Varejo e indústria travam batalha antes do natal

A data limite está chegando, as negociações estão tensas e nenhum dos dois lados quer mostrar fraqueza. Se alguém usar de truculência, pode sofrer retaliações. Com ingredientes de filmes da época da Guerra Fria, as indústrias de alimentos e os grupos varejistas se preparam para as vendas de natal com visões diferentes da crise econômica.De um lado, pressionados pelo avanço dos custos, especialmente os que sofrem com a alta do dólar, os fabricantes tentam repassar alguma porcentagem para o preço final. Na outra ponta, o varejo - que convive há meses com demanda reprimida - reluta em aceitar grandes reajustes. Não que haja novidade nesse clima quente. Os embates em torno do preço fazem parte do cotidiano das empresas. Porém, este ano, em razão da evolução do dólar e da fraca demanda, ficaram mais difíceis.Os preços de produtos comercializados nos supermercados subiram 0,80% em julho e 1,22% em agosto, de acordo com a Associação Paulista de Supermercados (Apas), com base na pesquisa de preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Os produtos derivados do trigo foram os que tiveram os maiores aumentos, como o pão francês, que acumula alta de 21,3% nos últimos 12 meses, e o óleo de soja, que subiu 10,8% só em agosto (25% nos últimos 12 meses). O feijão também apareceu como grande vilão, pois aumentou 6,08% em agosto e 21,73% em 12 meses, mas o motivo foi a quebra da safra.De acordo com o presidente da Apas, Sussumo Honda, alguns ajustes foram repassados, mas os consumidores estão rejeitando os aumentos. "Está ocorrendo um tabelamento do mercado", afirmou, ao explicar que a própria demanda se incumbe de congelar os preços. O resultado, segundo ele, é a migração para marcas mais baratas. O economista da Associação Comercial de São Paulo, Emilio Alfieri, vê outro movimento. Segundo ele, as empresas estão preferindo enxugar custos a fim de evitar os repasses, pois sabem que, se houver aumento, perderão vendas. "Não adianta elevar o preço em 20% se a demanda cair 40%", comparou.Enquanto a negociação acontece, ninguém quer mostrar as armas. Uma fonte da indústria de alimentos afirmou que essa timidez tem explicação: com a concentração do varejo, os supermercadistas passaram a ditar e há temor de retaliação. Ninguém quer chegar no Natal sem seus produtos nas gôndolas das principais redes. Os dois lados também aguardam uma espécie de prévia do natal para reforçar seus argumentos: o feriado de 12 de outubro, Dia das Crianças. A lógica, segundo um representante do varejo, é que se a data for boa, melhor para a indústria, que acaba ganhando mais instrumentos para negociação, alegando que a demanda permite repasses de preço. Se for ruim, ganha o varejo, que consegue brecar reajustes sob o argumento que o poder de compra continua encolhido.Mas há quem já se decidiu. A Bauducco - líder na fabricação de panetone, com mais de 50% do mercado - ainda não tem um número fechado, mas vai promover reajustes de até dois dígitos neste natal. A alta é motivada pelas matérias-primas como o trigo e embalagens. Segundo relatório da Agroconsult, a tonelada da farinha subiu entre 30% e 40% no primeiro semestre deste ano, em relação ao ano passado, e o preço dos pães, massas e biscoitos para o consumidor final cresceram entre 10% e 15%. "Ainda assim, o repasse não será integral", avisou o gerente de marketing, Paulo Cardamone.A Perdigão segue a tendência da maioria e, por enquanto, não quer falar de preços. O diretor de marketing, Antonio Zambelli, disse apenas que "as contas ainda estão sendo feitas". No primeiro semestre, a companhia embutiu reajustes nas tabelas entre 5% e 7%, puxados principalmente pela alta do milho, em 30%, um dos insumos de maior peso na produção. A Chapecó é a única a garantir que não realizará reajustes neste natal. De acordo com o gerente de Marketing da empresa, Antonio Baptista Souza, a estratégia será reduzir ainda mais sua margem de lucro. Mesmo com a iniciativa, a empresa aposta em vendas semelhantes às verificadas no último natal e vai produzir as mesmas 3 mil toneladas de 2001.O diretor de mercadorias do Carrefour, Luiz Carlos Costa, usa a diplomacia para avaliar o momento. Ele explicou que, apesar das dificuldades, fornecedores e varejistas têm que chegar a um bom termo. Com relação às aves, por exemplo, Costa afirmou que as indústrias já estão abatendo e, portanto, vão precisar vender. E os supermercados precisam comprar. A rede francesa, que tem 76 hipermercados em todo o Brasil, já garantiu pelo menos a presença dos itens importados, como frutas secas, bebidas, azeites e conservas. Nesses casos, as encomendas já foram feitas há alguns meses, como estratégia para "travar" o câmbio. Com relação aos nacionais, as discussões seguem seu curso. "Estamos na briga do dia-a-dia", informou Costa.

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