Veio para confundir

É duvidoso que Trump provoque uma grande onda protecionista global

Fernando Dantas *, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 05h00

O Brasil foi o segundo maior exportador de aço para os Estados Unidos em 2017, com 4,8 milhões de toneladas, um crescimento de 66% desde 2011. A informação consta de uma tabela do documento de 262 páginas do Departamento de Comércio dos Estados Unidos em que se baseou o presidente Donald Trump para declarar ontem que imporá tarifas de 25% para a importação de aço de todos os países produtores. O presidente americano incluiu também o alumínio na ofensiva, dizendo que o produto teria tarifa de 10%.

O “estudo” conclui que as importações de aço representam uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, o que soa extremamente forçado quando se sabe que o produto representa um setor cuja importância estratégica para o desenvolvimento econômico morreu no século XX. A alegação torna-se quase ridícula num país que, com empresas como Apple, Microsoft, Amazon, Google, IBM e Intel, e as melhores universidades e a tecnologia mais avançada do mundo, lidera a inovação no capitalismo global.

O setor siderúrgico brasileiro, claro, tem a perder se a tarifa de 25% vier realmente a ser imposta (uma exceção é a Gerdau, que produz nos Estados Unidos e pode até ser beneficiada). Aliás, um efeito colateral ruim da iniciativa de Trump é despertar os piores instintos protecionistas nas indústrias do aço em outros países. No Brasil, há pouco tempo o Ministério da Fazenda bloqueou na prática uma articulação para sobretaxar produtos siderúrgicos da China e da Rússia. Agora, nossos lobistas setoriais ganham mais “moral” para defender benesses desse tipo.

Uma questão importante é saber se Trump, com sua política econômica populista, pode causar um grande estrago global, como uma onda de protecionismo disseminando-se por vários países e um fechamento generalizado do comércio mundial.

O presidente americano faz questão de mostrar a cada momento que a sua ideologia de “America First” é, sim, protecionista e hostil ao arcabouço de tratados e instituições que regulam o comércio global. Assim, logo no início do seu mandato retirou os Estados Unidos com estardalhaço da Parceira Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), negociação comercial entre vários países da Ásia (sem a China) e das Américas com costa no Pacífico.

Trump também exigiu uma renegociação do Nafta, entre Estados Unidos, Canadá e México, e o seu governo está procrastinando o endosso a nomeações importantes na Organização Mundial de Comércio (OMC).

Entretanto, apesar de toda essa bem ensaiada hostilidade ao comércio global, é duvidoso que Trump consiga de fato provocar uma grande onda protecionista como a ocorrida entre as duas guerras mundiais do século passado.

Como observa o economista José Tavares, especialista em política comercial, a agenda do presidente americano é tão absurda e contrária aos interesses do seu próprio país que por vezes parece mais uma sucessão de bravatas para justificar o discurso de campanha.

“É meio como o muro na fronteira do México, sempre anunciado, mas que nunca sai do papel”, diz Tavares.

As movimentações internas do governo americano que culminaram no anúncio das tarifas ontem revelam um quadro caótico de assessores econômicos se engalfinhando, sem uma linha programática clara.

Evidentemente, as tarifas vão encarecer os produtos siderúrgicos e prejudicar diversos setores da economia americana, como automobilístico, de aviação, construção, energia, etc., que vão reagir contra a medida.

Tavares até duvida que as tarifas sejam efetivamente implantadas. Porém, ainda que algo nesse sentido seja feito, a retórica protecionista de Trump é tão contrária ao bom senso econômico e aos interesses mais gerais dos Estados Unidos que, por enquanto, parece provocar mais confusão do que ameaças efetivamente graves para a economia global, na visão do especialista.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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