White House via EFE
Donald Trump vai deixar a Casa Branca, mas os resquícios de sua administração vão permanecer. White House via EFE

Veja como ficam os entraves econômicos do governo Trump com a posse de Biden

Segundo especialistas, disputa econômica entre EUA e China certamente continuará, mas impactos no Brasil, que ainda sonha com a entrada na OCDE, são incertos

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

A saída, nesta quarta-feira, 20, de Donald Trump da presidência dos Estados Unidos, vai deixar algumas lacunas a serem preenchidas pelo governo de Joe Biden. Entre elas, está a guerra comercial travada com a China, que segundo especialistas consultados pelo Estadão, não deve sair de foco com a chegada do democrata. Também fica no radar o apoio prometido por Trump para ajudar o Brasil a entrar na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No entanto, se o governo Trump foi marcado pelos grandes escândalos políticos, os próximos quatros do democrata na presidência deverão ser bem menos barulhentos, mas com grandes disputas nos bastidores, segundo aponta Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da FGV. Veja mais logo abaixo:

OCDE: 'Existe o apoio verbal e o engajamento'

Em março de 2019, quando o presidente Jair Bolsonaro fez sua visita oficial aos EUA, ele anunciou que o Brasil abriria mão de vantagens que tinha na Organização Mundial do Comércio (OMC) e, em troca, receberia apoio americano para o País poder fazer parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

O professor Matias Spektor, da FGV, acha difícil que o governo Bolsonaro continue tendo apoio americano com a mudança na presidência. “Se havia alguma chance disso com Trump, agora não está mais na agenda. Não consigo imaginar nenhum líder entregando ao Brasil uma coisa dessas no governo Bolsonaro. A imagem do Bolsonaro no mundo é péssima e o Biden só vai fortalecer essa tendência.”

Na visão do advogado Welber Barral, secretário de Comércio Exterior do Brasil entre 2007 e 2011, porém, é difícil um país retirar o apoio depois que ele já foi dado publicamente. “Agora, existe apoios e apoios. Existe o apoio verbal e o engajamento. Isso dependerá do relacionamento bilateral com Brasil, que ainda precisa ser construído”, afirma.

Guerra comercial: Disputa ficará nos bastidores da diplomacia

A guerra comercial entre Estados Unidos e China, deflagrada por Donald Trump, não vai recuar, segundo analistas. A disputa geopolítica entre as potências deve continuar, mas de forma mais discreta, isto é, nos bastidores da diplomacia, e não no Twitter.

No governo Trump, principalmente em 2019, a guerra desencadeou uma desaceleração do comércio internacional global, prejudicando também o Brasil de modo geral. A produção agrícola brasileira, sobretudo a de soja, no entanto, se beneficiou quando China decidiu reduzir as compras dos EUA. Por enquanto, diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, não é possível cravar se algum segmento brasileiro vai ganhar com a nova fase da disputa. “Isso dependerá de acordos que China e EUA fizerem.” A tendência, acrescenta, é que a disputa se torne mais previsível.

Para Matias Spektor, o discurso de Biden sugere que os EUA tentarão usar a abertura comercial como arma. Isso só será possível, no entanto, se ele conseguir manter a maioria no Congresso daqui a dois anos, quando haverá eleições parlamentares. Como o país está polarizado, nada é garantido.

Tecnologia 5G: Regras ainda serão objeto de discussão

Donald Trump vinha pressionando o Brasil – e o mundo todo – para banir a empresa chinesa Huawei sob a alegação de que ela atua como braço de espionagem do Partido Comunista Chinês. Alinhado a Trump, o presidente Jair Bolsonaro trabalhava para que a Huawei ficasse de fora do leilão de 5G no País. Segundo apurou o Estadão, porém, hoje, a tendência é que Bolsonaro desista do banimento.

Analistas acreditam, no entanto, que o assunto não será encerrado facilmente. “Há regras que ainda serão objeto de discussão. O tema vai longe. Trump vinha fazendo muita pressão. A dúvida é: qual relevância Biden dará ao assunto?”, questiona Welber Barral.

Para Livio Ribeiro, economista do Ibre/FGV, o banimento da chinesa também dependerá da política externa brasileira. “(A chegada de Biden) exige um reposicionamento do Itamaraty para que o Brasil não fique isolado. A diplomacia vai continuar na linha que estava ou se moldará aos fatos?” Na América Latina, com exceção do México, os países têm liberado a atuação da Huawei.

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Política ambiental de Bolsonaro deve dificultar relação comercial de Brasil e EUA

Ainda na campanha, novo presidente dos EUA ameaçou Brasil por falta de medidas contra desmatamento na Amazônia; especialistas veem riscos para exportações aos EUA – 3º parceiro comercial do País, atrás de China e União Europeia

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

Após quatro anos de incerteza no comércio internacional causada pela tensão entre China e Estados Unidos, os exportadores brasileiros passam a ter outro motivo de apreensão a partir de hoje, com a chegada de Joe Biden à Casa Branca. A preocupação começa a ser, agora, com a política ambiental do governo Jair Bolsonaro, que já vem estremecendo as relações com a União Europeia

Antes mesmo de ser eleito, o então candidato democrata ameaçou o Brasil por causa da falta de medidas para frear o desmatamento da Amazônia. “Se não parar (o desmatamento), vai enfrentar consequências econômicas significativas”, disse.

Biden não especificou se poderia haver sanções comerciais, mas, segundo Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), é possível vislumbrar um cenário negativo para os exportadores brasileiros. “A péssima reputação do governo Bolsonaro no quesito ambiental já abriu espaço para que protecionistas no exterior fechem seus mercados para produtos brasileiros. O acordo de livre-comércio com a União Europeia está congelado. Houve países como Irlanda que ameaçaram punir as exportações brasileiras. Não é inconcebível que interesses protecionistas nos EUA aproveitem a reputação do Brasil nesse quesito, durante o governo Biden, para tentar bloquear o acesso brasileiro ao mercado americano.”

Spektor destaca que possíveis bloqueios dependerão também da situação dos EUA e poderão mudar de segmento para segmento. Restrições à importação de laranja, por exemplo, costumam ser improváveis quando ocorrem geadas na Flórida, prejudicando a produção local. 

O advogado Welber Barral, secretário de Comércio Exterior entre 2007 e 2011, destaca que as relações comerciais foram estáveis nos últimos anos e vê na política ambiental brasileira o único ponto com potencial para alterar essa tendência. “Nos últimos dez anos, não houve grande alteração no fluxo entre os países, que diminui quando tem crise, mas depois melhora. O que pode mudar isso é alguma orientação de Biden em relação às exigências ambientais.” Segundo ele, a administração Biden poderia seguir o exemplo da União Europeia, onde está em consulta pública a possibilidade de se introduzir sanções a mercadorias cuja produção tenha causado desmatamento.

O economista Livio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, diz, porém, que o maior risco estaria nos fluxos de investimento direto e financeiro. “O País poderia ser enquadrado por não ter boas práticas ESG (sigla em inglês para aspectos ambiental, social e governança), e isso ser um limitador de investimento, como já vimos fundos europeus fazerem.”

As dificuldades decorrentes da política ambiental são uma das poucas questões que os especialistas já veem como definidas. Em outras áreas, ainda será preciso aguardar maiores sinalizações (leia mais abaixo). Por enquanto, ainda não está definido nem quem será responsável por comandar a implementação do acordo de facilitação de comércio, assinado em setembro, e que em tese poderia reduzir a burocracia nas exportações. A intenção é que o documento seja também a base para um acordo comercial mais amplo. 

Para Barral, não é possível prever se Biden vai dar continuidade ao projeto. O economista-chefe do banco MUFG Brasil, Carlos Pedroso, afirma, porém, acreditar que o presidente eleito será pragmático. “Vejo os EUA mantendo os acordos. A relação entre os países tende a ser amigável, porque o Brasil também tem uma importância geopolítica na região.”

A concretização de um acordo comercial entre os países seria, segundo Barral, a única forma de alavancar as exportações brasileiras para os EUA. “Quando o consumo aumenta lá, o Brasil não tem competitividade para aumentar sua parte.” 

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Análise: O fator Biden

Relações entre EUA e Brasil, em algumas áreas, tenderão a ser tensas e conflituosas

Rubens Barbosa*, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

A eleição de Joe Biden deverá ter profundo impacto na economia internacional, no comércio exterior e no relacionamento econômico com o Brasil.

A recuperação da economia dos EUA deverá favorecer um crescimento mais rápido da economia global que sairá da recessão (- 4,3%) para expansão (4%) em 2021.

O mesmo ocorre com o comércio internacional que, depois de uma queda de 10%, deverá avançar 8%. Os EUA voltarão a dar prioridade aos organismos multilaterais, com o retorno à Organização Mundial de Saúde, o fortalecimento da OMC e adesão ao Acordo de Paris.

O anúncio de política industrial nacionalista (buy American) para favorecer o emprego poderá acarretar medidas protecionistas. As crescentes tensões geopolíticas entre os EUA e a China deverão continuar, sem a imposição de sanções, e com a busca de um modus vivendi entre as duas superpotências.

O comércio bilateral não será prejudicado, pois Biden será pragmático nas matérias de interesse econômico e comercial para os EUA. O intercâmbio bilateral deverá expandir-se, depois de sucessivas quedas (23% em 2020). As relações entre os dois países em outras áreas, como meio ambiente e mudança de clima, direitos humanos e democracia tenderão a ser tensas e conflituosas, em vista das novas prioridades de Washington. Dependendo da reação do governo Bolsonaro, em especial no tocante à preservação da Floresta Amazônica, o Brasil poderá confrontar-se com “consequências econômicas significativas”. É improvável que Biden retire o apoio ao Brasil para ingresso na OCDE. O alinhamento com os EUA tornou-se automático nas votações em organismos multilaterais (OMC, ONU, OMS). Em muitos casos, o Brasil ficou isolado com EUA e Israel e países ultraconservadores. Com a mudança na política e da agenda de Washington nessas instituições, o Brasil tenderá a ficar ainda mais isolado, sem a companhia dos EUA. 

A importância do mercado chinês para as exportações brasileiras e a crescente presença da China na América do Sul poderão trazer novas fricções, caso Washington defina uma política para o hemisfério. O Brasil se colocou na incômoda posição de ficar entre EUA e China. Quanto à questão do 5G, com Biden, será mais fácil o Brasil decidir segundo os interesses nacionais e não por ideologia ou geopolítica.

*EMBAIXADOR, É PRESIDENTE DO IRICE

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Análise: Impacto econômico do governo Biden no Brasil

O descabido alinhamento com Donald Trump poderá trazer desalinhamentos com Biden

Sergio Amaral*, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

Brasil e Estados Unidos são países amigos desde a nossa independência. Joe Biden conhece e gosta do Brasil. 

Gregory Meeks, o novo presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, foi até recentemente um ativo copresidente do Caucus Brasil. A Câmara de Comércio Americana (Amcham) reúne cerca de 5.000 associados, número que, por si só, ilustra a força das parcerias empresariais entre os dois países. 

Uma das mudanças da diplomacia do presidente eleito Joe Biden poderá nos favorecer. Em relação à China, diz o presidente democrata, em vez das sanções de Donald Trump, a restauração de alianças tradicionais de Washington, especialmente com Bruxelas, para pressionar Pequim

A possível distensão no conflito sino-americano deverá reduzir as pressões das superpotências sobre terceiros países, como o Brasil, como no caso da Huawei. A suspensão dessas ameaças, aliás, foi preconizada por destacadas lideranças militares norte-americanas, em artigo recente, na revista Foreign Affairs

Do outro lado, no entanto, o descabido alinhamento com Donald Trump, poderá trazer desalinhamentos com Biden. 

A centralidade da aliança transatlântica fortalecerá as pressões de grupos ambientalistas, de ambos os lados do Atlântico, sobre parlamentares e opinião pública, consumidores e investidores, para a adoção de sanções econômicas contra o Brasil, no caso de o governo não adotar medidas concretas e quantificáveis no combate ao desmatamento na Amazônia. É bom lembrar que a Europa é o segundo importador de produtos brasileiros. 

O ambientalismo mais do que uma decisão de governos, por vezes desinformados, é um compromisso da sociedade, sobretudo dos mais jovens, que veem na proteção da natureza e no combate à mudança do clima a utopia do século 21. 

*EMBAIXADOR, É CONSELHEIRO DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS (CEBRI)

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