Veja todos os pontos do depoimento de Denise Abreu

Acabou por volta das 20 horas, depois de mais de oito horas ininterruptas, o depoimento à Comissão de Infra-Estrutura do Senado da ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu. "Tudo o que eu disse na imprensa e disse aqui é a verdade e isso será mantido até o final", declarou, ao encerrar sua participação em audiência pública.   Ela compareceu nesta quarta-feira, 11, de audiência na Comissão de Infra-Estrutura do Senado para falar sobre as denúncias de que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, favoreceu o fundo americano Matlin Patterson e seus sócios brasileiros na venda da Varig, feitas em entrevista exclusiva ao Estado, em 4 de junho (leia aqui).   Durante todo o depoimento, Denise negou que tenha havido ordens expressivas de Dilma para agilizar o processo de venda, mas ressaltou a pressão sofrida pela Anac por parte do governo e do escritório de advocacia de Roberto Teixeira, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.   Além disso, ressaltou a velocidade recorde com que a certificação da nova Varig foi expedida - em quatro meses e meio, metade do tempo que levou a Gol. Denise falou também sobre a venda da empresa à holding da Gol, menos de três meses após a primeira operação. "Nós dizíamos: 'tudo isso deve ter sido orquestrado de forma que ela pudesse ser vendida depois, por um preço maior'. Em menos de três meses, a empresa foi repassada à holding da Gol", disse.   Apesar da insistência de alguns senadores para que apresentasse os documentos que poderiam comprovar a ocorrência de pressão da Casa Civil para a venda da Varig, Denise não mostrou nada. A base do governo, que também tinha preparado uma coleção de documentos para rebater as afirmações de Denise, também não apresentou nada.   Veja abaixo os principais pontos do depoimento de Denise Abreu à Comissão:   Pressão   A ex-diretora da Anac afirmou que Dilma nunca deu ordens expressas para que ela agisse de determinadas formas em qualquer caso envolvendo o setor aéreo. Mas ela ressaltou que Dilma a contestou de forma incisiva sobre as exigências feitas para a comprovação do capital estrangeiro na Volo, à época da negociação para a compra da VarigLog. "Fui indagada expressamente por cobrar exigências que, segundo a ministra, não estavam expressas em lei", disse.   Certificação   "Essa empresa [nova Varig] recebeu toda a certificação em quatro meses e meio. O mínimo no País havia sido de nove meses, para a Gol. Nos Estados Unidos esse tempo é de um ano e 50% das empresas não recebe a certificação", afirmou. Denise citou a pressão exercida pelo governo sobre a área de segurança da agência reguladora para que toda a documentação fosse agilizada, "como se a Anac não tivesse mais nada para fazer". Segundo ela, essa aceleração induzida do processo ocorreu em meio ao caos aéreo que tomava o País.   Roberto Teixeira   Para Denise, o escritório Teixeira Martins, do advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atuou dentro da Anac de forma "imoral" no processo envolvendo a venda da Varig. "Sem dúvida, as ingerências praticadas e a forma truculenta como o escritório Teixeira Martins agiu dentro da Anac são ações inequivocamente, no mínimo, imorais e podem gerar alguma ilegalidade".   A ex-diretora da Anac disse ainda que teria recebido pressões da filha do advogado, Valeska Teixeira, contra as medidas que estava propondo quanto ao exame da capacidade econômico-financeira dos compradores. Valeska teria se apresentado a Denise Abreu como "afilhada" do presidente Lula. "Disse que isso era muito bom para a vida pessoal dela, mas que isso não iria mudar em nada a decisão que havia sido encaminhada pelo ofício", afirmou.   Gol   "Encerrado o processo [após assinatura do contrato de concessão, em dezembro de 2006], a nova Varig vai decolar." A ex-diretora da Anac relatou, porém, que ela e Joseph Barat, também ex-diretor da agência, especulavam que a empresa não iria voar. "Nós dizíamos: 'tudo isso deve ter sido orquestrado de forma que ela pudesse ser vendida depois, por um preço maior'. Em menos de três meses, a empresa foi repassada à holding da Gol", disse.   Denise ressaltou o fato de a empresa ter sido comprada por R$ 24 milhões em 2006 e revendida, "do mesmo tamanho, com 15 aeronaves", à Gol por R$ 350 milhões. Ela afirmou ainda que a agência não soube, em nenhum momento, durante o processo de certificação da nova Varig, adquirida então pela VarigLog, que imediatamente ao final desse processo ela seria revendida à Gol Transportes Aéreos.   Renúncia   A ex-diretora disse que o governo arquitetou a renúncia de todos os diretores da Anac. "Demorei a compreender as razões do governo [para arquitetar as renúncias]", disse. Segundo Denise, primeiro falou-se em uma trama da Aeronáutica, depois de que se tratava de um pedido do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Segundo ela, no entanto, era apenas mais uma desculpa para todo o "massacre" e era óbvio que existiam outros interesses por trás.   Caos aéreo   Denise afirmou também que foi transformada em bode expiatório da crise ocorrida no setor aéreo brasileiro, embora tenha ficado no órgão apenas um ano e cinco meses, tempo reduzido para o equacionamento dos problemas enfrentados na área.   A ex-diretora ligou o início do caos aéreo no País com o processo de venda da Varig. Denise afirmou que, a princípio, a Casa Civil pediu à Anac que preparasse um plano de contingência para evitar que os passageiros fossem prejudicados pela falência da Varig. Pouco tempo depois, porém, eles teriam recebido uma nova orientação. Segundo Denise, o governo decidiu transformar o plano em um plano emergencial.   "Praticamente um novo nome para o mesmo plano. O que de fato ocorreu foi que nós fomos chamados para dizer que a Varig não ia quebrar. Deveríamos colaborar com o juiz para fazer com que ela não quebrasse", disse.   Denúncias   Denise Abreu afirmou que "gestou por nove meses" a decisão de falar. Um dos motivos, como disse, foi a necessidade de prestar satisfação a membros de sua família. Ela disse que o dossiê com supostas informações de operações bancárias dela no exterior era claramente falso e tinha por objetivo "fazer pressão psicológica" com o intuito de mantê-la calada.   E-mail de Zuanazzi   O ex-presidente da Anac, Milton Zuanazzi, afirmou que o e-mail de sua autoria destinado à ministra Dilma foi "adulterado". Ele afirmou que "nos termos em que foi divulgado" o "documento não existe". Denise, contudo, confirmou que ouviu de Zuanazzi a existência de um texto, "um desabafo". Segundo ela, ao ver que o documento estava na Intranet da Anac, levou o e-mail ao presidente, que afirmou ter digitado um texto em seu laptop. "Ele disse que o laptop tinha dado problema e que foi levado para a informática", afirmou Denise, acrescentando que por essa razão, acreditava ele, o texto teria vazado.   Veja também: Dilma nunca deu ordens expressas, mas fez pressão, diz Denise Para Virgílio, venda da Varig pode levar a nova CPI Senadores batem boca sobre 'perdão' da dívida da Varig Denise diz que dossiê pretendia pressioná-la psicologicamente Denise destaca rapidez incomum na certificação da nova Varig 'Governo arquitetou a saída dos diretores da Anac', diz Denise Turbulências da Varig 

12 de junho de 2008 | 09h09

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