Daniel Teixeira/Estadão
Ana Paula Vescovi vê melhora nas projeções como 'janela para normalizar a política monetária'. Daniel Teixeira/Estadão

'Vejo razões positivas com o curto prazo', diz economista-chefe do Santander

Ana Paula Vescovi diz que percepção favorável é fruto da alta dos preços das commodities, mas alerta para risco de cenário acabar estimulando o aumento descontrolado dos gastos públicos

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Ex-secretária do Tesouro Nacional e atual  economista-chefe do banco Santander, Ana Paula Vescovi, diz que o cenário da economia brasileira é de melhora no curto prazo, mas de cautela no médio prazo. Ela alerta que a percepção positiva, que é fruto de um ciclo temporário de alta dos preços de commodities (produtos básicos, como alimentos e minério de ferro), pode ensejar uma visão de mais sobra para gastos do que o País tem. O risco é o caixa mais cheio do governo federal, Estados e municípios se transformar em despesas permanentes logo adiante. 

Abaixo, trechos da entrevista:

O Santander fez uma ampla revisão dos seus cenários econômicos com a mensagem “melhora no curto prazo, cautela no médio prazo”. Há muito otimismo do mercado em relação à recuperação econômica?

Vejo razões mais positivas com o curto prazo porque tivemos uma melhoria, estamos vendo a vacinação avançar e temos uma certeza maior de que estamos num processo gradual da fase mais crítica da pandemia. Enxergamos a possibilidade de o Brasil chegar até o final do ano com população adulta toda vacinada. Isso tem muitas implicações positivas como uma abertura gradual do setor de serviços e menos paradas. Temos razões para ter um horizonte mais favorável. O contraponto é que ainda precisamos observar melhor como vai ser essa saída da pandemia. Vamos ter o processo de normalização dos estímulos que foram colocados na pandemia não só no Brasil como em todo o planeta. Temos os dois lados da moeda. Por isso, olhamos com otimismo moderado e cautela.

O que será chave a partir de agora?

Eu colocaria como ponto principal como vai se comportar esse ciclo de commodities, que é um dos elementos que ensejou esse otimismo recente. Nós vemos aqui ciclo de média duração por conta desses estímulos imensos que foram colocados pelas economias avançadas. Além disso, tivemos uma mudança na cesta de consumo das famílias e alguma quebra em cadeias produtivas globais. O ciclo de commodities trouxe vantagens em termos de troca para o Brasil, mas trouxe um surto inflacionário importante. Como vemos esse processo se acomodando nos próximos dois anos, a oferta vai começar a se acomodar melhor. Os preços serão normalizados

A inflação é um risco ainda pelo problema climático e alta de energia?

A inflação merece toda a atenção do Banco Central. Os comunicados recentes do BC estão colocando um tom bastante adequado. Eles também estão cautelosos no cenário de saída da pandemia porque ao recuperar o setor de serviço, que é uma boa notícia, também pode haver transmissão de choque que vieram do setor de alimentos e industrial para esse setor de serviços. Por isso que o BC sinaliza uma aceleração do passo (de alta dos juros) para simultaneamente ter a política monetária conseguindo prevenir os efeitos dos choques.

E o efeito dessa recuperação na arrecadação?

É importante a gente ver que parte do processo de crescimento das receitas estaduais, municipais e federal vem desse surto inflacionário também. E estamos bem firmes em acreditar que o BC vai ser bem sucedido na convergência da inflação para o centro meta e isso vai demandar uma desinflação dos preços no atacado. Ocorrendo isso, vamos ter uma acomodação dos ganhos de arrecadação que são percebidos nos governos. Boa parte das despesas de saúde e educação está vinculada às receitas mais despesas também.

Haverá uma pressão por gastos adicional com o caixa robusto dos governos?

Sim, tem uma pressão por gasto. Boa parte podem ser gastos permanentes. Também no caso da União o espaço do teto de gastos (regra que impede que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) é vinculado ao IPCA (índice oficial de inflação) que será mais forte esse ano abrindo mais espaço para despesas. Percebemos que a economia vai sair da pandemia mais desigual e tem uma preocupação fidedigna em chegar aos informais que vão precisar de mais tempo para recuperar as suas posições no mercado.

Entre essas pressões, está a de reajuste dos servidores que estão com salários congelados?

Já começamos a ver reivindicações sobre reposição inflacionária. Afinal, são dois anos que o Brasil tem uma inflação acumulada de 10%. Parte desse ganho de arrecadação pode ir para despesas permanentes. Temos a contenção de teto, é muito importante, mas esses ganhos de arrecadação, se acreditarmos que pode haver uma percepção de que são permanentes e não é fruto de um ciclo temporário de commodities, pode ensejar uma percepção de mais sobra de gasto do que efetivamente a gente tem. Se tivermos certos no nosso cenário sobre o ciclo de commodities, a nossa pesquisa foi muito cuidadosa, de que haverá normalização de preços até 2023, provavelmente vamos falar de algum retorno desse bônus que tivemos agora.

Onde tem exagero no otimismo com a recuperação?

Eu não sei se é exagero, mas acho que o cenário fiscal é muito sensível às condições financeiras. É fundamental a questão do ciclo de commodities. Se a maioria dos analistas avalia que estão num superciclo de commodities, vamos estar com um cenário diferente. Estamos agora num choque cíclico para depois se acomodar e voltar a tendência de longo prazo. O mundo vai ter que fazer a normalização dos estímulos colocados na pandemia. As economias emergentes já estão se adaptando. Os Estados Unidos já estão sinalizando que no final deste ano e início do ano que vem no máximo vão começar a tirar parte dos estímulos e 2023 devem voltar a subir a taxa de juros.

O que isso significa para o Brasil?

Essa é janela de oportunidade que temos para normalizar a nossa política monetária (aumentar os juros) e fazer as reformas.

A previsão da dívida pública pública para 2021 caiu para 82% do PIB. O mercado falava em dívida em 100%, o que aconteceu?

Nós mesmos falávamos que a dívida chegaria a um pico de 100%, agora caiu para abaixo de 95%, mas ainda terá uma fase de elevação da dívida enquanto a gente não conseguir fazer superávits primários (arrecadar com impostos mais do que gasta com as despesas do governo) capazes de estabilizar o patamar da dívida. A dívida bruta tem influência de outros aspectos, como as devoluções de empréstimos do BNDES. Isso tudo ajuda a manter a dívida bruta, mas está acabando. Enquanto vamos reduzindo gradualmente reduzindo o déficit primário, ao mesmo tempo, vamos aumentando as contas de juros sobre 2023. E vai ter o momento mais sensível em 2023, quando o BC dos Estados Unidos começar a subir juros. É muito importante chegar lá com o choque inflacionário resolvido e a inflação convergindo para o centro da meta.

No caminho dessa trajetória positiva, quais são os maiores riscos?

Não sabemos como a economia vai se comportar se as medicações dos estímulos dados na pandemia, aos anestésicos. Precisamos observar como o mercado de trabalho vai responder. É importante deixar claro que essa notícia favorável no curto prazo de ganhos de termo de trocas para o Brasil não encandeia efeitos automáticos para o mercado de trabalho. O que vai recuperar o mercado de trabalho é a reabertura do setor de serviços. É importante observar o processo de abertura.  Essa recuperação mais rápida da economia vis a vis as expectativas anteriores ajuda a acelerar a melhora do mercado de trabalho, mas a cautela é importante porque há uma acomodação de todo esse processo nos próximos dois anos.

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Bancos melhoram previsões para a economia brasileira com aumento da vacinação

Mercado vê avanço maior do PIB e melhora nas contas do governo; no entanto, relatórios ainda destacam ‘cautela’ com indicadores no médio prazo, como a evolução da inflação e da dívida pública

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Na esteira do aumento da vacinação, os bancos têm melhorado suas previsões para a economia brasileira. Mas a cautela nas explicações permanece, diante dos riscos que ainda rondam o País na porta de saída da crise da pandemia, como a inflação mais alta.

Em relatório com a mensagem “melhora no curto prazo e cautela no médio prazo”, o Santander subiu de 3,6% para 5,1% a previsão para o PIB no ano, citando os efeitos positivos da alta de preços das commodities e as expectativas mais favoráveis para reabertura da economia no segundo semestre com a vacinação. Para 2022, a previsão aumentou de 1,5% para 2%.

“Mais do que se afiançar em ganhos de curto prazo, importante entender que a pandemia trouxe choques sobre o ambiente econômico que tendem a se dissipar”, alerta no relatório a economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi.

Entre esses choques, ela cita aqueles provocados pela forte alta das commodities, a ruptura de cadeias produtivas pela pandemia, as mudanças no padrão de consumo e o efeito da inflação que ajudou a aumentar a arrecadação.

Com a alta mais persistente da inflação, o Santander também “melhorou” as projeções fiscais. No texto do relatório, o banco colocou aspas na palavra melhoria justamente para sinalizar que esse efeito positivo tem como contraponto a pressão por mais gastos.

A projeção de déficit primário das contas do governo para 2021 caiu de 3% para 1,9% do PIB. A estimativa de dívida bruta também acompanhou o movimento, com queda de 85% para 82,2% em 2021, chegando a 93,7% em 2027 – em vez dos cerca de 105% considerados em 2019, no pior momento para as projeções das contas públicas.

“Se, de um lado, saímos do risco latente de trajetória explosiva da dívida, de outro ainda não asseguramos uma consolidação fiscal segura, mas ganhamos mais tempo para alcançá-la”, diz o relatório, chamando atenção para o fato de que permanecem os riscos de alta para a trajetória da dívida pública no médio e no longo prazos. A arrecadação mais alta traz o risco de aumento dos gastos por governadores e prefeitos e o governo federal.

O Bradesco também divulgou novas projeções, destacando que o Banco Central está mais preocupado com a inflação. O banco diz que os dados seguem registrando recuperação da atividade econômica, em especial com o avanço do consumo, tanto de bens quanto de serviços. A projeção para o crescimento de 2021 subiu de 4,8% para 5,2% , ligeiramente acima da estimativa do Santander. 

A indústria ainda encontra restrições por falta de insumos e pode limitar um avanço mais forte da atividade econômica, já que a recomposição de estoques pode ser mais longa. “Alguma cautela ao cenário de reabertura ampla e rápida da economia, mas, por ora, não há indicativo de que as vacinas não sejam eficazes”, diz o relatório do Bradesco. Os resultados de atividade durante a segunda onda da pandemia no País já mostraram que houve adaptação às medidas de restrição, o que tende a limitar os efeitos econômicos em caso de elevação do número de casos por conta de novas variantes. Por outro lado, o risco hídrico segue no radar. Não é majoritária a probabilidade de racionamento de energia, mas há necessidade de manutenção de usinas térmicas ligadas, destaca.

A XP Investimentos tem estimativas próximas para a alta do PIB brasileiro: 5,2% em 2021 e 2,0% em 2022. A estimativa para o IPCA é de 6,4% em 2021 e para a dívida pública, de 82,2%, em linha com Santander e Bradesco. Na última pesquisa Focus do BC (com uma centena de instituições financeiras), a expectativa para a economia ainda está mais baixa, em 5,05%. Há quatro semanas, a estimativa era de 3,96%.

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