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Varejo tem sexta alta seguida e vendas já estão 8% acima do nível pré-pandemia

Setor cresceu 0,9% em outubro em relação a setembro e, desde maio, acumula avanço de 32,9%, segundo o IBGE

Daniela Amorim, Thaís Barcellos e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 11h45

RIO e SÃO PAULO - As vendas do comércio varejista cresceram 0,9% em outubro em relação a setembro, na sexta taxa positiva consecutiva. Com isso, as vendas do setor alcançarem o patamar mais elevado da série histórica da Pesquisa Mensal de Comércio, iniciada em janeiro de 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desde maio, passado o período mais agudo da crise causada pela pandemia de covid-19, o varejo acumulou avanço de 32,9%, informou o IBGE nesta quinta-feira, 10. Foi o terceiro mês seguido em que as vendas vêm alçando patamares recordes.

"Vemos que a economia está se recuperando em V, mas o dado não altera a preocupação e a incerteza com o ano que vem, quando os estímulos forem sendo retirados. A recuperação neste ano é em grande parte decorrente dos estímulos fiscais, de crédito e monetário que foram injetados na economia, que não vão poder ser mantidos nos níveis atuais no ano que vem", avaliou o estrategista-chefe na América Latina do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

O volume vendido já está 8,0% acima do patamar de fevereiro, no pré-pandemia. O varejo ampliado, que inclui os setores de veículos e material de construção, cresceu 2,1% em outubro ante setembro e já está 4,9% acima do nível pré-pandemia.

O resultado é compatível com uma contração de 3,50% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, calculou o economista da CM Capital Alexandre Almeida.

"Esses dados tendem a puxar o PIB. Vão contribuir com um crescimento substancial, inclusive porque existe uma sazonalidade positiva de fim de ano, de compra de alimentos, móveis. É uma época na qual você costuma observar um crescimento substancial", justificou Almeida, que espera crescimento no varejo nos últimos dois meses do ano.

Uma sequência de seis meses seguidos de avanços nas vendas varejistas não era vista desde 2013. “Mais de 80% das empresas relataram variação positiva nas vendas em outubro. Antes as variações positivas estavam muito concentradas nas vendas das grandes empresas. As pequenas empresas agora começaram a ter variação positiva mais distribuída”, apontou Cristiano Santos, analista da pesquisa do IBGE.

O bom desempenho do comércio varejista tem sido turbinado pelo pagamento do auxílio emergencial e pelo avanço nas concessões de crédito para pessoas físicas, com taxas de juros mais baixas. "Essa expansão do crédito é um dos principais fatores. A questão do auxílio emergencial também aparece, mas com menos intensidade. Ainda é uma influência positiva", afirmou Santos.

A perda de potência do auxílio emergencial está relacionada à redução do valor de R$ 600 para R$ 300 a partir de setembro. "O crédito compensou a redução do auxílio em outubro. Certamente nos meses anteriores o auxílio tinha um peso maior (no aumento das vendas)", disse Santos.

A renda extra ainda aumenta o poder de compra das famílias. Segundo Santos, dados da Pnad Covid, também do IBGE, mostram que cerca de 30% dos domicílios brasileiros receberam em outubro metade do valor do auxílio que receberam em setembro, mas o rendimento médio efetivo ainda ficou 3% acima do rendimento médio habitual. Para ele, o que impediu uma alta maior no volume de vendas do comércio varejista foi a inflação de alimentos, que prejudica o desempenho dos supermercados. A atividade de supermercados teve uma elevação de 2,7% na receita nominal de vendas em outubro ante setembro. Quando descontada a inflação de alimentos, o volume vendido subiu apenas 0,6%.

Os níveis de vendas dos segmentos de outros artigos de uso pessoal e doméstico, material de construção e artigos farmacêuticos estão no ápice. As vendas de material de construção já superaram em 21,5% o nível de antes da crise, e as de móveis e eletrodomésticos estão 19,0% acima das de fevereiro. Também estão acima do patamar pré-pandemia outros artigos de uso pessoas e doméstico (13,3%), artigos farmacêuticos (9,6%) e supermercados (6,1%).

A pesquisa, porém, mostra um desequilíbrio no ritmo de recuperação desde o baque provocado pela pandemia de covid-19. O segmento de veículos opera 5,2% abaixo do patamar pré-covid e o de vestuário está 4,6% aquém do nível de fevereiro. Nesse mesmo grupo estão equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (vendas 2,1% menores); combustíveis e lubrificantes (-4,7%) e livros, jornais, revistas e papelaria (-33,7%).

“Esse crescimento (do varejo) se dá em termos desiguais. É um momento muito favorável na média do varejo e muito favorável para algumas atividades, mas não é favorável para outras atividades”, ponderou Cristiano Santos.

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