Alex Silva/Estadão - 24/6/2021
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Com alta da inflação, vendas do varejo recuam 3,1% no pior mês de agosto em duas décadas

Entre as principais quedas, o segmento que inclui grandes lojas de departamento recuou 16% e o de hipermercados, 0,9%, aponta o IBGE

Bruno Villas Bôas, Cícero Cotrim e Marianna Gualter, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 09h14
Atualizado 06 de outubro de 2021 | 15h48

RIO e SÃO PAULO - A inflação afetou o volume de vendas de supermercados e postos de combustíveis em agosto e contribuiu para que o comércio varejista brasileiro registrasse seu pior mês de agosto em pelo menos duas décadas. O desempenho, surpreendentemente ruim, colocou viés de baixa nas projeções de analistas para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano.

Divulgadas nesta quarta-feira, 6, pelo IBGE, as vendas do varejo recuaram 3,1% em agosto frente a julho. O resultado ficou abaixo do intervalo das projeções de analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam desde queda de 1,4% a uma alta de 2,4%. Em relação a agosto de 2020, as vendas recuaram 4,1%, a primeira taxa negativa desde fevereiro (-3,9%). 

Seis das oito atividades pesquisadas do varejo tiveram taxas negativas em agosto, frente a julho. Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Ratings, os destaques negativos foram as menores vendas de supermercados (-0,9%) e de combustíveis e lubrificantes (-2,4%). Para ele, o resultado foi surpreendentemente ruim, mas possível de explicar pelo ambiente inflacionário.

“O consumo desses produtos, principalmente alimentação e combustíveis, costuma ser feito à vista em dinheiro. Como o mercado de trabalho ainda não conseguiu se alavancar, na situação atual de nível de renda baixo, é natural que exista esse recuo em um momento de preços altos", disse o economista, acrescentando que esses fatores também podem levar a um crescimento do PIB abaixo do esperado.

Agosto foi um mês de pressão de preços dos alimentos, que ficaram 1,63% mais caros nos domicílios, com destaque para produtos como batata-inglesa (19,91%), frango em pedaços (4,47%) e frutas (3,90%). Nos combustíveis, a gasolina ficou 2,8% mais cara nas bombas em agosto, refletindo reajustes de preços praticados pela Petrobras nas refinarias.

Outro destaque negativo para o varejo veio da atividade chamada outros artigos de uso pessoal e doméstico, com baixa de 16% em agosto. A categoria inclui grandes lojas de departamento e o comércio online. De acordo com o IBGE, a atividade passou por uma acomodação em agosto, após forte alta de 19,1% no mês anterior. 

 

No varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, as vendas recuaram 2,5% em agosto ante julho. A atividade de veículos, motos, partes e peças teve variação positiva de 0,7%, enquanto material de construção variou negativamente (-1,3%).

Lisandra Barbero, economista do Banco Original, avalia que surpresa negativa com o varejo sinaliza riscos à recuperação da atividade. “O resultado sugere que a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida de investimentos) pode ficar fragilizada no PIB”, diz a analista.

Economista-chefe da Kínitro Capital, Sávio Barbosa, concorda que a surpresa negativa imprime viés de baixa na expectativa de recuperação da atividade econômica. A Kínitro manteve a projeção de crescimento de 5,1% do PIB em 2021, mas o economista alerta que os dados disponíveis já indicam uma expansão menor, de 5,0%.  

"A gente enxerga que vai ser difícil sustentar um ritmo de crescimento forte, que basicamente o aumento da massa salarial não está sendo suficiente para compensar a aceleração inflacionária", explica Barbosa. No ano que vem, a Kínitro estima crescimento de 1,2% do PIB. 

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