Tiago Queiroz/Estadão/20/03/2020
Queda nas vendas no varejo doi de 22,6% Tiago Queiroz/Estadão/20/03/2020

Varejo fechado, ruas vazias e consumo menor de energia mostram País 'parado'

Levantamento feito pelo 'Estado' em diferentes setores dá uma primeira mostra do que está ocorrendo na atividade econômica, como reflexo dos efeitos da covid-19

Vinicuis Neder, RIO

05 de abril de 2020 | 05h00

Shoppings e restaurantes fechados, aeroportos vazios, grandes cidades sem engarrafamentos e cinemas às moscas mostram que, com o avanço do coronavírus, a economia brasileira realmente parou, num movimento nunca antes visto. Esse impacto real ainda deve demorar a ser medido – os dados oficiais de atividade econômica costumam levar algum tempo para serem compilados –, mas os indicadores que começam a sair já dão uma ideia do que ocorreu com a economia em março.

O faturamento do varejo, por exemplo, teve uma queda de 22,6% no mês passado, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), calculado pela companhia de máquinas de cartão com base nas transações de seus clientes. É um tombo inédito, segundo Gabriel Mariotto, diretor de inteligência da Cielo. 

As lojas de produtos essenciais, como supermercados e farmácias, ainda tiveram alta no faturamento em março, mas o segmento de serviços, que inclui salões de beleza, bares e restaurantes e atividades de lazer viu a receita cair à metade na comparação com um ano antes. Os postos de gasolina tiveram queda no faturamento de 20% na comparação anual.

Nos cinemas, onde o público vinha crescendo nas primeiras semanas do ano, apenas 815 pessoas foram assistir a um filme nas salas do País na terceira semana de março, quando as recomendações para se evitar aglomerações começaram a ser ampliadas e mais seguidas. O dado é da consultoria Filme B. 

O fluxo aéreo também foi solapado pelos efeitos da pandemia. No Brasil, nos últimos dias de março, 90% dos voos foram cancelados, seguindo um movimento global. O vaivém de aviões caiu pela metade em todo o mundo, segundo Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), informando dados da consultoria Flightradar24. No último dia 31 foram registrados 80,9 mil voos em todo o mundo. Nos dois meses anteriores a média diária foi de 175 mil voos. 

Primeiras impressões

Essas, na verdade, são ainda as primeiras impressões de uma crise “sem precedente na história moderna”, segundo Eduardo Zilberman, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio. É uma crise inédita porque derruba, em todo o mundo ao mesmo tempo, e com efeitos em cadeia, tanto a oferta de trabalho, afetando a produção, quanto a demanda (a capacidade das famílias para consumir).

No Brasil, esses números iniciais apontam para quedas na produção e no consumo de magnitude superior ao visto na recessão de 2014 a 2016, quando a economia encolheu na casa de 3% em dois anos seguidos. Consultorias, bancos e corretoras vêm, dia após dia, revisando para baixo suas projeções para o desempenho da atividade econômica este ano. Já há instituições, como o ASA Bank, prevendo queda de até 5% no PIB deste ano.

Os dados que têm sido divulgados ainda não são suficientes para saber o tamanho do tombo, mas são importantes para dar uma ideia. “Quando ocorre esse tipo de choque, é muito importante ter indicadores rápidos, de alta frequência, até diários, para sabermos para onde a economia vai e onde já foi feito o estrago”, disse Bentes. A CNC já estimou que o setor de turismo perdeu R$ 2,2 bilhões apenas na primeira quinzena de março.

Um dos indicadores de atividade econômica, o fluxo de veículos desabou como consequência direta do isolamento social. Os engarrafamentos nas duas maiores metrópoles do País, Rio e São Paulo, caíram a um sexto na segunda quinzena de março na comparação com o mesmo período de 2019, segundo o índice de tráfego da TomTom, desenvolvedora holandesa de aplicativos de navegação.

Às 18 horas do último dia 26, uma quinta-feira, o índice foi de 15% em São Paulo – significa que um trajeto de 30 minutos era feito em tempo 15% maior do que seria com o trânsito completamente livre. Só que esse horário é de pico no trânsito. A média para as 18 horas de quintas-feiras, em 2019, foi de 91%.

Consumo de energia

Indicador usual da dinâmica da economia, o consumo de energia elétrica também está marcado por quedas desde meados de março, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Na última quarta-feira, por exemplo, o total de eletricidade no sistema ficou 12% abaixo de igual dia de março de 2019.

Com base em parte desses indicadores de alta frequência, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revisou, na última segunda-feira, sua projeção para o PIB brasileiro de avanço de 2,1% para retração de até 1,8%, caso as medidas de isolamento social durem três meses.

O ineditismo da crise, porém, deixa a tarefa de fazer projeções ainda mais árdua, disse o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, José Ronaldo de C. Souza Jr: “Não tem nada na história para buscar lá atrás e tentar saber o que estamos vivendo.”

 

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Pesquisas sobre empregos serão afetadas

Brasil não tem termômetro rápido para medir o mercado de trabalho, mas especialistas avaliam que o impacto será forte

Vinicius Neder, RIO

05 de abril de 2020 | 05h00

A avaliação de especialistas é que a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus terá forte impacto no mercado de trabalho, com o crescimento do desemprego nos próximos meses. Só que essas estimativas no Brasil ainda são feitas sem base em dados chamados de “alta frequência”, mais imediatos.

Economistas consultados pelo Estado afirmaram que não há um termômetro rápido para o mercado de trabalho nacional para além das pesquisas de percepção – como os indicadores de confiança.

Tanto que o IBGE anunciou, na última quinta-feira, que fará mudanças na pesquisa que acompanha o mercado de trabalho, a Pnad Contínua. Dois dias antes, o órgão tinha anunciado a taxa de desemprego para o trimestre móvel terminado em fevereiro (11,6%, abaixo do nível de um ano atrás) – informação que já ficara “velha”, sem captar nenhum efeito da pandemia.

Com a covid-19, o pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), projeta um índice de 16% neste segundo trimestre, como sinal do agravamento de um quadro recessivo. “Vai piorar (o mercado de trabalho) e vai voltar a melhorar muito lentamente, em ritmo parecido com a última crise”, disse.

O diretor adjunto de Pesquisas do IBGE, Cimar Azeredo, reconheceu que a Pnad Contínua tradicional traria uma fotografia parcial do problema. As informações abrangeriam três meses, mas o impacto da pandemia começou em março. Além disso, o trabalho remoto e a parada abrupta de trabalhadores para impedir o contágio da doença desafiam as pesquisas em todos os países, exigindo adaptações, disse Azeredo.

Por isso, a saída foi propor uma pesquisa paralela, por telefone, para investigar esses fenômenos. A Pnad Contínua do primeiro trimestre está prevista para ser divulgada só em 30 de abril.

EUA tem dados semanais

Nos Estados Unidos, ao contrário, há dados semanais sobre o seguro-desemprego – só na semana passada, foram 6,6 milhões de novos pedidos, informou o Departamento do Trabalho. Os dados oficiais de março nos EUA  foram divulgados na sexta-feira, apontando para o fechamento de 700 mil postos de trabalho. 

Mas a crise da covid-19 é tão inédita que os trabalhadores demitidos podem ficar de fora do mercado, e a taxa de desemprego pode até cair num primeiro momento, lembrou Azeredo, do IBGE. Isso poderá ocorrer não por fatores positivos, mas sim porque, com todos confinados, os demitidos não terão como procurar uma nova colocação.

“As pessoas não estão saindo para trabalhar, quanto mais para procurar trabalho”, afirmou Azeredo, ao comentar os dados de fevereiro. / COLABOROU THAÍS BARCELLOS

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Áreas beneficiadas pela crise esperam manter alta demanda

Na avaliação das empresas, brasileiro vai manter novos hábitos de consumo mesmo com o fim do isolamento social

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 15h00

O susto provocado pelo coronavírus fez o comportamento do consumidor brasileiro mudar. Com o isolamento social, a preocupação com higiene pessoal e da casa fez explodir a busca por produtos de limpeza e também o uso de redes de internet, para garantir a comunicação mesmo a distância. Empresas que conseguiram se beneficiar neste movimento esperam manter a demanda em alta mesmo após a pandemia.

Para Cesar Augusto Centrone Nicolau, diretor de marketing do grupo de limpeza e higiene Ypê, ainda é cedo para falar em mudanças definitivas nos hábitos do consumidor. “Mas vejo mudanças de comportamento que podem continuar mais para frente. As pessoas devem aumentar o consumo de produtos de limpeza e higiene, uma vez que se viram despreparadas nesta crise.”

A Ypê teve de fazer readequação em suas linhas de produção por conta do coronavírus. A empresa observou maior demanda por desinfetantes, sabão e sabonetes nas redes de atacado e varejo. “Já tínhamos estoque desses produtos e não tivemos problemas logísticos”, afirma o executivo.

Isoladas em casa, as pessoas também passaram a consumir mais rede de dados Wi-Fi. “Estamos experimentando o extremo do isolamento social. O consumo de internet de rede fixa aumentou e deve continuar”, diz Marcio Fabbris, vice-presidente da Telefônica Vivo. “Não é só para serviço de streaming (que as pessoas vão usar mais a banda larga). O home office veio para ficar.” 

Alimentos. Alguns produtos alimentícios também registraram alta de demanda nos supermercados. Segundo Lorival Luz, presidente da BRF, uma das maiores companhias de alimentos do Brasil, os consumidores compraram mais embutidos, carnes e produtos pré-preparados.

No entanto, não dá para dizer que as vendas do grupo cresceram como um todo porque as compras do “food service” – alimentação fora de casa – caíram muito, segundo o executivo. Os fatiados, por exemplo, sofreram duplamente, pois são muito usados não só por lanchonetes, mas também em lanches para levar à escola. O confinamento, portanto, prejudicou a venda desses produtos.

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Setores econômicos terão recuperação desigual após crise do coronavírus

Estudo mostra que, enquanto segmentos como ensino a distância podem se beneficiar da crise, eventos e turismo devem sofrer no longo prazo

Mônica Scaramuzzo e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 15h00

Em um cenário em que ainda não está claro quando será o melhor momento para a retomada do contato social – e de atividades paralisadas em meio ao combate ao novo coronavírus –, estudo da Bain & Company mostra que a recuperação entre diferentes setores estará longe de ser uniforme. Com a pandemia, as prioridades da população mudaram, colocando pesados desafios para as companhias de bens de consumo. Compras de “pânico”, como desinfetantes, máscaras, refeições prontas e medicamentos, ganharam espaço, enquanto laticínios, bebidas alcoólicas e produtos de luxo tiveram recuo.

Nas últimas semanas, a demanda por atividades como comida fora de casa, passagens aéreas, turismo e eventos praticamente se extinguiu. Em um cenário em que o medo deve predominar, a tendência é que segmentos que dependam de concentração de pessoas enfrentem desafios de longo prazo, enquanto atividades virtuais poderão preservar parte do “boom” que registraram na crise.

Os restaurantes hoje só operam com delivery e, no Brasil, as companhias aéreas reduziram o tráfego em cerca de 90%. No sentido contrário, ferramentas de trabalho e ensino a distância viram a demanda explodir. A ferramenta de videoconferência Zoom, por exemplo, viu sua média de usuários subir 340% desde o início do isolamento.

Para Luciana Batista, sócia da Bain & Company, esses dois grupos se posicionam em polos opostos. Enquanto as ferramentas online – grupo que também inclui cursos e streaming de vídeo e games – ganharam força e devem se fortalecer no médio e longo prazos, atividades que dependem da reunião de pessoas – grupo que também inclui restaurantes, eventos e turismo – vão demorar mais para ganhar fôlego. Quanto maior a necessidade de aglomerações, provavelmente mais difícil a recuperação. “Para essas atividades vai ser difícil voltar ao antigo normal.”

Estoques. A venda de gêneros alimentícios e de produtos de limpeza nos supermercados teve forte alta à medida que, amedrontadas, as pessoas viram necessidade de fazer estoques para a crise. Para esses itens de primeira necessidade, a tendência é que haja um retorno das vendas aos patamares anteriores após a crise, diz a especialista.

Já produtos de consumo não essenciais – como eletrodomésticos, produtos de beleza, roupas e calçados –, que sofreram neste primeiro momento, poderão ter um período de bonança. “Esses bens podem se beneficiar do ‘consumo de vingança’”, diz o estudo da Bain, referindo-se à necessidade de os clientes “compensarem” o consumo represado na crise.

Professora de uma escola particular de São Paulo, Luciana Vidal, de 44 anos, passou a comprar mais carnes congeladas e produtos de limpeza para higienização da casa. “Mas não corri para fazer grandes estoques. Passamos a ir a supermercados do bairro, comprando verduras e legumes para cozinhar em casa.” Ela e seu marido, o empresário de marketing de incentivo Fábio Goulart Ambrózio, de 40 anos, estão trabalhando em home office. Mas as prioridades da família mudaram. “Roupas e sapatos estão fora da minha lista.”

A família sente a falta da rotina, mas entende que o isolamento social é a melhor estratégia para evitar a contaminação. “É óbvio que a gente tem vontade de sair, dar uma volta no shopping. A Páscoa está logo aí e não podemos ir a uma loja comprar chocolate.”

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Restaurantes só veem retorno no fim do ano

Para bares e casas de show, onde aglomerações costumam ser maiores, cenário é ainda pior

Mônica Scaramuzzo e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 15h00

O “efeito psicológico” do novo coronavírus deverá contaminar o setor de restaurantes até o fim deste ano, de acordo com Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). O fator medo, na visão de Solmucci, vai ter um peso no comportamento do consumidor em 2020. “O ‘novo normal’ não será o do movimento de antigamente. Acredito que só teremos uma recuperação mais forte no fim do segundo semestre.”

A aposta de que o movimento do comércio e dos serviços voltará aos poucos não é baseada só em previsões, mas também no comportamento da clientela na semana anterior à determinação da quarentena horizontal. Houve um “sumiço” gradual dos consumidores à medida que a notícia do confinamento se espalhou. “Na segunda-feira da semana anterior, a queda do movimento foi de 10%. Na quinta-feira, os restaurantes já perceberam uma baixa de 70%”, diz Solmucci. A Abrasel, portanto, não espera que a liberação do funcionamento acarrete uma “corrida” a restaurantes.

Piores cenários. Se o cenário já é ruim para os restaurantes, a Abrasel diz acreditar que a situação de bares e casas de shows – onde a aglomeração de pessoas costuma ser ainda maior – será mais delicada. 

Outra atividade comum no Brasil que precisará se reinventar, pelo menos por algum tempo, são os restaurantes de comida a quilo. Isso porque, como os clientes circulam as bandejas de comida, a chance de contaminação dos alimentos aumenta bastante. “Dessa forma, acredito que os restaurantes a quilo terão de se reinventar nos próximos tempos, talvez com uma oferta de atendimento a la carte”, diz Solmucci. 

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