala em transformação digital hoje. Dá para vender imóvel para internet?

Fomos os pioneiros em vender pela internet. A gente chegava a originar 30% das vendas pela internet. Temos condições hoje até de assinar contrato online. Porém, o cliente, neste momento de indecisão, tem dificuldade de decidir. Então precisa ir para o local e ver o estande ou o decorado, prejudica mais. O plantão ajuda muito a vender. E, com as medidas de segurança, poderia estar aberto.

Há um desalinhamento do governo federal com parte dos governadores sobre o isolamento social. Qual sua opinião?

Não sou especialista. Minha opinião é que o isolamento total faria mais sentido (em um primeiro momento). Porém, o brasileiro é indisciplinado – não somos nem Coreia nem Japão. Não adianta os Jardins e Oscar Freire estarem com os comércios fechados, mas a periferia estar com todos circulando, transportes cheios. Dessa forma, não funciona. Se abrir os serviços dentro dos protocolos, o risco de contaminação é mínimo. Estamos num jogo que não tem ganha-perde. É perde-perde. Temos de decidir com qual (estratégia) que se perde menos. Eu me preocupo muito com essa brecada porque vamos pagar esse preço depois. A minha posição é de não abrir tudo. Não precisa colocar 50 mil pessoas num estádio, por exemplo. Isso não gera emprego. 

Vivemos neste momento uma instabilidade política em cima da crise econômica e sanitária. Vimos importantes ministros saindo. Isso atrapalha ainda mais?

Claro. Sempre que existe um desacordo num país, sai todo mundo perdendo. Se não há entendimento entre as partes, todos perdem. 

Como os empresários estão alinhados? 

Das pessoas com as quais tenho contato, a grande maioria apoia a volta do trabalho. As medidas anunciadas pelo (governador) João Doria indicam a volta gradual. Temos as obras andando, mas temos os estandes fechados. Em Brasília, está andando, mas em São Paulo está tudo parado.

Com o aumento do número de casos de coronavírus no Brasil, a pressão pela retomada da economia não precisa tomar o cuidado de não minimizar a gravidade da situação da crise de saúde?

Mesmo quem é a favor de voltar ao trabalho não está minimizando o tamanho da pandemia. Não é uma decisão (apenas) de saúde. Temos de tomar a decisão de perder um ou perder vinte. Sei que é difícil  para o político assumir que algumas pessoas vão morrer. Se não trabalharmos, a perda vai ser pior. Acho que ter parado por algum tempo foi saudável, foi o tempo de instruir as pessoas da necessidade de usar máscaras e álcool em gel. Foi o tempo também das pessoas conseguir todo o material que precisa, pois até máscara era difícil. E conscientizar a população, para voltarmos a trabalhar com responsabilidade. E não são todos os setores, são apenas aqueles que fazem a economia girar. O risco tem de compensar, tem de ter algum benefício do outro lado. Temos de arriscar um pouco para poder gerar empregos e diminuir o problema social.

O sr. acredita que houve uma minimização da crise do coronavírus na reunião de 22 de abril, cujo vídeo foi divulgado por decisão judicial?

Não sei.

Qual sua expectativa de retomada para o mercado imobiliário?

Acho que pode ser muito rápida, especialmente se o pacote de ajuda da economia do governo tiver algum elemento de redução da taxa de juro do financiamento imobiliário para pessoas físicas. A Caixa já reduziu juros para pessoas jurídicas e outras coisas que ajudaram, mas não resolve o problema. Nós recomendamos ao governo uma mudança de indexação da amortização pelo IPCA, e não só pela TR (Taxa Referencial). O valor da primeira prestação cai muito. Hoje, a primeira parcela é muito alta. Se você muda o indexador, a taxa de juros diminui e a primeira prestação. A renda necessária para a compra do imóvel diminui. Para cada 1 ponto porcentual de redução na taxa de juros pelo IPCA, o valor da parcela cai 13%. Se a Caixa reduzir 3 pontos porcentuais o juro, o que eu acho muito viável, o valor da parcela pode cair quase 40%. Vai ser uma revolução mercado.

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