Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Varejo perde fôlego e cresce 0,1% em maio, com inflação e juros altos e famílias mais endividadas

Em 12 meses, vendas do varejo acumulam queda de 0,4%, o primeiro resultado negativo desde setembro de 2017

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2022 | 12h20

RIO - O comércio varejista engatou uma sequência de cinco meses seguidos de altas, fazendo com que encerrasse maio operando em patamar 6,2% superior ao de dezembro de 2021, de acordo com os dados da Pesquisa Mensal de Comércio, divulgados nesta quarta-feira, 13, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No entanto, a sequência de resultados positivos, na comparação com o mês imediatamente anterior, mostra redução de fôlego: janeiro (2,3%), fevereiro (1,4%), março (1,4%), abril (0,8%) e maio (0,1%). Há uma perda de ritmo, confirmou Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE. “A leitura do varejo em maio é de estabilidade”, disse ele.

A taxa acumulada em 12 meses registrou queda de 0,4% em maio, o primeiro resultado negativo desde setembro de 2017, quando caiu 0,7%.

Quanto ao varejo ampliado, que inclui as atividades de material de construção e de veículos, as vendas subiram 0,2% em maio ante abril. Em 12 meses, houve elevação de 0,3%.

O desempenho das vendas é impactado negativamente pela inflação alta, pelo crédito mais caro em função das taxas de juros mais elevadas, pelo alto nível de endividamento das famílias e por mudanças no padrão de consumo.

"Tem a ver com o processo inflacionário sim. É um dos fatores, e atinge algumas atividades", disse Santos, mencionando que os desempenhos de supermercados e de combustíveis são mais afetados.

Os aumentos nos preços dos produtos vendidos são usados para deflacionar a receita obtida pelas companhias desses setores, o que acaba reduzindo o volume obtido. Na passagem de abril para maio, a receita do setor de combustíveis e lubrificantes cresceu 3,5%, mas o volume vendido foi maior em apenas 2,1%. Nos supermercados, enquanto a receita nominal aumentou 4,1% em maio ante abril, o volume vendido cresceu 1,0%.

"A gente tem aí (em supermercados) quatro vezes mais em termos de variação de crescimento na receita do que de volume. Está aí embutido esse efeito da inflação", observou Santos. "Em combustíveis já foi maior (a diferença entre receita e volume), mas também tem influência."

Santos lembra que, em um cenário de aumento de preços, as pessoas estão deixando de consumir alguns itens em detrimento de outros, além de optarem por substituições na cesta de consumo. Após um pico no endividamento das famílias recentemente, também há um movimento de destinação da renda, inclusive a advinda dos recursos liberados por medidas extraordinárias do governo, para o pagamento de dívidas em vez de consumo. “O endividamento cai na margem porque as famílias escolhem pagar essas dívidas”, afirmou.

Efeitos da 'PEC Kamikaze'

O economista Luca Mercadante, da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos, avalia que o impulso fiscal previsto com a "PEC Kamikaze" pode arrefecer o ritmo da desaceleração esperada para a atividade econômica no segundo semestre, com reflexos, especialmente, no varejo e em serviços.

“O segundo semestre será marcado pela 'briga' entre a política monetária restritiva, que vai desacelerar a atividade, e o impulso fiscal novo que o governo planeja dar com benefícios sociais”, disse Mercadante. 

“Ainda esperamos que ocorra uma desaceleração, porque temos uma parcela grande de efeito de política monetária para ser vista nos dados, mas ela começa a ser um pouco mais devagar do que esperávamos antes da PEC.”

De acordo com Mercadante, os possíveis efeitos do texto, se aprovado, podem elevar a projeção da Rio Bravo para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2022, atualmente de alta de 1,3%. “Pode passar para algo entre 1,5% e 2,0%.”

O C6 Bank prevê, por ora, uma alta de 1,5% no PIB de 2022, mas com viés de alta. “Para o segundo semestre, vemos a atividade econômica desacelerando em função da alta da taxa Selic e isso também afeta o varejo. A alta da taxa de juros encarece o crédito e afeta as vendas de setores que dependem de financiamento, por exemplo. No entanto, o aumento do valor de benefícios sociais, como Auxílio Brasil, pode atenuar o enfraquecimento do varejo”, avaliou a economista Claudia Moreno, do C6 Bank, em nota.

O volume vendido pelo varejo ficou estável em maio ante abril, mas permanece em território positivo por cinco meses consecutivos, sustentado pela melhora no mercado de trabalho, com a redução na taxa de desemprego, apontou Cristiano Santos, do IBGE.

"Estabilidade na alta significa que o nível de vendas foi mantido em termos de volume”, frisou.

Cristiano Santos acrescenta que o varejo operava em maio no terceiro maior patamar de vendas desde o início da pandemia, mas reconheceu que o crescimento entre as diferentes atividades pesquisadas continua sendo bastante desigual nos primeiros cinco meses do ano.

A melhora no desempenho do varejo na passagem de abril para maio fez o volume de vendas ficar 3,9% acima do nível de fevereiro de 2020, no pré-pandemia. No varejo ampliado, as vendas operam 1,2% acima do pré-covid.

O segmento de artigos farmacêuticos opera em patamar 22,4% acima do pré-crise sanitária; material de construção, 7,5% acima; supermercados, 2,8% acima; outros artigos de uso pessoal e domésticos, 1,2% acima; e combustíveis, 0,5% acima.

Os veículos estão 5,2% aquém do nível de fevereiro de 2020; móveis e eletrodomésticos, 13,9% abaixo; vestuário, 4,5% abaixo; equipamentos de informática e comunicação, 9,3% abaixo; e livros e papelaria, 32,5% abaixo. / COLABOROU MARIANNA GUALTER

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