Hélvio Romero/ Estadão
Alexandre Dal Forno (TIM), Alex Santos (Motorola), Leonardo Finizola (Nokia), Renato Coutinho (CNH) e jornalista Gustavo Porto Hélvio Romero/ Estadão

Vazio de conectividade chega a 50 milhões de hectares

Para suprir demanda, seriam necessárias pelo menos 4 mil torres de celular; falta de recursos é obstáculo

Isadora Duarte, Tânia Rabello e Vinicius Galera, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 19h58

Um total de 50 milhões de hectares na área rural do Brasil ainda não tem acesso à internet, o que demandaria entre 4 mil e 5 mil torres de celular e entre 4 mil e 5 mil licenças ambientais, informou o diretor de Novos Negócios da Nokia, Leonardo Finizola, no Summit Agronegócio Brasil 2019. Por isso, o executivo defendeu que o setor público auxilie o privado a sanar essa deficiência, essencial para a expansão de tecnologias na área rural. “Precisamos tirar amarras de tudo o que for possível para garantir essa comunicação, estimulando financiamentos.”

A necessidade de licenciamento ambiental, de fato, limita o agronegócio brasileiro, considera o diretor de Negócios de Internet das Coisas da Claro, Eduardo Polidoro. “É o nosso principal problema de infraestrutura para esse segmento”, observou. 

Sem estímulo. Para ele, empresas de grande porte e de capital aberto desistem de investir por causa da burocracia do trâmite de autorização das estruturas de conexão. “Cada torre colocada em área agrícola necessita de licença ambiental, mesmo sendo próximo à sede da fazenda ou em área já cultivada. É um processo moroso e custoso”, afirmou.

Mesmo com esse “vazio” de 50 milhões de hectares, o setor vem investindo pesado em soluções integradas que dependem de conectividade. Conforme o gerente de vendas para o mercado comercial da Motorola, Alex Farias dos Santos, anteriormente havia uma “distância muito grande” entre empresas de telecomunicações e empresas do agronegócio, mas hoje os setores buscam “soluções e tecnologias diferentes, mas de maneira integrada”, afirmou. “Trabalhamos em conjunto com desenvolvedores, em soluções ligadas à conectividade, serviços e assistência técnica.”

O diretor de Produtos Corporativos & IoT da TIM Brasil, Alexandre Dal Forno, também reconhece que ainda é grande o desafio para o setor produtivo trabalhar com maquinário de alta tecnologia, que depende 100% de conectividade. “É um gargalo. Quais soluções vêm sendo desenvolvidas para o agronegócio? O desafio é regulatório e de cultura, não tecnológico”, disse. 

A Tim criou uma solução 4G no campo que, segundo Dal Forno, é multiplataforma. A tecnologia atende às necessidades do produtor e de quem mora no campo, afirma. A área de cobertura abrange Mato Grosso e a região de Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). 

A CNH Industrial também vem trabalhando no desenvolvimento de soluções que garantam maior autonomia às máquinas agrícolas, contou o especialista em telecomunicações da empresa para a América Latina, Renato Coutinho. “O piloto automático para agricultura de precisão e manejo agrícola já é feito praticamente todo pela máquina, com interferência mínima do operador. O desafio é passar a tomada de decisão para o equipamento, como, por exemplo, a mudança de trajeto e de área de trabalhos de campo conforme as alterações climáticas”, exemplificou.

Um dos possíveis reflexos da automatização das máquinas agrícolas, considerou Coutinho, é uma readequação de operação das fabricantes e montadoras. “Um eventual efeito é passarmos a ser uma empresa mais focada em serviços e soluções para máquinas do que fabricantes de máquinas”, avaliou. Coutinho ponderou, contudo, que a autonomia das máquinas no campo ainda carece de regulamentação tanto no âmbito nacional quanto internacional.

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Summit Agronegócio: tech e sustentável

O agronegócio se firma como exportador de alimentos, sobretudo para a China, com respeitoàs regras ambientais. Falta comunicar isso melhor e resolver a falta de conectividade no campo

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 19h35

O agronegócio brasileiro já conquistou seu espaço como grande fornecedor global de alimentos e pode abocanhar fatias maiores ainda num futuro próximo, além de fidelizar os mercados conquistados, avaliaram os participantes do Summit Agronegócio Brasil 2019, realizado pelo Estado no dia 13 de novembro, em São Paulo, com patrocínio da Corteva e da Embratel. Para se tornar mais competitivo, porém, o setor deve solucionar gargalos ligados à conectividade no campo, possibilitando o eficiente emprego de tecnologias ligadas ao universo digital e de armazenamento e uso de dados. Neste sentido, iniciativas importantes foram apresentadas no evento, inclusive por várias startups, que mostraram suas soluções para a cadeia produtiva no Painel Tech do Summit. Mas há um grande e custoso desafio a ser enfrentado para levar internet ao meio rural: a instalação de pelo menos 4 mil torres de celular para cobrir o “vazio” de 50 milhões de hectares sem conectividade.

Outra questão essencial é conseguir mostrar ao mundo e também ao próprio País que a produção sustentável já faz parte da realidade do campo. Para os especialistas que debateram o assunto, o agronegócio brasileiro não consegue, ainda, comunicar de maneira eficaz que, além de produtivo e competitivo, respeita as leis ambientais. 

Mesmo que atualmente as exportações de commodities agrícolas brasileiras sejam crescentes, muito por causa da guerra comercial entre Estados Unidos e China – que deve se prolongar, na visão dos especialistas – e da peste suína africana no gigante asiático, a conta de exigências ambientais será cada vez mais cobrada. E, para isso, as respostas devem estar prontas e de forma que todos entendam. Um alento veio do setor de logística, que demonstrou otimismo com investimentos recentes e futuros no setor, inclusive na área tecnológica, para otimizar o escoamento da gigante safra brasileira de grãos, que deve bater novo recorde em 2019/2020, com cerca de 246 milhões de toneladas.

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Guerra comercial entre EUA e China ainda longe do fim

Esta é a avaliação dos participantes do painel sobre a disputa entre os dois gigantes; Brasil, que se beneficia, deve porém ficar atento

Isadora Duarte, Tânia Rabello e Vinicius Galera, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 19h34

O mundo aguarda com expectativa o fim da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que começou em março de 2018 e, até o momento, mesmo com os recentes sinais de arrefecimento, parece estar longe de se encerrar. Este foi um dos principais assuntos abordados pelos participantes do Summit Agronegócio Brasil 2019, promovido pelo Estado no dia 13 de novembro, em São Paulo, com patrocínio da Corteva e da Embratel. Para o diretor da consultoria norte-americana Hueber Report, Daniel Hueber, as notícias recentes sobre a negociação comercial entre os dois gigantes do comércio global “apontam para o não acordo”. Ele citou o fato de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter reiterado, um dia antes do Summit, que poderia elevar em 15% as tarifas retaliatórias contra a China, mesmo que ambas as potências encontrem-se na negociação da chamada “fase 1” do acordo. 

Para Hueber, a insegurança mundial em relação ao tema diz respeito ao fato de que essa disputa comercial “muda diariamente”. “É também uma briga de dois egos, entre Trump e Xi Jiping (presidente da China), mas as duas economias estão sendo afetadas.”

Hueber disse também que produtores norte-americanos estão muito preocupados com os prejuízos da guerra comercial e, em virtude da contenda, “hoje o subsídio do governo dos EUA ao setor é o maior desde 2001, com 20% da produção subsidiada”. 

Já o Brasil vem se beneficiando da situação, pelo menos por enquanto. “Os EUA perderam fatia do mercado chinês para o Brasil, com um salto de 47 milhões para 64 milhões de toneladas de soja exportadas por ano”, disse.

‘Vai longe'

O professor sênior de agronegócio do Insper, Marcos Jank, também não guarda otimismo em relação a um fim próximo da guerra comercial entre EUA e China. Para ele, que participou do painel “Exportações, blocos comerciais e China – o que o mundo precisa e exige do agronegócio”, o conflito mercantilista “vai longe”. Por isso, recomenda que o Brasil – principal concorrente dos EUA no comércio global de commodities agrícolas e grande exportador para a China – deve manter uma “equidistância prudente”. Na visão de Jank, o agronegócio brasileiro tem a ganhar na disputa, principalmente nos setores de soja, carnes e etanol. “O problema é que pode haver um acordo lá na frente e isso pode levar a um prejuízo, já que nossos principais concorrentes são os norte-americanos.”

Jank assinalou ainda que a disputa não é apenas comercial: “É muito mais ampla e hegemônica”. Ele explicou que atualmente há duas importantes “mudanças estruturais” acontecendo na China. “A primeira é a guerra comercial, que inaugura uma nova fase de mercantilismo no mundo, ao romper com o papel que os americanos tiveram na construção de um sistema amplo e multilateral”, explica. A segunda é a oportunidade aberta para a grande exportação de carnes, que está ocorrendo em função da peste suína africana (PSA), que já dizimou pelo menos 40% do plantel de suínos da China. E, mais à frente, quando o país asiático recompuser seu rebanho, abre-se a chance de o Brasil vender mais soja e milho para lá, para alimentar a os plantéis pós-peste suína.

Escritório em Xangai. Vislumbrando um crescimento maior ainda das relações comerciais entre Brasil e China, o governador de São Paulo, João Doria, que foi um dos palestrantes na abertura do Summit, informou sobre uma recente iniciativa, feita em parceria com o setor privado: a abertura de um escritório de negócios em Xangai, China. “São empresas chinesas e brasileiras que financiam a iniciativa: chineses que têm interesse no Brasil e brasileiros com interesse na China.” 

O governador disse que esse escritório está analisando 36 projetos de desenvolvimento para São Paulo, sendo 12 ligados ao agronegócio. Doria disse também que o governo estadual captou US$ 20,48 bilhões de investimentos para o Estado em recente missão oficial à China. “Apenas dois grandes investimentos, provenientes do China Investment Bank, que é o BNDES deles, e o New China Investment Bank, representam US$ 20 bilhões para financiar programas de desestatização em São Paulo.”

Em São Paulo, aliás, é grande a expectativa em relação à habilitação de novas unidades frigoríficas para exportar carnes para o gigante asiático. O secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, Gustavo Junqueira, avalia que cada vez mais o Brasil, assim como São Paulo, será sempre uma opção. No dia 12 de novembro, a China habilitou mais 13 frigoríficos brasileiros a exportar carne para lá, sendo dois em São Paulo. 

Junqueira informou que as empresas habilitadas dobraram a capacidade de produção para atender ao incremento de demanda externa. “Um deles, por exemplo, está abrindo uma nova planta no interior do Estado”, citou. Ele ponderou, entretanto, que é preciso que essas empresas “calibrem” o aumento da capacidade produtiva com a demanda chinesa. “De uma maneira ou de outra, a China voltará a produzir. O setor precisa sincronizar esse retorno de oferta doméstica com a demanda momentânea, para que não tenhamos uma superprodução de carnes em dois a três anos, que possa deprimir os preços”, avaliou o secretário.

Boa vontade

No setor de lácteos, o presidente da Viva Lácteos – entidade que reúne a indústria exportadora de laticínios do Brasil –, Marcelo Martins, ressaltou que as negociações do setor com a China mudaram muito no passado recente. “Há cinco anos havia uma dificuldade muito grande em relação aos requisitos sanitários. Mas, no último ano, talvez por uma mudança na questão geopolítica, a China quer expandir as parcerias”, disse. 

Em julho, o gigante asiático habilitou 24 indústrias de laticínios do Brasil a exportar para lá. “Como a China cresce 13% ao ano, nosso sentimento é o de que eles querem expandir o leque de parceiros comerciais.” Martins citou que 90% do que a China importa de lácteos vem da Nova Zelândia e entre 5% e 6% da Austrália. “São importações muito concentradas; uma situação de hegemonia. Por isso eles querem diversificar seus fornecedores”, acredita o representante da Viva Lácteos

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Peste suína na Ásia é ‘explosão de oportunidades’

Brasil, que vem batendo recordes de exportação de carnes para lá, tem a chance conquistar e fidelizar mais clientes

Isadora Duarte, Tânia Rabelo e Vinicius Galera, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 19h40

A epidemia da peste suína africana (PSA) na China, que vem dizimando os plantéis no país asiático, pode trazer oportunidades mais amplas ainda para o setor de carnes brasileiro, que vem batendo recordes de exportação de proteína animal este ano, avaliou o diretor da consultoria norte-americana de commodities agrícolas Hueber Report, Daniel Hueber. “A China tinha um dos maiores plantéis de suínos do mundo, com 440 milhões de animais. Esse é o rebanho que Brasil e Estados Unidos têm juntos. O efeito dessa crise no mercado de alimentos ainda será muito expressivo”, disse Hueber no Summit Agronegócio Brasil 2019.

Pouca informação

O consultor observou também que os chineses têm levado muito tempo para apresentar os reais prejuízos com a doença. “A grande questão é que ninguém sabe se será possível erradicar essa febre. É diferente de qualquer outra epidemia já vista”, destacou. Hueber mencionou a alta significativa nas exportações brasileiras de carnes para a China e enfatizou que o País pode se beneficiar ainda mais com o avanço da epidemia no Sudeste Asiático e no Leste Europeu. “É uma explosão de oportunidades para o Brasil.”

O diretor de Inteligência de Mercado da consultoria INTL FCStone, Renato Rasmussen, disse que, de fato, o setor pecuário deve aproveitar a janela de oportunidade que se abriu com a doença na China, que deve levar de sete a dez anos para recompor seu rebanho de suínos. “Estamos falando de uma queda de quase 40% no rebanho de suínos da China”, disse. Por isso, conforme Rasmussen, agora é hora de o pecuarista brasileiro investir mais em produtividade, tendo em vista, por exemplo, a forte valorização da arroba bovina este ano.

Ele avalia, ainda, que à medida que a escassez de proteína animal no país asiático se intensificar, a China deve flexibilizar regras de importação para conseguir atender à demanda de seu mais de 1 bilhão de habitantes. No caso de bovinos, por exemplo, o gigante asiático exige que a carne seja proveniente de animais com no máximo 30 meses. “Se faltarem alimentos lá e o mercado interno se inflacionar, é provável que ela flexibilize regras.” Ele citou, por exemplo, as recentes novas habilitações de unidades frigoríficas do Brasil para exportar para a China. “Inicialmente, os chineses tentaram conter a crise da peste suína africana com o escoamento dos estoques internos”, lembrou. “Agora, estão precisando importar para garantir o abastecimento.”

No longo prazo, o consultor também vê amplas oportunidades para o Brasil reforçar a parceria comercial com a China. Ele mencionou que o país asiático está mudando seu perfil de consumo de proteína animal – da tradicional carne suína para carnes bovina e de frango. “O Brasil deve aproveitar essa oportunidade, pois essa mudança de hábitos pode ser uma chance de conquista de mercado no longo prazo”, disse o consultor da FCSTone.

Ainda para Rasmussen, a situação da peste suína africana na China “traz riscos ao Brasil no curtíssimo prazo (no caso de o surto da doença se encerrar no país asiático e a China voltar a investir em rebanhos próprios)”. “Mas, quando olhamos no âmbito global, somos um dos únicos países que têm o potencial de fornecer alimentos para o mundo”, reforçou. Rasmussen alertou, porém, que mesmo com o cenário positivo o pecuarista deve analisar o cenário global, com guerra comercial entre Estados Unidos e China, alta expressiva do dólar, riscos de a peste suína chegar ao Brasil, entre outros. “E sempre fazer hedge em bolsas para proteger seus rendimentos.” 

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‘Mercado chinês é crucial para o Brasil’, diz Mesquita Neto

'A Ásia é o principal destino dos nossos grãos, especialmente por causa das compras da China', disse o presidente do Grupo Estado

Isadora Duarte, Tânia Rabelo e Vinicius Galera, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 19h59

O presidente do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto, ressaltou, em sua palestra de abertura do Summit Agronegócio Brasil 2019, a importância da China para o Brasil: “A Ásia é o principal destino dos nossos grãos, especialmente por causa das compras da China”, disse.

“Este é um dos motivos que mostram que o mercado chinês continuará sendo crucial para o Brasil.” Não deixou de lado, entretanto, a potência agrícola na qual o Brasil se transformou. “Em meio à atual crise econômica, o agronegócio nos oferece otimismo. Colhemos 242 milhões de toneladas de grãos na safra passada e a atual deve ser maior ainda, com 246 milhões de t, puxada pela soja, nosso principal produto de exportação.”

Ele advertiu, porém, que a manutenção desse sucesso dependerá de mais investimentos logísticos, “incluindo a infraestrutura de estradas, dos portos e de todos os itens que compõem o escoamento da produção”. Mencionou, ainda, a tecnologia. “Seja no investimento de drones e robôs, ou na conectividade, é necessário disponibilizar recursos para que todos tenham acesso à tecnologia.”

O presidente da Corteva Agriscience, Roberto Hun, também reforçou a importância do agronegócio brasileiro nos planos da multinacional. Ele informou que só no País foram investidos este ano US$ 90 milhões em projetos de expansão da companhia. “O Brasil é estratégico para nossos planos.” Globalmente, informou que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento alcançam US$ 1,2 bilhão, 100% focados no agronegócio. 

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Agro é sustentável, mas não comunica

Convencer consumidor de que o setor acata regras ambientais na produção é difícil

Isadora Duarte, Tânia Rabello e Vinicius Galera, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 19h35

Muito além dos gargalos logísticos ou da oscilação de preços de commodities agrícolas ou da guerra comercial entre Estados Unidos e China, um dos principais obstáculos enfrentados pelo agronegócio brasileiro atualmente é a dificuldade de se comunicar e de mostrar ao mundo que é sustentável. Essa limitação foi citada pelos debatedores do painel “Além de Pop, Tech e Sustentável”, durante o Summit Agronegócio Brasil 2019, promovido pelo Estado e patrocinado pela Corteva e Embratel.

Para a diretora comercial da consultoria Labhoro, Andrea Cordeiro, o setor tem, de fato, “dificuldade de comunicação”. “Temos um agro extremamente eficiente, focado em práticas de melhoria e tecnologia, mas há dificuldade de mostrar lá fora a sustentabilidade do nosso País”, disse. “O Brasil, internamente também, precisa despertar a consciência do valor do agro e mostrar o quanto estamos comprometidos com a sustentabilidade”, ressaltou ela, reconhecendo, porém, que não se trata de “tarefa muito fácil”. 

Passividade

A imagem negativa que o Brasil tem lá fora, para Andrea, também tem uma parcela de culpa do próprio setor agropecuário, que “foi muito passivo”. “Precisamos sair dessa inércia e fazer nossa parte, mostrar que o agronegócio brasileiro é pró-Brasil.” 

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), Arnelo Nedel, concordou com a consultora, acrescentando que a agricultura brasileira “nunca soube propagandear o que ela faz”. “Para nós, do setor de biológicos, é mais fácil a comunicação, porque estamos em evidência, mas também precisamos comunicar o alto nível de eficiência e tecnologia envolvido num defensivo biológico.” Para melhorar a comunicação do agronegócio com o consumidor final, o representante da ABCBio sugere que o consumidor visite as fazendas para conhecer o produtor rural. “Se não formos eficientes em comunicar o que fazemos, alguém vai fazer o dever de casa por nós.”

União

O membro do conselho da CropLife Brasil, Eduardo Leduc, justificou a nova entidade, fundada em outubro, por Bayer CropScience, FMC, Syngenta, Basf e Sumitomo Chemical, “justamente para unir o setor e melhorar a comunicação”. “Antes, cada pedaço falava de si e a comunicação não ficava eficiente”, disse. Ele lembrou que trabalha há mais de 30 anos no setor de defensivos agrícolas e garantiu que o segmento tem uma “contribuição enorme” para a sustentabilidade. “Vemos redução de 40% no impacto de coeficiente ambiental ao longo dos anos. E, com novas moléculas de defensivos recentemente aprovadas pelo Ministério da Agricultura, elas vão reduzir em mais de 50% esse impacto ambiental.” Mas reconheceu: “O setor tentou explicar sua sustentabilidade por meio da ciência e estudos, teses de doutorado, mas vimos que não é por aí. Está claro que a forma de falar hoje tem de ser diferente, disruptiva, devemos acessar mais gente e todos os dias”, disse, citando, neste contexto, as redes sociais.

O coordenador da cadeia de soja da TNC (The Nature Conservancy), Rodrigo Spuri, ressaltou que o Brasil é uma potência agrícola e ambiental, com dois grandes biomas: Amazônia e Cerrado. “Talvez, sob este aspecto, existam oportunidades de melhoria na comunicação. Mas é importante comunicar como produzir e preservar ao mesmo tempo”, disse. 

Fim da moratória

Algo que atualmente está sendo discutido pelo setor de soja e que poderia provocar ruídos na comunicação sobre sustentabilidade do agro brasileiro é a retirada da Moratória da Soja. Entidades de produtores têm reivindicado o fim da moratória – compromisso assumido pelas empresas exportadoras da oleaginosa, que vetam a compra do grão cultivado em áreas desmatadas na Amazônia. A possibilidade não foi bem vista pelos palestrantes do Summit. “Entendo que estrategicamente não é o momento correto, apesar de juridicamente ser possível. Com disputa comercial entre EUA e China, o Brasil está surfando numa onda muito importante como exportador mundial de soja, o que poderia ser afetado por essa estratégia”, avaliou Andrea Cordeiro, da Labhoro.

Na mesma linha, Leduc, da Croplife Brasil, disse considerar ser um momento “muito sensível” para o País rever essa medida. “O País tem muito mais a perder do que a ganhar com essa revisão nesse momento. A comunicação não alcançaria as questões emocionais e racionais que abrangem a medida. Podemos ter como resultado barreiras econômicas e políticas aos nossos produtos”, afirmou Leduc.

Spuri, da TNC, ressaltou que a Moratória da Soja não impediu a expansão da produção de grãos no bioma Amazônia. Segundo ele, nos 14 anos da moratória, a área passou de 1,5 milhão de hectares para cerca de 5 milhões de hectares no bioma.

 

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Gargalo logístico enfim começa a ser solucionado

Setores de portos e ferrovias estão otimistas com concessões e emprego de tecnologia que reduz custos

Isadora Duarte, Tânia Rabello e Vinicius Galera, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 20h04

A expectativa de representantes do setor de logística que participaram do painel “Gargalos logísticos que a tecnologia resolve”, no Summit Agronegócio Brasil 2019, é otimista quanto aos investimentos em ferrovias e portos que se anunciam, por meio de novas concessões para este e os próximos anos, e também o emprego cada vez maior de tecnologia, que otimiza operações e reduz custos.

De acordo com o diretor de Tecnologia da Rumo, Roberto Rubio Potzmann, “entre 2020 e 2021, a perspectiva é de um volume maior de produtos circulando em ferrovias”, disse. “Vamos aliar a maturidade tecnológica que conquistamos com investimentos em material rodante e principalmente aumento de capacidade”, continuou. “Temos perspectiva muito boa de que os investimentos comecem a florescer de maneira muito agressiva e, para os próximos cinco anos, os investimentos da Rumo, que tem boa parte de capital estrangeiro, ficarão na casa dos bilhões de reais.” Ele mencionou, porém, que ainda há gargalos a serem resolvidos, principalmente na legislação, “que não previa a tecnologia”. E citou como exemplo o fato de que hoje composições ferroviárias se movem sem a necessidade de maquinista. “E a legislação prevê maquinista”, diz.

O integrante do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados (ABTRA) e diretor da Rocha Terminais Portuários e Logística, Rivadavia Simão, acrescentou que 2020 “vai ser de muito trabalho”, mas haverá vários investimentos e arrendamentos. “Só em Paranaguá (porto do Paraná), devem ter quatro arrendamentos”, disse ele, citando, entretanto, que “na tecnologia o País terá de avançar bastante, e rápido, para acompanhar o que está vindo por aí”. Simão elogiou o novo governo, dizendo que “a receptividade é fantástica” às demandas do setor. 

Momento disruptivo

O otimismo do head de agronegócio da VLI Logística, Igor Figueiredo, baseia-se no emprego cada vez maior de tecnologia. “Vamos passar por um momento disruptivo, com aumento da capacidade de transporte. A tecnologia vai nos permitir avançar mais rápido, em ganho energético, segurança”, disse ele, acrescentando que o setor está num momento “muito positivo” em relação à infraestrutura.

Já o diretor da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Adalberto Tokarski, elogiou a eficiência tecnológica do Brasil sob alguns aspectos em portos. “No Brasil, a movimentação de contêineres não perde para nenhum outro país; temos eficiência tecnológica”, garantiu. “Acho que o Brasil agora está num caminho muito bom”.

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