Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Tiago Queiroz/Estadão
Setor de tecnologia é forte nas vendas online. Tiago Queiroz/Estadão

Varejo perde R$ 24 bilhões, apesar do e-commerce

Vendas pela web tiveram aumento de mais de 40%, mas só respondem por 6% do movimento do comércio brasileiro

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2021 | 14h00

RIO - O comércio, que faz parte do setor de serviços, fechou 2020 com perdas de R$ 24,6 bilhões, calcula o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). No entanto, algumas atividades específicas saíram ganhando, impulsionando negócios como supermercados, mercadinhos, farmácias e as grandes empresas de comércio eletrônico

Com boa parte das famílias trancadas em casa, o faturamento do e-commerce no País saltou 41% em 2020, aponta pesquisa da Ebit/Nielsen e do Bexs Banco, somando R$ 87,4 bilhões. A taxa de crescimento foi quase três vezes maior do que a alta de 16% no faturamento de 2019.

A alta chama a atenção, mas o comércio eletrônico ainda responde por apenas 6% do volume vendido pelo varejo ampliado no País, diz Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC)

Esse movimento é mais relevante em alguns segmentos, como o de aparelhos de comunicação e informática (28% das vendas já são online), livraria e papelaria (9,5% do volume vendido em 2020 foi por meios digitais), móveis e eletrodomésticos (8,7%) e comércio automotivo (6,6%).

“Combustíveis e lubrificantes não têm nada de venda online, claro. Em supermercados ainda é baixo, só 1,2% das vendas foram online no ano de 2020. Outro setor com dificuldades estruturais de vencer essa barreira do e-commerce é o de vestuário, que tem só 5,4% do faturamento proveniente do comércio eletrônico”, diz Bentes, que projeta novo avanço do comércio eletrônico no País neste ano.

Segundo ele, a participação das vendas online no faturamento do varejo ampliado deve subir para 6,8% em 2021. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Covid-19 desorganiza economia e põe serviços no fim da fila da recuperação

Estudo do Ibre/FGV mostra que setor respondeu por quase metade da queda de 4,1% no PIB em 2020, perdendo R$ 144,9 bi; agora, enquanto agronegócio, indústria extrativa e tecnologia crescem, segmento volta a sofrer com segunda onda

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2021 | 14h00

RIO - Um dos efeitos da crise global causada pela covid-19 foi provocar uma desorganização da economia. Num primeiro momento, o fechamento total das atividades presenciais mundo afora provocou uma freada nunca vista na atividade. Porém, enquanto alguns setores foram atingidos em cheio, outros sofreram menos. Com o passar dos meses, essa desigualdade se refletiu também na recuperação.

Em 2020, a retração econômica de 4,1% ante 2019 resultou numa perda de R$ 315,1 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB), conforme estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast. Desse valor, quase metade ficou concentrada na atividade “outros serviços”, que encolheu em R$ 144,9 bilhões, puxada pelo tombo de negócios como hotéis, bares, restaurantes, salões de beleza e academias de ginástica, entre outros.

Para Juliana Trece, pesquisadora do Ibre/FGV e coautora do estudo, chama atenção a “queda generalizada” do setor de serviços, que pesa muito na economia: “É muito importante, ainda mais também pela questão do mercado de trabalho, pois emprega muita gente”.

O setor de bares e restaurantes foi um dos mais atingidos, tanto nos primeiros meses da pandemia quanto na segunda onda, em 2021. “No início, a gestão pragmática ajudou a sobreviver, sangrando, mas a sobreviver. Quando o governo voltou a apertar fortemente as restrições, nos mantemos com uma mistura de gestão e um pouco de fé e loucura”, diz Humberto Munhoz, sócio do grupo Turn The Table, de bares como O Pasquim e a Vero! Coquetelaria.

Por outro lado, mesmo com a retração agregada da economia, houve setores que saíram ganhando. Mesmo nos serviços, fecharam 2020 com ganhos atividades como intermediação financeira (como corretoras de valores, por exemplo) e serviços imobiliários (cada um com R$ 16,3 bilhões a mais de contribuição para o PIB). 

Para Eduardo Zilbermann, economista-chefe da Gávea Investimentos e professor da PUC-RJ, a crise da covid-19 parece trazer mudanças estruturais. O destaque é um impulso na demanda por serviços tecnológicos, que envolvem comunicação a distância. No lado negativo, enquanto a pandemia seguir seu curso, os serviços que exigem contato pessoal, como bares e restaurantes, seguirão perdendo demanda.

A dúvida é sobre o quão permanente serão esses efeitos, diz Zilbermann. Um controle moderado da pandemia poderá exigir a manutenção de algumas medidas de restrição aos contatos sociais por algum tempo, mas, no caso de um freio mais forte na doença, os serviços presenciais poderiam ganhar impulso já no curto prazo, diante da demanda reprimida.

Além dos serviços, também fecharam com ganhos em 2020 a agropecuária (R$ 2,48 bilhões a mais no PIB) e a indústria extrativa (R$ 2,7 bilhões), segundo o Ibre/FGV. Essas atividades são puxadas pelas exportações de matérias-primas, cujas cotações estão em alta. O agronegócio deverá renovar em 2021 o recorde da produção, enquanto o Ibram, entidade que representante das mineradoras nacionais, projeta faturamento de até R$ 270 bilhões em 2021, salto de até 29% ante 2020.

Segundo Zilbermann, esses setores ajudam na recuperação da economia, levando à revisão para cima suas projeções para o desempenho do PIB, mas há dúvidas sobre o “quão sustentável” esse movimento será. Sua continuidade pode ser atrapalhada pelos “problemas usuais” da economia brasileira, além da pandemia, com destaques para as crises política e fiscal.

Preso nesses problemas, o Brasil teve uma década perdida na economia. De e 2011 a 2020, o PIB teve retração de R$ 92 bilhões, ou 1,2%, embora a população tenha crescido 10,1% no período, aponta o Ibre/FGV. Com isso, o PIB per capita encolheu de R$ 39.196 em 2011 para R$ 35.172 em 2020. “É uma economia totalmente estagnada”, diz aponta Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Pandemia acentuou contrastes econômicos entre setores

Maioria dos negócios está no setor de serviços, que foi diretamente atingido pelas restrições; dono de bar cortou 40 vagas, mas corretora contratou 52 pessoas por alta da demanda

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2021 | 14h00

RIO - Os efeitos desiguais da pandemia sobre os diferentes setores da economia resultam em histórias com enredos praticamente opostos em relatos de empresários. A maioria dos negócios do País está no setor de serviços e foi diretamente atingida pelas restrições ao contato social. Mas há também histórias de sucesso e crescimento, em serviços ligados à tecnologia ou em setores como o agronegócio e a mineração, voltados às exportações.

Quando a covid-19 se abateu sobre a economia, as casas do grupo Turn The Table - como o bar O Pasquim e a Vero! Coquetelaria - vinham de um crescimento de 18% no faturamento do primeiro bimestre de 2020 sobre o início de 2019, lembra Humberto Munhoz, sócio da empresa. No fim das contas, porém, o faturamento tombou cerca de 60% em 2020. A sangria continua este ano. A receita dos quatro primeiros meses já foi em torno de 50% abaixo de igual período de 2020.

O setor de bares e restaurantes é um dos mais atingidos pela pandemia. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel), cerca de 350 mil bares e restaurantes encerraram atividades no País nos 12 meses encerrados em abril - 50 mil fecharam apenas no primeiro trimestre de 2021. Cerca de 1 milhão de empregos foram fechados.

“Este ano está sendo pior”, afirma Munhoz, que foi obrigado a demitir cerca de 40 funcionários no início de fevereiro. “Entre fechar a empresa e demitir funcionários, decidimos sacrificar um batalhão, mas não perder o exército”, compara o empresário.

Segundo Munhoz, o grupo sobreviveu 2020 sem demissões por causa da gestão disciplinada. Os sócios renegociaram o aluguel, contratos com fornecedores e prestadores. Gastaram o caixa e aproveitaram as medidas oferecidas pelo governo. O relaxamento das restrições ao funcionamento, no segundo semestre, deu um alívio, mas a segunda onda da pandemia encontrou o grupo no limite. Novas demissões poderão ser necessárias se a covid-19 demorar a ser controlada.

A gestão disciplinada também ajudou Club Fisio, rede de clínicas de fisioterapia de São Paulo. Em 2020, a empresa demitiu 12 funcionários e viu seu faturamento tombar em 30%. Isso depois de um início de 2020 promissor, com planos de abertura da quarta unidade, diz o sócio Raphael Baptista de Camargo. Nos primeiros meses de pandemia, a Club Fisio renegociou ou cortou gastos fixos, como a mensalidade de TV a cabo, os honorários do contador e o aluguel.

Com o passar do tempo, as atividades foram sendo retomadas, e a rede conseguiu recontratar três profissionais ainda no ano passado. Agora, vem enfrentando melhor a segunda onda da pandemia. Inaugurou a quarta filial em janeiro e voltou a contratar, incluindo três fisioterapeutas. “A crise fez com que a gente tivesse mais controle das despesas fixas do negócio. O aprendizado maior foi valorizar os clientes”, afirma Camargo.

Caminho oposto

Se negócios que requerem contato pessoal sofreram mais, serviços baseados em tecnologia aproveitaram o período para crescer. O setor financeiro como um todo conseguiu crescer em 2020. A corretora Ativa Investimentos viu a receita saltar em 83% no acumulado em 12 meses até março. Para dar conta do crescimento, contratou 52 funcionários durante a pandemia, diz Sylvio Fleury, diretor de relações com o mercado.

Uma mudança estrutural ajudou esse movimento: os juros básicos da economia chegaram a 2% em 2020, patamar mínimo histórico. Apesar das recentes altas na Selic, o porcentual segue baixo, em 3,5% ao ano. Isso obriga investidores a buscar alternativas de maior rentabilidade, e muitos recorreram às corretoras e plataformas independentes. No primeiro trimestre de 2021, o número de pessoas físicas na Bolsa atingiu 3,5 milhões, ante 1,7 milhão em 2019.

Os serviços imobiliários também fecharam no azul em 2020. A Block Imóveis, administradora que atua na zona oeste do Rio de Janeiro, havia começado 2020 “muito bem”, segundo um dos diretores, André Toledo. Até que a pandemia “veio como um balde de água fria”.

“Mas, para a nossa surpresa, mesmo em março e abril, trabalhando em home office, fizemos vendas. Em maio, o negócio começou a voltar a normalidade. Em junho e julho, as vendas começaram a aumentar muito”, afirma Toledo. A imobiliária contratou cinco funcionários e oito corretores. As vendas deste início de ano estão 30% acima das registradas no início de 2020. Para Toledo, a queda da taxa do crédito imobiliário também ajuda a impulsionar os negócios. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.