Jorge Henrique/Estadão
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Vários lados e várias explicações

Na transição para a energia renovável, é bom ter cuidado com a pressa e entender a realidade de cada país

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 04h00

O Brasil e a quase totalidade dos países da América Latina têm ou tiveram uma relação de adoração e de crença com o chamado populismo. O populismo político, tanto de esquerda como de direita; o populismo tarifário, que usa ou usou as empresas estatais; e agora, com a pandemia, estamos vendo surgir uma espécie de populismo ambiental. A pandemia colocou na frente da vitrine a discussão ambiental numa forma mais emocional e com menos racionalidade econômica. Temos visto um debate em que existe pressa para que o mundo produza energia renovável, renovável e renovável. Mas a pressa, como diz o ditado, é inimiga da perfeição.

Poderíamos questionar que agora seria diferente e que a transição energética vai se dar de maneira mais rápida com os avanços tecnológicos em curso. Também a pandemia aceleraria essas mudanças, pelo fato de que o mundo não sobrevive aos efeitos das mudanças climáticas. Muitos afirmam que o que estamos passando com a pandemia é nada, diante do que possa vir por aí decorrente das mudanças climáticas. E este copo de água das mudanças climáticas estaria ficando cada dia mais cheio.

É sempre bom olhar a história e observar que as transições energéticas são longas. A substituição da lenha pelo carvão iniciou-se em 1709, mas o carvão só se tornou o combustível majoritário para necessidades energéticas dois séculos depois. A descoberta do petróleo ocorreu em 1859 na Pensilvânia, mas ele só se tornou a principal fonte energética mundial um século mais tarde. Atualmente, o mundo depende de combustíveis fósseis para algo como 84% de suas necessidades energéticas.

Como sempre, o debate apresenta vários lados e várias explicações. E como sempre, também, há radicalismos de todos os lados. Uns advogam a tese negacionista de que o clima não está mudando, enquanto outros defendem uma intervenção crescente na economia para que suas políticas ambientais sejam adotadas de forma mais rápida. Intervenções nunca são boas. Um aspecto que preocupa muito é ver as discussões ambientais descoladas da questão social, como o nível de renda dos diferentes países.

A análise de matrizes energéticas não pode prescindir de considerações relativas à renda. É inteiramente relevante para a análise da adaptabilidade de estratégias de transição energética que a variável poder de compra/renda seja considerada em todo o planejamento, sob o risco de que o “E” do acrônimo ESG (Environmental, Social and Governance) seja atendido integralmente, mas com implicações negativas para o “S” de social. Neste caso, contextualizar matrizes elétricas e mix de geração com peso relativo de preços e tarifas de energia na renda per capita da população é um filtro muito importante de adaptabilidade local de estratégias.

Um exemplo é a Irlanda (6,6 milhões de habitantes). A Irlanda é um referencial de país com energias limpas, e recentemente um estudo da Queen’s University Belfast discorreu sobre o tema de inércia e o papel de baterias. Hoje, uma discussão sobre planejamento energético não pode prescindir de discussão sobre baterias e a evolução tecnológica, e a Irlanda está na vanguarda dessa discussão. Contextualizando a questão de renda, na Irlanda a renda média per capita é de € 51.458 versus € 7.672,3 no caso do Brasil (5,7 vezes superior). As tarifas de eletricidade no país atualmente correspondem a € 197,4 o MWh (74,5% superiores às tarifas do Brasil, de € 113,1 o MWh). Dado o nível de renda médio da população irlandesa, os gastos com eletricidade correspondem somente a 1,6% da renda, versus 5,5% no caso do Brasil.

Não resta dúvida alguma de que o Brasil pode ser uma potência verde no mundo pós-pandemia. O desafio do Brasil é manter o grau de penetração de fontes renováveis e, ao mesmo tempo, garantir a segurança do abastecimento usando o gás natural – a energia da transição – com tarifas adequadas ao nível de renda do País. Portanto, deve-se ter cuidado com a pressa e os extremismos e entender a realidade energética e social de cada país. O exemplo é o incentivo ao carro elétrico, quando temos o carro a etanol, mais limpo e mais barato.

* DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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