Vem aí o Pix: entenda como vai funcionar
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Vem aí o Pix: entenda como vai funcionar

Num mundo marcado pela digitalização, não faz sentido que ainda se tenha de esperar horas ou até mesmo um dia para completar uma transferência bancária

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2020 | 18h42

Vem aí o Pix e, com ele, uma revolução nos pagamentos e transferências de recursos em dinheiro. O início da era de pagamentos instantâneos ficou agendado pelo Banco Central para 16 de novembro.

Não faz mesmo sentido que, a esta altura da vida, num mundo marcado pela digitalização, você ainda tenha de esperar horas ou até mesmo um dia inteiro para completar uma transferência via TED, DOC ou boleto bancário. Se for por meio de cheque, então, pode ser até mais de dois dias úteis para que seja completada a compensação bancária. Uma operação via Pix acontecerá exclusivamente por meio de um smartphone e uma conexão de internet. Será inteiramente digitalizada e exigirá o uso de um aplicativo a ser fornecido por uma instituição financeira ou instituição de pagamento, de livre escolha do interessado.

Será completada instantaneamente (em menos de dez segundos) e poderá ser acionada 24 horas por dia, sete dias por semana, inclusive nos feriados. Seu uso será gratuito para pessoa física, não importando a instituição financeira escolhida nem a magnitude da importância transferida. Vai, por exemplo, que você rachou uma pizza com um amigo num sábado à noite. Ele poderá pagar sua parte, a você ou à pizzaria, na mesma hora, sem ter de esperar pela segunda-feira seguinte para que a operação seja completada.

O Brasil não está inventando nada. Soluções equivalentes já funcionam em outros países, como Índia e Reino Unido. No Pix, cada usuário deverá registrar um apelido digital em uma instituição financeira, que pode ser o número do celular, o endereço de e-mail ou o número do CPF. Não há risco de que duas pessoas escolham o mesmo apelido. O registro dessa “identidade digital” começará a ser feito dia 5 de outubro.

Será por meio desse apelido digital único que serão realizadas as transferências. Uma das vantagens é poupar tempo, evitar amolações e eventuais erros com os preenchimentos exigidos hoje numa operação de TED ou de DOC.

O sistema também permitirá a realização de pagamentos de pessoas físicas para empresas por meio dos chamados códigos QR, aquele quadrado cheio de figuras geométricas irregulares que você já deve ter visto em algum lugar. É só apontar a câmera do celular para o código, dar um click e a transferência já pode ser realizada. Pode ser usado até mesmo para pagar uma penca de bananas comprada de um feirante. No mesmo instante, esse feirante receberá o valor e confirmará a compra. Para isso, só é preciso que o celular funcione com conexão de internet móvel, como 3G ou 4G.

“A adoção do Pix vai acontecer em todos os tipos de pagamentos”, aposta Angelo José Duarte, chefe do departamento de Competição e Estrutura do Mercado Financeiro do Banco Central. A concessionária de energia elétrica Enel anunciou que irá adotar o Pix nos boletos de contas de luz, o que poderá acelerar a reativação do fornecimento de energia suspenso por falta de pagamento.

Uma das consequências do Pix será a redução dos custos das transações financeiras e das operações de cobrança. Até mesmo os bancos, que perderão receitas com tarifas, deverão tirar proveito da redução de custos. Haverá menos circulação de papel-moeda, menos despesas com segurança no transporte de valores – e, obviamente, menos bancários por trás dos guichês.

Os sistemas hoje em vigor, como a TED, o DOC, o cheque e os pagamentos com cartões de débito continuarão existindo, mas passarão a ser considerados obsoletos, como o anil e o mata-borrão. O diretor de Inovações da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Leandro Vilain, observa que as mudanças acontecerão aos poucos e haverá um tempo em que coexistirão com as modalidades de pagamentos vigentes, como hoje acontece com os cheques.

Para que o novo sistema seja mais rapidamente adotado, espera-se também alguma iniciativa do próprio comércio. Para Antonio Cerqueiro, sócio da consultoria Bain & Company, o público utilizará mais rapidamente o Pix se as empresas tornarem o pagamento vantajoso para o consumidor: “O lojista pode fazer descontos em compras via Pix ou, como na Índia, fomentar o cashback (retorno de parte do pagamento, a título de desconto sobre o preço à vista)”. Onde foi adotado, o sistema precisou de três anos para que viesse a ser largamente utilizado pelo consumidor. “Por natureza, as pessoas são cautelosas quanto ao uso do dinheiro”, explica Cerqueiro. No Brasil não é diferente. / COM GUILHERME GUERRA

*Celso Ming é comentarista de Economia

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