Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Veia aberta

O despejo conjunto de recursos públicos nos Estados Unidos, apenas pelo Tesouro e pelo Federal Reserve (Fed, o banco central do país), é contado em trilhões de dólares. Mas o ralo inicial, o das hipotecas, continua sugando o patrimônio do americano médio. Apesar das inúmeras advertências e de algumas tentativas malsucedidas, não há nenhuma providência para fechá-lo.Apenas nesta crise, o Tesouro está gastando quase US$ 1 trilhão. Há os US$ 167 bilhões injetados em maio a título de devolução de impostos para estimular o consumo. E há os US$ 700 bilhões do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), que o secretário do Tesouro, Henry Paulson, conseguiu arrancar do Congresso em outubro para recomprar os ativos podres dos bancos. O Fed, por sua vez, injetou US$ 2 trilhões em empréstimos ou compra de ativos no sistema bancário e não bancário, operação que há alguns dias seu presidente, Ben Bernanke, se recusou a esmiuçar evocando razões de sigilo bancário. Enquanto isso, a veia por onde começou a sangria continua aberta. Os preços dos imóveis residenciais não param de cair e ninguém foi até agora capaz de imaginar uma solução para o problema (veja o gráfico).Os números apontam estoques de cerca de US$ 13 trilhões em empréstimos hipotecários no país. Não dá para atender aqueles que fizerem questão de precisão nesses números, pois uma das características desta crise é a formação dos chamados ativos podres, cujo valor real não é possível determinar.Uma peculiaridade das regras americanas para o setor só piora as coisas. Ao contrário do que ocorre no resto do mundo, se o mutuário devolve ao banco o imóvel coberto por garantia hipotecária, fica com sua dívida automaticamente quitada, não importando se o financiamento habitacional é maior do que o valor do imóvel.É uma cláusula que estimula devoluções. Ao banco emprestador não sobra opção senão executar a hipoteca e colocar a casa à venda. E tantos têm sido os imóveis nessa situação que os preços não param de cair. E isso aumenta a devolução dos imóveis. Parece incontestável que a virada do jogo depende da recuperação da confiança e que esta não acontecerá enquanto os preços dos imóveis não se estabilizarem. No entanto, apesar dos insistentes apelos de políticos e economistas de renome para que o governo americano faça alguma coisa para evitar que os mutuários devolvam seus imóveis, o mercado imobiliário continua em deterioração. O presidente eleito, Barack Obama, já se comprometeu a estudar um plano de ajuda. Mas, se é verdade que há pelo menos 1,5 milhão de americanos incapacitados de pagar suas prestações habitacionais, qualquer plano desses vai exigir mais um enorme volume de recursos públicos.Por enquanto, o resto do mundo está disposto a financiar o rombo orçamentário dos Estados Unidos por meio da compra de títulos do Tesouro. Prova disso é o fato de que a procura por eles não pára de aumentar. Mas, se continuar a atual escalada, poderá chegar o dia em que a qualidade do título americano será questionada e, aí, os resgates no furacão ficarão mais difíceis.

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