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Vantagens e problemas neste início de governo

Jair Bolsonaro terá lua de mel curta na Presidência da República

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

30 de dezembro de 2018 | 05h00

O governo Bolsonaro começa aproveitando-se de algumas vantagens. Mas os problemas de várias magnitudes não podem ser subestimados. Falhas graves podem produzir crises profundas e colapso da capacidade de governar.

Como acontece em geral com os recentemente eleitos e empossados, o novo governo espera contar com uma temporada de lua de mel. Trata-se de um período de graça que se convencionou deva durar 100 dias. 

No entanto, é tal a quantidade de bombas, principalmente as fiscais, prontas para estourar nas próximas semanas, que Bolsonaro não deve contar com todos esses 100 dias de lua de mel. Ao contrário, como aconteceu com Napoleão, no período de cem dias de sobrevida convulsionada que obteve, entre sua fuga da Ilha de Elba e sua derrota final em Waterloo, Bolsonaro terá de enfrentar, desde o início, forte jogo contra de várias frentes.

Vantagem mais relevante talvez seja a de não ter de enfrentar logo de cara uma oposição organizada. As eleições desestruturaram a vida de partidos até recentemente tidos como relativamente bem estruturados, como o PT, o MDB e o PSDB. Eles levarão bom tempo para juntar seus cacos e podem não ter força para assediar as fortalezas do governo. Mas, se vacilações houver, a oposição saberá tirar proveito delas também para se reagrupar.

Bolsonaro conta, também, com certo apoio político – não necessariamente popular – a uma agenda de reformas. E, não menos importante, as eleições mostraram que a população espera determinação no combate à corrupção, e esta é uma frente em que o novo governo pode ganhar pontos, a despeito das acusações que cercam gente muito próxima do presidente.

Os obstáculos são relevantes. Uma hesitação no encaminhamento das reformas, por exemplo, como tem transparecido de declarações esparsas do presidente eleito, mostrará fraqueza, com potencial para produzir graves desgastes políticos.

Desde já se ignora como se construirá a nova base política, sem a qual nenhum governo para de pé. Há novos polos de poder à procura de chão para ocupar o vácuo deixado pelo encolhimento dos partidos. Há o núcleo militar; há o dos políticos tradicionais, que agora giram em torno do novo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni; há as bancadas parlamentares conhecidas como BBB (de Bíblia, boi e bala), cada uma com suas demandas e suas peculiaridades; há o Supremo, que se meteu a tomar decisões políticas; e há a família Bolsonaro que, por si só, vem gerando fatos políticos, nem sempre favoráveis ao novo presidente.

Como a situação financeira da maioria dos Estados e municípios é insustentável, serão esperadas pressões políticas para que o governo destampe o caixa da União. As primeiras tentativas são de não fazer concessões a governadores e prefeitos sem claras contrapartidas na área fiscal. Mas não está nem um pouco claro como e se essas tentativas terão eficácia.

As primeiras escolhas foram criar dois fortes núcleos de administração: são eles o superministério da Economia, a ser liderado pelo economista Paulo Guedes; e o da Justiça, encabeçado pelo ex-magistrado Sérgio Moro.

Desses dois centros fortes dependerá boa parte do sucesso da administração. Se forem marcados gols importantes na economia e na segurança, o resto tende a vir no vácuo desse sucesso.

A economia conta com uma situação mais favorável do que vem sendo admitida. A inflação há muito não foi tão baixa e nesse ritmo arrastou para baixo também os juros; as contas externas exibem grande robustez, o que afasta riscos de corrida cambial; há maior perspectiva de crescimento econômico; e bom número de projetos de infraestrutura e de leilão de concessão de serviços públicos tem meio caminho andado. Mas o governo terá de enfrentar a impopularidade das reformas, sobretudo as da Previdência Social, e a do conserto dos estragos causados pelo rombo fiscal.

O Ministério da Justiça conta com nova estruturação de frentes internas (especialmente pelo Carf) contra a atuação do narcotráfico e contra a lavagem de dinheiro. Mas, além da má vontade da classe política, que teme a Operação Lava Jato, enfrenta o jogo perigoso e desestruturador do crime organizado. No entanto, se essas duas áreas mostrarem fraqueza, toda a administração poderá vir a ser comprometida.

Das incertezas que cercam esse início de governo sobressai uma certeza: não faltará emoção para quem gosta de emoção.

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