Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Vendas do varejo recuam 0,1% em outubro, na 3ª queda seguida

O resultado vio pior do que o esperado por analistas do mercado financeiro e reforça os efeitos dos reajustes de preços e da alta dos juros para conter a inflação

Vinicius Neder e Marianna Gualter, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 09h28
Atualizado 08 de dezembro de 2021 | 13h43

RIO e SÃO PAULO - Sob pressão da aceleração da inflação, as vendas do comércio varejista recuaram 0,1% em outubro ante setembro, a terceira queda seguida, informou nesta quarta-feira, 8, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio pior do que o esperado por analistas do mercado financeiro - que esperavam uma alta de 0,6%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast - e reforça os efeitos da disseminação dos reajustes de preços e da alta dos juros para conter a inflação no sentido de frear a atividade econômica.

“De um modo geral, o processo inflacionário elevado deve seguir como um fator determinante para o desempenho do varejo”, disse o economista Yihao Lin, da corretora Genial Investimentos. “O alto nível de inflação deprecia a renda das famílias, o que diminui o poder de compra e o consumo”, completou o especialista.

O IBGE destacou que “a inflação continua exercendo impacto nos indicadores” da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), “uma vez que a variação de receita nominal de vendas do varejo é positiva”. A receita nominal do varejo restrito, ou seja, o faturamento sem considerar os reajustes de preços, avançou 0,7% ante setembro, segundo o IBGE.

Os efeitos da inflação apareceram também no desempenho entre os diferentes segmentos do comércio pesquisados pelo IBGE. Enquanto os reajustes na gasolina, no diesel e no etanol se destacam como vilões da inflação, as vendas de combustíveis e lubrificantes caíram 0,3% ante setembro. Atingida pela inflação de alimentos, a atividade de maior peso na PMC, as vendas de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo caíram 0,3% - considerando apenas super e hipermercados, a queda foi de 0,6%.

A dinâmica de renda e crédito também pesou, disse Cristiano Santos, gerente da PMC do IBGE. Segundo o pesquisador, embora os dados de outubro da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) ainda não tenham sido divulgados, há sinais de “estabilidade” no rendimento na comparação com períodos imediatamente anteriores. As concessões de crédito começaram a cair, nas comparações com os meses imediatamente anteriores, a partir de setembro, completou Santos, já como efeito do ciclo de elevação da taxa básica de juros (Selic, hoje em 7,25% ao ano) iniciado em março.

“Quando imaginamos todos os fatores, entendemos que os últimos meses foram de contrapesos para que o comércio tivesse um cenário de estabilidade em termos de volume em outubro”, afirmou Santos.

Sob a combinação de inflação e juros mais altos, de agosto a outubro, as vendas do varejo acumularam uma queda de 5,2%. Com a sequência negativa, o nível de vendas do varejo restrito está 0,1% abaixo do registrado em fevereiro de 2020, último mês antes de a pandemia de covid-19 atingir em cheio a economia.

Segundo Santos, toda a dinâmica da atividade varejista de 2020 para cá tem sido marcada pela pandemia. No segundo semestre do ano passado, durante a retomada após o pior momento da crise, as vendas do varejo chegaram a atingir o recorde da série histórica, em novembro de 2020. O pico foi atingido na esteira do suporte na renda das famílias dado pelo pagamento do auxílio emergencial e do desvio da demanda de serviços para bens - sem poder consumir em bares, restaurantes, cinemas ou salões de beleza, as famílias passaram a gastar mais com bens vendidos a domicílio e com alimentos. Nos primeiros meses da retomada, a aceleração da inflação ainda estava no início e atingia, principalmente, os alimentos.

De acordo com Santos, a retomada já tinha sofrido um baque em março deste ano, na segunda onda de covid-19 no País. Com isso, as vendas do varejo restrito tombaram abaixo do nível pré-pandemia. De março em diante, houve nova recuperação, puxada pela reabertura dos negócios à medida que a vacinação vinha avançando. Naquele momento, o aperto na política monetária ainda não se fazia sentir e as concessões de crédito a pessoa física continuavam crescendo, lembrou Santos.

Após os três meses de queda, as vendas atingiram em outubro nível de atividade 6,4% abaixo do recorde de novembro de 2020. Na comparação com um ano antes, as vendas de outubro registraram tombo de 7,1%.

“Agora, na medida em que o rendimento se estabiliza, o crédito cai e a inflação acaba aumentando em setores chaves, as vendas caem de novo”, completou o pesquisador do IBGE.

Para o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, os dados do varejo não são isolados. Se juntam à contração de 0,1% no Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, na comparação com o segundo, e ao recuo de 0,6% da produção indústria, em outubro ante setembro, ambos divulgados na semana passada pelo IBGE. Somados, confirmam as expectativas de desaceleração da economia, que ganharam corpo a partir de setembro, com a persistência da inflação elevada e a percepção de aumento no desequilíbrio das contas do governo.

“Com esses dados, muito provavelmente vamos rever para baixo nos próximos dias as projeções para o PIB deste ano e do ano que vem”, disse Salles.

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