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Magazine Luiza reportou lucro líquido de R$ 140,7 milhões no segundo trimestre de 2018 Divulgação

Varejista tradicional, Magazine Luiza enfrenta startups em 'guerra dos aplicativos'

Além da gigante dos eletrodomésticos, o Mercado Livre, um dos nomes mais tradicionais da internet no País, também busca diversificação de serviços

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 07h00

Entre as empresas listadas pelo estudo do Itaú BBA como potenciais superaplicativos brasileiros, o Magazine Luiza se destaca por ter origem em lojas físicas. Reconhecido pelo mercado financeiro por ter conseguido fazer o "casamento" entre os meios tradicional e digital, o Magazine agora tem uma ambição bem maior: quer se acotovelar com gigantes da internet para ofertar um app de serviços variados a seus consumidores.

"De 2015 para cá, o Magazine Luiza fez um investimento muito forte em tecnologia", diz André Fatala, diretor de tecnologia da companhia. "Em 2017, a empresa começou a vender por meio de 'marketplace' (plataforma da varejista na qual outros 'lojistas' oferecem produtos), tendo mais de mil vendedores em sua plataforma." 

O processo de desenvolvimento de uma pegada maior no mundo online também se refletiu em aquisições. Em 2019, a empresa conseguiu concretizar a aquisição da Netshoes, varejista de moda e artigos esportivos que enfrentava dificuldades financeiras, após uma longa disputa com a Centauro.

A lógica por trás do negócio era tecnológica: com a Netshoes, o Magazine teve acesso a uma grande base de clientes que indicava o comportamento do brasileiro ao adquirir moda pela web. Ou seja: em vez de comprar uma empresa problemática, a varejista teve como alvo os dados da Netshoes

Segundo Fatala, o direcionamento da empresa é pensar "o Magalu como uma companhia de serviços". Nesse sentido, a estratégia é criar um superapp ainda este ano. Entre os serviços que já estão em desenvolvimento e deverão ser lançados até dezembro, de acordo com o executivo, está a conta digital do Magazine Luiza. 

Fatala diz que o app vai ser uma forma de trazer mais demanda à companhia. "Ficar só na parte de venda de eletrodomésticos não traz o usuário com muita frequência (para a plataforma). Com o marketplace e a Netshoes, o cliente hoje consegue encontrar quase tudo o que ele precisa (no Magazine Luiza)."

Carteira digital

Com 20 anos de atuação no Brasil, o tradicional site de e-commerce Mercado Livre está usando sua plataforma de pagamentos Mercado Pago para ampliar seus serviços no Brasil. A conta digital do Mercado Pago, por exemplo, já oferece remuneração do saldo em 100% do CDI para evitar que os correntistas percam dinheiro.

Para reduzir sua dependência da “empresa-mãe”, o Mercado Pago também está ampliando rapidamente sua presença em pontos físicos de varejo, onde oferece a seus clientes a oportunidade de pagar pelo celular, via QR Code. Segundo Rodrigo Furiato, diretor do Mercado Pago, a empresa está ampliando sua presença para varejistas como Raia Drogasil e para redes de alimentação como Café do Ponto.

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Pedir comida, pagar conta e chamar o goleiro em um só aplicativo: a corrida pelo superapp brasileiro

Começa a esquentar no País disputa entre empresas de e-commerce, transporte, entregas, pagamentos e até bancos digitais para se tornar a preferida dos brasileiros

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 07h00

A partir de uma ferramenta semelhante ao WhatsApp, o WeChat, da gigante Tencent, criou um ambiente no qual se faz de quase tudo: pedir comida, reservar um carro para ir ao aeroporto e até transferir dinheiro sem se distrair das novidades enviadas a todo o momento por amigos. A companhia chinesa é dona do superapp mais famoso no mundo, mas outras iniciativas semelhantes ganham fôlego em países como Índia e Cingapura. Diante do tamanho do mercado brasileiro e da ausência de uma ferramenta que tenha conquistado a preferência e a onipresença para realizar todos os serviços, empresas dos mais diversos segmentos já se posicionam na corrida para se tornar o superapp nacional.

Segundo estudo do Itaú BBA, a lista de potenciais superapps brasileiros é longa. Os setores de origem desses candidatos a consolidadores digitais também são diversos. Estão na briga ferramentas de mensagens (como Facebook e WhatsApp), meios de pagamento (como Mercado Pago e Ame, da B2W, dona da Americanas.com), empresas de transporte (Uber, 99, Yellow), serviços de entregas (iFood e Rappi) e gigantes do e-commerce (Mercado Livre, Amazon e Magazine Luiza). Nas últimas semanas, alguns bancos digitais também têm se mostrado dispostos a entrar nessa briga (leia mais abaixo).

Antes que os investidores comecem a fazer suas apostas em relação a um vencedor, o estudo do Itaú BBA diz que ainda é cedo para dizer se a estrutura do superapp tem mesmo chance de vingar por aqui. Uma das razões, segundo Enrico Trotta, um dos autores do levantamento, é o fato de o conceito de privacidade na internet dos chineses ser muito diferente do adotado no resto do mundo. “A China não tem um governo democrático. Logo, é vantajoso incentivar a concentração das informações da população em um aplicativo só.”

Feita essa ressalva, o estudo mostra que o WeChat está longe de ser o único superapp do mercado asiático. Por lá, fica claro que todas as “candidatas” brasileiras a superapp têm chances de lograr sucesso na prestação de serviços variados. Isso porque há casos de empresas de transporte, entregas, pagamentos e e-commerce que conseguiram fazer o salto para diversas outras áreas, agregando uma série de serviços a partir da plataforma original.

 

Uma enorme gama de serviços

Entre as empresas listadas pelo Itaú BBA como possíveis consolidadoras de serviços, a que se declara mais disposta a se tornar um superapp é o Rappi. A startup surgiu na Colômbia, mas logo elegeu o Brasil como seu principal mercado. A empresa já faz entrega de comida (de supermercados e restaurantes), tem uma carteira digital para pagamentos e também é forte em e-commerce de produtos e serviços ­– uma das novidades mais recentes do app é a possibilidade de um time de futebol de várzea “alugar” um entregador do Rappi como goleiro, pagando por hora.

A intenção do Rappi, segundo o diretor de expansão Ricardo Bachara, é ser uma espécie de “faz tudo” para os usuários – dessa forma, a repetição do uso deve levar o cliente automaticamente a outros serviços, como a carteira digital RappiPay, que também inclui um serviço de transferências de dinheiro. “Hoje, os serviços de mensagens são campeões de frequência, pois os usuários abrem esses apps 30 vezes por dia", admite. Ele afirma, porém, que o Rappi vem conseguindo ganhar musculatura: "Ao agregar novos serviços no mundo online e físico, a gente vem crescendo 30% ao mês no Brasil.”

Embora o Rappi tenha em seu favor a clareza de que pretende ser um superapp, o analista Thiago Macruz, coautor do estudo do Itaú BBA, diz que a estratégia de crescimento acelerado do app no País tem um limite. Isso porque muitos dos serviços que presta ao consumidor hoje são subsidiados. É o caso de um dos principais motores do aplicativo: o serviço de compras personalizadas em supermercados como o Carrefour.

Neste momento, explica Macruz, o Rappi está “comprando” clientes não só com ofertas interessantes, mas também com cupons e promoções. “É uma estratégia que exige muito capital. A intenção é trazer tráfego e oferecer conveniência para que o cliente adquira o hábito do uso e volte naturalmente, sem incentivo.”

Líder hesitante?

Na ponta oposta do espectro, segundo o estudo, está o WhatsApp – um app de mensagens como era, inicialmente, o WeChat. Se o Rappi é candidato natural a superapp pela variedade de serviços, o serviço de mensagens do Facebook tem algo vital para a construção de uma plataforma multisserviço: a grande quantidade de usuários com presença constante em sua plataforma. No entanto, pelo menos até agora, o WhatsApp e seu dono, o Facebook, não fizeram nada de relevante para se tornarem um superapp.

Alguns analistas do setor de tecnologia especularam que a união das funções de WhatsApp, Facebook e Instagram anunciada pelo grupo comandado por Mark Zuckerberg poderia ser um primeiro passo em direção a uma atuação mais semelhante à do rival chinês WeChat. No entanto, autoridades americanas antitruste dos Estados Unidos já sinalizaram que, mesmo com os serviços atuais, o domínio do Facebook já poderia estar além do recomendado. Procurados pelo Estado, Facebook e WhatsApp não quiseram dar entrevista.

Plataforma de rede

A startup brasileira Movile – dona do iFood – diz estar criando uma rede de serviços que não será necessariamente agregada em um único app. Hoje, a Movile tem outras ofertas, como a Sympla (de eventos e vendas de ingressos) e o iFoodPay, uma carteira digital. “Para mim essa história de superapp é ultrapassada. Com serviços como o Google Assistant e a Alexa, da Amazon, tudo vai mudar. O mundo vai ser muito diferente daqui três ou quatro anos”, diz Eduardo Henrique, cofundador da Movile.

Enquanto essa mudança não vem, a estratégia da Movile é fortalecer cada um de seus serviços. A entrega de compras de supermercados via iFood, que já está em funcionamento, é um deles. "Queremos ser fortes em cada uma das nossas verticais. Ter um ecossistema é mais importante do que formar um aplicativo que agregue (todas as ofertas)."

A estratégia dos bancos digitais

Entre os bancos digitais, as ofertas não estão mais necessariamente restritas aos serviços financeiros. Entre os diversos concorrentes do segmento, o C6 Bank, de ex-sócios do BTG Pactual, recentemente chegou ao mercado com o Taggy, concorrente de serviços como Sem Parar e ConnectCar, em que o cliente não paga taxas e tem o valor dos pedágios debitados automaticamente de sua conta.

O mineiro Banco Inter, no entanto, já assumiu publicamente a posição de se tornar um superaplicativo com diversos serviços. A instituição, que recebeu um aporte de R$ 1,24 bilhão em julho (sendo R$ 760 milhões da gigante japonesa Softbank), conseguiu atrair capital justamente graças à intenção de ir além de seu mercado de origem. O superapp do banco, que deve chegar em setembro, deve oferecer serviços de mobilidade, turismo e entretenimento.

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