Varejistas partem para a 'fintechzação' e agora oferecem serviços financeiros a clientes

Varejistas partem para a 'fintechzação' e agora oferecem serviços financeiros a clientes

Se antes o movimento ficava restrito apenas às grandes do setor, varejistas menores buscam consultorias para criarem os seus próprios serviços financeiros

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 14h00
Atualizado 14 de novembro de 2021 | 21h57

Em meio a gritos de vendedores e clientes sempre carregados de sacolas com todo o tipo de roupa, o bairro do Brás, na região central de São Paulo, se tornou um dos principais pontos de comércio da capital paulista. Não à toa, a região é uma das que mais possuem microempreendedores na cidade: são 5 mil lojas e cerca de 4 mil confeccionistas espalhados por 55 ruas comerciais do bairro. Por dia, passam, em média, 300 mil clientes por lá. Logo, com tanta gente querendo vender e comprar, a fintech Pagmoda, fundada em novembro de 2020, percebeu a oportunidade de oferecer serviços financeiros, desde conta digital até maquininhas de cartão, para as pessoas que estavam ali diariamente. 

Ligada ao grupo Vab, da rede Lojão do Brás e da Feirinha da Concórdia, já emprestou R$ 7 milhões e alugou 400 maquininhas para comerciantes da região.

Seja para conquistar um determinado público ou trazer facilidades para os próprios clientes, há um movimento no varejo brasileiro de criar cada vez mais produtos financeiros. É a chamada “fintechzação” do setor. Empresas como Magazine Luiza, Mercado Livre, Via, entre outras, já atuam nessa área há algum tempo. Porém, agora, varejistas com capacidade de investimento bem menor do que as gigantes também querem um banco para chamar de seu. 

Para tornar esse desejo realidade, há uma série de empresas e consultorias prestando esse tipo de serviço chamado “banking as a service” (BaaS), que nada mais é do que a terceirização de serviços financeiros sob medida. 

É o caso, por exemplo, da consultoria A&S Partners que, entre as suas especialidades, está a de estruturar banco digitais para as empresas, como a Pagmoda. Segundo Wagner Moraes, sócio-fundador da consultoria, trata-se de um movimento sem volta para a fidelização dos clientes. “O custo está cada vez menor: com um investimento de R$ 3 milhões a R$ 5 milhões, uma empresa já consegue abrir o seu banco digital”, diz Moraes.

Foi o caminho adotado pela Pagmoda. O público-alvo da fintech é o pequeno empreendedor do Brás, muitos deles estrangeiros, que têm pouco ou quase nenhum histórico de crédito. Ou seja, aquele público que os grandes bancos pouco olham. Para entender melhor o cliente, a própria empresa criou uma forma própria de realizar o score de crédito e, assim, definir se as taxas de juros serão maiores ou menores.

“Como a Pagmoda faz parte do grupo do Lojão do Brás, nós temos a feirinha da Concórdia com mais de 2 mil lojistas que alugam nossos espaços e que querem ter acesso a esses produtos financeiros, mas não conseguiam”, diz Márcio Campos, diretor geral da Pagmoda. “E como conhecemos nossos clientes, ainda conseguimos dar benefícios a eles.” A empresa também quer atuar na concessão de crédito para consumidores, mas que possa ser utilizado somente na região do Brás.

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Fintechs veem mercado de ‘white label’ disparar

Número de empresas dessa área triplica em três anos prometendo soluções de acordo com a demanda do cliente

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 14h00
Atualizado 14 de novembro de 2021 | 21h59

Ao mesmo tempo em que esse tipo de serviço começa a se tornar cada vez mais comum na vida de empresas que nada tinham a ver com o setor financeiro, a maior parte dos entrantes desse mercado não tem registro de banco. Nos últimos anos, o Banco Central (BC) liberou que essas empresas de banking as a service (BaaS), que possuem algum tipo de licença da autarquia, pudessem comercializar serviços financeiros diversos através de um “white label”. Ou seja, essas companhias têm a liberação de vender os serviços para outras empresas, mas elas continuam como responsáveis por toda a gestão do negócio e a obrigação de comunicar todos os passos ao BC. Foi uma forma da autarquia, segundo Wagner Moraes, sócio-fundador da consultoria A&S Partners, de fomentar a concorrência do setor bancário no Brasil, que sempre foi concentrado na mão dos grandes bancos.

Não por acaso, o interesse de empreendedores por esse segmento de fintechs está crescendo. De acordo com dados da plataforma de inovação aberta Distrito, o número de fintechs que atuam no segmento de BaaS mais do que triplicou entre 2017 e 2020 e somam, agora, 28. “A tendência é de crescimento para esse setor, que já é uma realidade. Já existem muitas fintechs viabilizando isso e tem mais espaços para serviços mais nichados, como o ‘banco da mulher’, o ‘banco do estudante’, entre outros”, diz Gustavo Araújo, CEO da Distrito.

No caso da varejista de joias Acium, a empresa quer ser um banco dos seus franqueados. Com 260 lojas espalhadas pelo País, e com a previsão de alcançar 300 nos próximos meses, a empresa percebeu que muitas das operações financeiras poderiam ser feitas dentro de casa. Com vendas no montante de R$ 150 milhões ao ano, a companhia decidiu criar o Acium Bank, que está iniciando a operação agora. Por enquanto, as lojas já receberam as suas maquininhas e, em breve, os clientes terão também uma conta digital e possibilidades de financiamento para abrir novas lojas. “Se torna um modelo de negócio muito rico, pois temos diversos dados dos clientes para criar um ecossistema para eles”, diz Luiz Pellegrino, diretor responsável pelo Acium Bank. A ideia é dar mais benefícios para aqueles que aderirem às ferramentas, mas, pelo menos por ora, não será algo mandatório. No futuro, os clientes das lojas também poderão ter acesso a financiamentos para comprar joias.

“A conta digital virou uma commodity. Hoje, você consegue diversos fornecedores para fazer o mesmo o que somente cinco bancos faziam antigamente”, diz Yan Tironi, presidente da BBNK, outra empresa com soluções financeiras no modelo “white label” e que tem a licença de instituição de pagamento no Banco Central. De acordo com o executivo, a demanda tem sido cada vez maior e não somente de varejo: educação e saúde também querem bancos digitais para chamarem de seus. Há três anos no mercado, a BBNK já criou mais de 20 serviços white label, o que representa a abertura de 200 mil contas digitais. Para Tironi, os grandes bancos nunca foram atrás dos segmentos mais de nicho e deixaram de buscar soluções mais individualizadas para cada tipo de cliente. “O Brasil ainda tem muitos desbancarizados e o que eu chamo de ‘mal bancarizados’, então há um espaço grande para que outras empresas explorarem esse mercado”, afirma Tironi.

Controle.

Nos últimos anos, o BC vem liberando uma série de instituições para atuarem como bancos digitais para diminuir a concentração financeira histórica que ocorre no Brasil. Segundo a autarquia, apesar do aumento do número de aprovações, a segurança é a mesma. E mesmo as empresas que atuam no modelo "white label" seguem todas as regras do BC. Porém, o BC afirma que a segurança é a mesma, pois todos os bancos possuem o mesmo crivo de segurança.

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