Variação cambial tumultua vida das empresas

Valorização e desvalorização do dólar joga por terra planejamento financeiro das companhias

Andrea Vialli, O Estadao de S.Paulo

15 de junho de 2009 | 00h00

No meio do ano passado, com o dólar cotado na casa do R$ 1,80, os exportadores não paravam de reclamar das dificuldades de vender seus produtos no exterior. Aí veio a crise global, e em três meses o dólar chegou a R$ 2,50. Era a vez dos importadores reclamarem. Mais alguns meses e o dólar volta para a casa dos R$ 1,90. Agora, todos reclamam: com tamanha volatilidade, não há planejamento financeiro que se sustente. "A oscilação é pior que o dólar alto, porque prejudica qualquer plano a longo prazo", diz Marcel Malczewski, presidente da Bematech, fabricante de máquinas e equipamentos para automação comercial. A empresa, que utiliza boa parte de componentes importados, viu seus custos baixarem nos últimos meses por causa da desvalorização do dólar. Mesmo assim, Malczewski diz preferir a estabilidade.No ano passado, quando estava preparando o orçamento para 2009, a Bematech traçou três cenários para seus contratos. Um deles contava com o dólar a R$ 2,30, outro cenário previa a moeda americana a R$ 2,10, e o terceiro, a R$ 1,85. Mas era necessário fixar um valor para os contratos antes de encaminhar o orçamento para aprovação do conselho de administração. "Os três cenários e as oscilações do dólar tornaram a escolha muito complexa. Para simplificar, escolhemos um dos cenários e rasgamos os outros dois", diz Malczewski.O cenário escolhido previa o dólar a R$ 2,30. Em dezembro, o câmbio estava acima desses patamares - chegou a R$ 2,50. "Apostamos que haveria queda e depois, estabilização", diz Malczewski. "O dólar faz diferença porque a maior parte dos insumos para fabricação dos equipamentos, como componentes de micromecânica, vêm de fora."Hoje, a venda de equipamentos para automação comercial responde por dois terços da receita da Bematech, que foi de R$ 318 milhões em 2008, 30% mais que em 2007. O restante do faturamento vem das vendas de softwares e de prestação de serviços, como manutenção.TUMULTOMarcos Barros, diretor financeiro e de relações com investidores da Dixie Toga, gigante do mercado de embalagens, diz que o vai e vem do dólar contribui para deixar sua agenda mais tumultuada. As reuniões com clientes e viagens de negócios se tornaram mais frequentes. "Como o câmbio inverteu, agora os clientes pedem desconto. Temos de estar constantemente precificando os produtos. E dá-lhe negociação", diz. A Dixie Toga é controlada pelo grupo americano Bemis Company e fabrica vários tipos de embalagens, de tubos de creme dental a potes de margarina. Quase 90% das matérias-primas que utiliza, como as resinas plásticas, são importadas. "O dólar instável gera incerteza, ficamos ao sabor do vento. Não tenho mais uma rotina."A Vitopel, que também atua no segmento de embalagens, precisou rever sua estratégia para este ano por causa da grande variação apresentada pelo câmbio. Entre janeiro e abril, a empresa havia triplicado suas vendas ao exterior, quando chegou a vender 2 mil toneladas por mês de filmes flexíveis, o carro-chefe da empresa. Assistindo à queda do dólar, José Ricardo Roriz Coelho, presidente da empresa, reuniu seus principais executivos para traçar um plano B. "Reduzimos em 20% as exportações por causa do câmbio", conta Coelho, que redirecionou parte da produção para atender ao mercado doméstico. A oscilação da moeda, segundo ele, faz que com que os planejamentos precisem ser refeitos mês a mês. Outra decisão foi selecionar a clientela. "Hoje, estamos vendendo só para clientes tradicionais, que compram regularmente. As negociações ficam mais fáceis", diz.BARBEIRAGEMO dia todo conectado, pelo computador ou celular. João Lian, presidente da Sumatra Comércio Exterior, não perde de vista a cotação do dólar. "Fico olhando a taxa de câmbio toda hora, assim como o preço do café no mercado internacional. É a primeira coisa que eu faço quando acordo", diz ele, que possui uma trading de café que fatura R$ 200 milhões por ano, cinco fazendas produtoras em Minas Gerais e também administra um fundo de investimentos, o Nuevo Sumatra. "Eu preciso traçar uma estratégia na trading, outra como produtor e outra no mercado de capitais. Não dá mais para desgrudar do câmbio", diz ele, que também acompanha com afinco o noticiário econômico. "Ouço ?milhares? de opiniões de economistas, todos os dias." Para evitar perdas com o dólar depreciado, Lian também optou por reduzir o volume da produção de café que embarca para o exterior. Até recentemente, exportava 80% da produção. Hoje, reduziu o volume para 65%. Para o produtor, a crise e seus efeitos poderiam ter sido evitados. "Deixar o Lehman Brothers quebrar em setembro foi uma baita barbeiragem."

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