Tiago Queiroz/Estadão - 25/11/2020
Ainda sob impacto da pandemia, as vendas do varejo tombaram 6,1% ante novembro, informou o IBGE nesta quarta-feira, 10. Tiago Queiroz/Estadão - 25/11/2020

Varejo tem queda de 6,1% em dezembro, mas fecha 2020 com alta de 1,2%

Resultado foi o pior para um mês de dezembro desde o início da série histórica do IBGE, em 2000

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 09h26
Atualizado 10 de fevereiro de 2021 | 14h39

RIO - O desempenho do varejo em dezembro de 2020 jogou um balde de água fria nas expectativas de retomada da economia em meio à crise causada pela covid-19. Ainda sob impacto da pandemia, as vendas do varejo tombaram 6,1% ante novembro, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 10. Muito abaixo das projeções de analistas do mercado financeiro, o resultado favorece tanto os apelos por uma nova rodada do auxílio emergencial quanto as avaliações de que não é hora de o Banco Central (BC) começar a subir juros.

Os analistas mais pessimistas esperavam, no extremo, uma queda de 2,0% ante novembro, conforme pesquisa do Projeções Broadcast. O recuo já era esperado, mas as estimativas apontados para uma queda de apenas 0,6% nas vendas. Mesmo despencando em dezembro, as vendas do varejo fecharam 2020 com alta de 1,2% ante 2019.

O tombo de 6,1% foi o pior desempenho para meses de dezembro na série histórica do IBGE, iniciada em 2000. Mostrou também como a pandemia desorganizou a economia. No ano passado, as vendas do varejo registraram o pior desempenho da história para um mês isolado (tombo de 17,2%, em abril), ao mesmo tempo em que, após seis meses de recuperação, atingiram o nível recorde, em outubro. Naquele mês, o nível de vendas estava 6,6% acima do de fevereiro, antes da pandemia. Com dezembro, terminou no mesmo patamar anterior à covid-19.

Segundo Cristiano Santos, gerente da pesquisa, uma série de fatores explica o tombo de dezembro. São eles a redução do valor do auxílio emergencial pago pelo governo a trabalhadores informais (cortado à metade, para R$ 300, nos últimos meses de 2020), a antecipação de vendas para novembro (por causa das promoções da Black Friday, fenômeno que vem ocorrendo nos últimos anos), a pressão da inflação de alimentos sobre as vendas dos supermercados e um Natal ruim para alguns setores, como o de vestuário.

Mesmo assim, a surpresa com tamanha queda, para Santos, se deveu, primordialmente, a um “ajuste estatístico”. Após atingir o nível recorde em outubro, as vendas caíram apenas 0,1% em novembro e seria “muito difícil crescer em cima do que já havia crescido”, afirmou Santos.

“O resultado do varejo foi um total desastre, não dá para dourar a pílula. A queda de 6,1% foi impressionante, e a conjunção de fim de auxílio com fragilidade da economia reforça a ideia de volta em raiz quadrada. Ou seja, a economia caiu, subiu e vai ficar de lado”, afirmou o economista-chefe da corretora Necton Investimentos, André Perfeito.

 

Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, com o desempenho do varejo, os números da atividade econômica no fim do ano passado “certamente ganharam viés negativo”. O desempenho da economia no quarto trimestre e, portanto, em 2020 como um todo, pode ser pior do que o inicialmente esperado. Isso impactaria também 2021, pois um bom ritmo de crescimento no fim de um ano favorece o ano seguinte.

“Foram quedas muito acima do esperado, provavelmente relacionadas à redução do auxílio emergencial e à Black Friday de novembro, que tem puxado boa parte da demanda por bens e que, em 2020, particularmente, deve ter sido bem mais importante”, afirmou Camargo.

Santos, do IBGE, reconheceu que parte da forte retomada das vendas do comércio varejista de maio a outubro, após o fundo do poço da crise, se deveu a um “reposicionamento do consumo das famílias” e ao impulso gerado pelo auxílio emergencial.

Sem poder gastar com serviços que exigem contato pessoal e presencial, como salões de beleza, manicure, shows, restaurantes e cinema, as famílias que conseguiram manter seus rendimentos direcionaram o consumo para os bens. Lançando mão das entregas a domicílio e do comércio eletrônico, gastaram em móveis, eletrodomésticos e comida para preparar em casa.

Para os trabalhadores que não conseguiram manter sua renda durante a pandemia, o auxílio emergencial evitou o pior. No caso das famílias mais pobres de algumas localidades do País, o pagamento mensal de R$ 600 chegou a superar a renda que recebiam antes da pandemia.

“Havia um rendimento extra, principalmente até novembro, acima do rendimento habitual, para uma faixa de famílias. Isso ajuda no crescimento do consumo. Não necessariamente tudo virou consumo, mas teve uma parcela que fez com que esses números (de vendas) também crescessem de maneira rápida até outubro”, afirmou Santos.

Por isso, para o estrategista da RB investimentos, Gustavo Cruz, com o tombo nas vendas do varejo em dezembro, a ideia de relançamento do auxílio emergencial deve ganhar ainda mais apelo em Brasília.

“Os dados do varejo mostram que o auxílio vai ter apelo político grande até que as pessoas voltem às ruas e o comércio e os serviços consigam reabrir de forma definitiva”, afirmou Cruz.

A reedição do auxílio emergencial já está nos discursos dos parlamentares do Congresso Nacional, embora a equipe econômica demonstre preocupação com a situação fiscal, uma vez que manter os pagamentos elevará novamente os gastos públicos. 

Desempenho por setor

O comportamento atípico do consumo em meio à pandemia aparece na disparidade entre os desempenhos de cada atividade do varejo. As vendas de supermercados, produtos alimentícios e bebidas fecharam 2020 com alta de 4,8%. Foi o melhor desempenho desde 2012, quando as vendas desse setor subiram 8,4%. Por outro lado, no ano fechado, houve um tombo nas vendas de livros, jornais e papelaria (-30,6%) e de vestuário e calçados (-22,7%).

Como o peso do setor de supermercados na composição final do índice do varejo na pesquisa do IBGE é grande, isso ajudou a turbinar o recorde do nível de vendas durante a retomada do ano passado, lembrou Santos. Sozinho, o setor de supermercados adicionou 2,3 pontos porcentuais (p.p.) à variação agregada em 2020. É praticamente o dobro da alta global de 1,2% nas vendas do varejo restrito, que só não subiram mais porque o setor de vestuário, com a queda de 22,7%, retirou 1,9 p.p. na composição final.

O dado negativo do varejo também levou economistas do mercado financeiro a apostarem que o BC deverá mesmo deixar para subir a taxa básica de juros (Selic, hoje em 2,0% ao ano) mais para o meio do ano. Os investidores também mudaram suas apostas, e os juros futuros de curto prazo caem desde a divulgação do dado pelo IBGE, de manhã.

Para Perfeito, da Necton, o desempenho do varejo é mais uma mensagem de que juros baixos não vão conseguir, sozinhos, promover a recuperação econômica. Isso reforça ainda mais a ideia de relançar o auxílio emergencial, algo que, segundo Perfeito, já está claro na cabeça dos congressistas.

“Não adianta ter juro no lugar certo e a economia no lugar errado. O investimento depende de demanda, e cortar juros não gera renda. O desempenho do varejo reforça essa ideia, mas isso já está claro, políticos já perceberam”, disse Perfeito.

O problema, para a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, é que uma reedição do auxílio poderá não ter o mesmo efeito visto em 2020. Em parte porque a inflação de alimentos mais elevada corrói o poder de compra do auxílio. Para ela, é “inocência” achar que três meses de pagamentos R$ 200 farão diferença na economia.

“É muita inocência pensar que isso vai fazer o varejo bombar”, disse Camila, ressaltando que, em sua avaliação, há pouco espaço para ampliar os gastos do governo. “Claro que o auxilio é importante. Não estou sendo negligente, mas fico preocupada, pois realmente quem precisa já se depara com uma inflação elevada de alimentos e, além disso, tem o risco fiscal. Não há espaço fiscal para isso. O governo repete os erros do passado”, completou a economista. / COLABORARAM EDUARDO LAGUNA, GREGORY PRUDENCIANO e MARIA REGINA SILVA

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CNC corta projeção de vendas do varejo para este ano

Depois da queda histórica de 6,1% em dezembro, a estimativa de crescimento do setor em 2021 passou de 3,9% para 3,5%

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 14h37

A queda histórica das vendas do comércio em dezembro, de 6,1% na comparação com novembro, fez a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) cortar a projeção de crescimento do varejo para este ano. A nova expectativa é de um avanço de 3,5% do varejo restrito, que não inclui veículos e materiais de construção. A projeção anterior era de crescimento de 3,9%.

Fábio Bentes, economista-chefe da CNC, ressalta que o auxílio emergencial e a adesão ao e-commerce por milhões consumidores foram fundamentais  para que o varejo fechasse o ano no azul, apesar das turbulências provocadas pela pandemia. De acordo com o IBGE, o crescimento do varejo em 2020 foi de 1,2%. 

O volume de vendas do varejo online, por exemplo, encerrou 2020 movimentando R$ 224,7 bilhões, com crescimento de 37% em relação a 2019, segundo dados da Receita Federal. Mesmo assim, o e-commerce representa uma parcela pequena do faturamento do varejo, menos de 10%.

Para este ano, o desempenho da economia e, especificamente, de um setor que ainda depende de forma significativa do consumo presencial está associado à evolução da crise sanitária. Na análise do economista, o baque de dezembro nas vendas refletiu o recrudescimento da pandemia em várias regiões do País, que levou os governos a implantar medidas de restrição à circulação de pessoas, dentre as quais o fechamento ou redução de horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Além disso, houve o impacto do corte no auxílio emergencial, de R$ 600 para R$ 300, e da  inflação em alta, principalmente de alimentos, que reduziram a renda do consumidor.

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