Varig e TAM devem reduzir vôos domésticos

A primeira grande mudança na aviação comercial brasileira depois da assinatura, no dia 6, do acordo que poderá levar à fusão entre Varig e TAM, deverá ser a redução de freqüências nas rotas em que há superposição de vôos entre as companhias. É nessa direção que trabalham as equipes das duas empresas, que já vêm mantendo reuniões diárias para encontrar medidas imediatas que possam ser tomadas para aumentar a eficiência e a rentabilidade de ambas - independentemente de uma definição quanto à fusão das empresas ou à abertura de uma holding que unifique definitivamente as operações.Um levantamento realizado pelas companhias, em parceria com representantes do Departamento de Aviação Civil (DAC) e do Comando da Aeronáutica, já revelou a possibilidade de cancelamento de pelo menos 71 vôos no Aeroporto de Congonhas. A área técnica do governo, que ficou de fora das negociações para viabilizar a assinatura do acordo, aplaude e incentiva a medida, já que a retirada de vôos dos aeroportos mais movimentados - Congonhas, em São Paulo; Santos Dumont, no Rio, e Pampulha, em Belo Horizonte - faz parte de um plano antigo das autoridades aeronáuticas, que nunca saiu do papel por causa do lobby das empresas para manterem suas rotas."As operações em alguns aeroportos, como o de Congonhas, atingiram o limite estabelecido pelas normas de segurança. Isso faz com que, a cada imprevisto, como uma falha em um radar, haja atraso no fluxo de vôos, o que causa prejuízo para as próprias empresas e transtornos para seus passageiros", afirma um oficial do Controle do Espaço Aéreo Brasileiro. "É um problema que não se justifica, já que há outros aeroportos, subutilizados, que poderiam equilibrar melhor o atendimento. Basta apenas que as empresas mexam em suas malhas."As companhias têm tentado identificar em quais rotas seria vantajoso manter apenas uma das duas bandeiras operando, ou evitar as guerras de tarifas para disputar a primazia em áreas já dominadas por uma ou outra. No Aeroporto de Brasília, por exemplo, a Varig mantém boa liderança em número de passageiros transportados, enquanto em Curitiba a TAM exibe melhor desempenho.Demissões - Outra preocupação do governo tem sido a busca de meios para limitar o número de demissões que possam resultar do aprofundamento das relações entre as duas companhias. No dia seguinte à assinatura do acordo, o ministro da Defesa, José Viegas Filho, teria chegado a dizer à presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziela Baggio, que o número de postos de trabalho nas empresas não seria reduzido por causa do acordo. Mas a assessoria do ministro desmentiu a informação e disse que essa é uma decisão que cabe às companhias.O fato é que outro grande benefício imediato do acordo operacional seria possibilitar o uso de aviões da TAM em rotas internacionais da Varig. Enquanto esta companhia se prepara para uma série de devoluções de aeronaves - só para a GE retornarão 6 Boeings 767 e 3 MD-11 antigos, todos usados em rotas internacionais -, a TAM sofre porque não teve como cancelar o recebimento de jatos Airbus A-330, de grande porte, que seriam utilizados em vôos para o exterior que foram cancelados. Se conseguir usar os aviões da TAM nas linhas que ficarão descobertas, a Varig ficará com excesso de tripulantes, que não estão preparados para voar nos jatos da Airbus.Credores - Segundo um executivo que acompanha o processo de associação das duas empresas, a Varig e a TAM também iniciaram, na semana passada, as apresentações do projeto da fusão a credores. Por enquanto, esses encontros foram isolados e não em formato de comitê.Na noite de quinta-feira, as linhas gerais do projeto foram apresentadas, no Rio, ao presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa. A apresentação foi feita pelo economista da Unicamp Luciano Coutinho, que vem supervisionando a tentativa de fusão das companhias aéreas. Sobre o encontro, Lessa limitou-se a declarar, ontem, que o processo está avançando de "forma bem sensata".O presidente do BNDES também defendeu a concentração no setor aéreo como uma saída para a crise, mas deixou claro que esse assunto está sendo tratado pelos ministérios da Defesa e do Desenvolvimento e que o banco seguirá as orientações que receber deles. "Vejo o aumento da regulação para permitir concorrência, sim, mas não concorrência predatória", afirmou.Lessa observou ainda que "em praticamente todos os países a participação de uma empresa aérea é muito grande, com exceção dos Estados Unidos, onde a concentração é menor". Segundo ele, nos países da Ásia e da Europa, em geral, há apenas uma grande companhia de aviação. Somadas, Varig e TAM detêm mais de 70% do mercado doméstico.André Siqueira (colaboraram Nilson Brandão Junior e Adriana Chiarini/AE)

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