'Vejo problemas de curto prazo para a economia brasileira'

Na avaliação de McCaughan, economia brasileira tem desafios, mas é atrativa no longo prazo

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h03

O CEO da Principal Global Investors, Jim McCaughan, enxerga uma série de desafios no curto prazo para a economia brasileira, mas se mostra confiante com o desempenho de longo prazo do País. "Nós vemos o Brasil como um local interessante para se investir", disse ele em entrevista ao Estado durante a sua passagem pelo País. A Principal tem sob gestão US$ 517,9 bilhões de ativos. Em 2012, adquiriu 60% da brasileira Claritas, que administra R$ 3,2 bilhões. A seguir os principais trechos da entrevista.

Como o sr. analisa o cenário global?

O mercado global vai depender da economia dos Estados Unidos. Essa é uma base fundamental. Você encontra pessoas que dizem que a economia vai ser guiada apenas pela política monetária dos EUA, mas não é isso. Eu vejo três pontos: menor custo da energia, a expansão do mercado de imóveis e inovação e tecnologia. Os fundamentos que guiam a economia dos Estados Unidos estão forte. Claramente o crescimento nos últimos dois ou três anos e no início deste ano foi menor do que as pessoas esperavam. Em 2014, acho que vamos ver os Estados Unidos crescerem a 2,5%. Mas o ponto-chave é que os EUA são capazes de manter um crescimento similar pelos próximos dois anos.

E para as demais economias do mundo: qual é a perspectiva?

O cenário dos Estados Unidos contrasta com as demais economias, sobretudo quando nós vemos uma crise na Europa, que está próxima da recessão, e as sanções da Rússia, agravadas pelo confronto com a Ucrânia. Há uma situação muito difícil também para os bancos europeu. No mercado emergente, o crescimento também deve diminuir, o que afeta o Brasil particularmente.

Diante desse cenário, quando o sr.magina que Fed vai iniciar o aumento da taxa de juros?

Eu acho que o primeiro aumento da taxa de juros a ser promovido pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) deve ocorrer no segundo trimestre do próximo ano. Pelas declarações do Fed, é possível compreender que a primeira elevação nas taxas de juros deve ocorrer por volta de abril, mas depende do mercado de trabalho. De toda forma, eu não acredito que o aumento dos juros vai desestabilizar o mercado norte-americano.

O sr. está confiante com a economia brasileira?

Eu vejo dois problemas de curto prazo para a economia brasileira. O primeiro é a queda dos preços das commodities. O Brasil obteve sucesso com a venda e produção de commodities, mas o atual excesso de ofertas dos produtos básicos reduziu os preços, o que é negativo para a economia brasileira. Em segundo, eu não vejo no mercado de crédito um grande motor da economia nos próximos anos como foi no passado.

E no longo prazo?

Nós vemos o Brasil como um local interessante para se investir. A economia do País é diversificada, não dependente só de commodities. Existe uma diversidade energética e uma parcela da força de trabalho educada, o que traz essa diversidade para o País. Esses fatores, aliado ao crescimento da classe média, nos faz ver o Brasil como um grande mercado nos próximos cinco anos ou dez anos. No curto prazo há problemas, mas no longo prazo é positivo. Para o nosso negócio, estamos muito confiantes no Brasil por essas questões.

É possível que esses problemas no curto prazo afete essa expectativa de melhora futura?

Nós somos atraídos pelo Brasil porque os fundamentos de longo prazo não mudaram.

Os investidores estrangeiros parecem estar mais otimistas do que os investidores nacionais. Por que isso está ocorrendo?

Parte dessa opinião pode ser explicada pela crise de 2008/2009. Foi uma crise da economias desenvolvidas. E o Brasil ficou relativamente isolado por causa dos fundamentos que guiavam o crescimento do País naquela época. O que está ocorrendo agora é que o ciclo está bastante positivo para os Estados Unidos or. Mas, as razões que eu mencionei (queda dos preços das commodities e crédito) deixaram o Brasil num cenário negativo. E os investidores locais se preocupam muito com a política. Eu acho que os investidores internacionais reconhecem que independentemente de quem formar o novo governo - depois da eleição de outubro - haverá uma tentativa de fazer com que a economia brasileira volte a crescer. O investidor local parece se preocupar com a política e o investidor internacional supera isso e mira o longo prazo. É dessa forma que eu explicaria.

Além do Brasil, quais os outros países da América Latina chamam a atenção do sr.?

No curto prazo, temos o México. A economia mexicana é mais amigável ao mercado por causa das políticas governamentais e tem uma grande vantagem por causa da proximidade com os Estados Unidos. No longo prazo e pelas questões demográficas, nós identificamos o Chile como um mercado potencial. Similar ao Brasil, o Chile tem desafios no longo prazo, mas a economia exibe muita força no longo prazo.

O sr. mencionou a queda nos preços das commodities. Como o sr. avalia a economia chinesa?

Está ocorrendo um grande rebalanceamento na economia chinesa. A economia está sendo rebalanceada para o setor doméstico e para o setor de serviços. E isso leva tempo. A economia chinesa tem muito potencial. Como o Brasil, a China mostra um crescimento da classe média e as novas liderança dos país fizeram alterações positivas no combate à corrupção e na tentativa de deixar o mercado mais justo. Isso é positivo.

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