Varejo corta previsão de vendas no Natal

Associação Comercial de São Paulo reduz para 2% sua projeção de alta no faturamento em relação a dezembro do ano passado

MÁRCIA DE CHIARA, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h05

Na reta final para o Natal, o varejo reduziu em menos da metade a projeção de crescimento de vendas. Depois do desempenho recorde de 2010, quando a receita aumentou 10% sobre o ano anterior, agora a expectativa é de um acréscimo de 2% nas vendas de dezembro na comparação com o mesmo mês do ano passado e levando-se em conta o mesmo número de dias.

Se a projeção se confirmar, este será o segundo pior Natal em quatro anos. Só perde para o de 2008, quando houve retração de 1,7% por causa da crise americana, apontam dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Em setembro, antes do acirramento da crise na Europa, a expectativa do varejo era ampliar em 5% as vendas neste mês na comparação anual.

"A euforia do Natal de 2010 não tem mais", diz o economista-chefe da ACSP, Marcel Solimeo, ressaltando que, ao contrário do ano passado, há hoje muita incerteza. Ele pondera que crescer 2% sobre uma base forte, que foi o Natal do ano passado, é um bom resultado, porém "não é nada extraordinário".

Ele destaca que o ritmo de vendas está abaixo do esperado e o varejo está estocado. Nem o corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de geladeiras, fogões e lavadoras, anunciado pelo governo nas últimas semanas, deu grande impulso às vendas.

Na primeira quinzena de dezembro, o acréscimo foi de apenas 1,9% no número de consultas para negócios no crediário, indicam as estatísticas da ACSP. Novembro tinha fechado com crescimento de vendas de 1,1% ante o mesmo mês de 2010. Portanto, a aceleração foi de apenas 0,8 ponto porcentual. Pior que o fraco desempenho das vendas a prazo nas duas primeiras semanas do mês foi a estagnação nas vendas quitadas com cheque no mesmo período. Em novembro, elas tinham crescido 0,4% na comparação anual.

Emílio Alfieri, economista da ACSP, observa que o fato de os negócios com cheque não terem crescido no mês do ano mais importante para o varejo reflete a estagnação da massa de salários. Mas ele pondera que o aumento da inadimplência em outros meios de pagamento bloqueia o uso do cheque.

Uma pesquisa da Serasa Experian, empresa de dados para análise de crédito, feita com cerca de mil varejistas mostra que eles já captaram mudanças nas opções de pagamento. Apesar de a venda parcelada responder por 51% do faturamento no Natal deste ano, os empresários enxergam o avanço do uso do dinheiro dentre as modalidades de pagamento à vista.

"Nunca o brasileiro vai comprar tanto em dinheiro como neste Natal", afirma o assessor econômico da Serasa Experian, Carlos Eduardo Henrique de Almeida. De acordo com a pesquisa, 42% das compras à vista serão pagas em dinheiro. No ano passado, essa fatia havia sido de 36%. Em quatro anos, é o maior porcentual de pagamento à vista no faturamento do Natal.

Enquanto o uso de moeda corrente aumenta, a pesquisa mostra estabilidade do Natal de 2010 para o deste ano em outras formas de pagamento à vista, como cartão de crédito (25%) e cartão de débito (19%). No cheque e no cartão de loja, há recuo.

Na análise de Almeida, da Serasa Experian, o consumidor vai optar pelo pagamento em dinheiro porque não quer ampliar as dívidas, que já estão elevadas. Além disso, apesar de o Banco Central ter cortado a taxa básica, os juros ao consumidor voltaram a subir no mês passado.

Juros. De acordo com a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a taxa de juros média para pessoa física, que estava em 6,67% ao mês em outubro, subiu para 6,67% em novembro, depois de três quedas consecutivas. Para o vice-presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, os bancos elevaram os juros porque estão preocupados com o futuro e aumento da inadimplência. As instituições financeiras estão mais cautelosas na aprovação do crédito. Ele também vê o consumidor mais cauteloso porque o endividamento está alto. "Esses dois fatores estão atuando para conter a venda a prazo."

Ele observa que outro impacto da preferência do consumidor pelo pagamento em dinheiro é que os valores das compras quitadas em moeda corrente normalmente são menores. Isso reforça a perspectiva de que o faturamento do Natal deste ano não seja tão robusto.

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