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Veias abertas

As condições patrimoniais e financeiras da Petrobrás têm tudo para continuar lamentáveis, contaminar o lucro líquido e lançar dúvidas sobre o futuro

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2015 | 21h00

O estado clínico da Petrobrás que será mostrado nesta quinta-feira no balanço do 2.º trimestre do ano só pode ser muito delicado.

Como já aconteceu por ocasião das demonstrações financeiras anteriores, o desempenho operacional deverá ter sido relativamente bom. Mas as condições patrimoniais e financeiras têm tudo para continuar lamentáveis, contaminar o lucro líquido e lançar dúvidas sobre o futuro.

De longe, o principal foco da doença está no tamanho da dívida, a maior ostentada por uma empresa no mundo. No 1.º trimestre de 2015, fechou em R$ 400,6 bilhões, o equivalente a 3,9 vezes a sua capacidade de geração de caixa (veja o gráfico abaixo). De lá para cá, avança para o meio trilhão de reais em consequência de dois fatores: mais levantamentos de empréstimos dentro e fora do País; e desvalorização do real em 3,3% só no 2.º trimestre.

Por enquanto, a Petrobrás não vem encontrando dificuldades incontornáveis para seguir rolando seu passivo, porque há muito dinheiro no mundo à procura de aplicações tão firmes quanto as feitas em petróleo, mesmo depois da derrubada dos preços. Os chineses veem no Brasil, e especialmente nos ativos de petróleo, oportunidade excepcional para sua estratégia de diversificação de fontes de suprimento de energia. E, mal ou bem, está em curso o processo de saneamento da empresa.

A única resposta que a diretoria apresentou para o controle da dívida que ronda o impagável é um alentado programa de desinvestimento. Um grande número de ativos, inclusive participações no filé mignon do pré-sal, está à venda. O diabo é que a maré não está para esse tipo de peixe. Os preços internacionais do petróleo seguem ladeira abaixo e as empresas que dispõem de recursos em caixa contam com enorme poder de barganha na catação das pechinchas em oferta.

Ainda que sujeita a novas e surpreendentes denúncias, a Operação Lava Jato parece ter estancado a roubalheira. O corte no patrimônio da Petrobrás de R$ 6,2 bilhões, correspondentes aos tais 3% de propina que prevaleceram nos últimos 10 anos, parece suficiente. O problema é o resto. O estrago produzido pelos desmandos administrativos foram incomensuravelmente maiores. Cada diretoria detinha autonomia para praticar as extravagâncias que bem quisesse. Cláusulas-chave de inúmeros contratos de fornecimento permaneceram em aberto para acertos posteriores, o que também não passava de expediente certo para práticas de maracutaia. Por aí se vê que não há diferença entre má gestão e corrupção propriamente dita. Uma vai abraçada à outra.

No último balanço, a Petrobrás extirpou nada menos que R$ 44,6 bilhões em ativos que excediam os valores de mercado. As refinarias Premium 1 e 2 (Maranhão e Ceará), onde foram despejados R$ 3 bilhões em terraplanagens e outros investimentos, estão “descontinuadas” e o projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, que consumira mais de R$ 21 bilhões, foi simplesmente abandonado.

É improvável que essa megacirurgia tenha sido completada. Há mais de cem grupos de trabalho e comissões de inquérito dentro da Petrobrás à cata de esquisitices administrativas. Todos os dias estão encontrando novas inconsistências (impairments) que mais dia menos dia terão de ser levadas a balanço.

Convém saber, também, qual é o tamanho do passivo tributário da Petrobrás (certamente superior a R$ 20 bilhões) e qual será o volume de multas a que a empresa está sujeita nos processos que correm nos Estados Unidos, provavelmente algo em torno dos US$ 4 bilhões. Para nada disso, entretanto, foram constituídas provisões.

A Petrobrás é, sim, maior que os rombos abertos em seus flancos e a evolução da produção, que vai no gráfico abaixo, é prova disso. Mas, até agora, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o governo mais atrapalharam do que ajudaram a tapá-los.


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