Sergio Moraes/Reuters
Ao final das vendas, a carteira do BNDES ficou em cerca de R$ 70 bilhões. Sergio Moraes/Reuters

Venda de ações rendeu R$ 49 bi ao BNDES em 2020

Banco vendeu papéis das maiores empresas do País, como Vale e Petrobrás; processo deve continuar em 2021

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

03 de janeiro de 2021 | 05h00

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi um dos agentes do mercado financeiro mais ativos neste ano. Depois de estabelecer uma meta agressiva de enxugamento de sua carteira de renda variável, a pandemia da covid-19 não tirou o banco de fomento do trilho traçado. 

Desde o fim do ano passado, logo após definir suas diretrizes de atuação e estabelecer suas metas de desinvestimento, a instituição financeira vendeu cerca de R$ 49 bilhões em ações, incluindo ações do rol das maiores empresas do País, como Vale, Petrobrás e Suzano. Ao final dessas vendas, a carteira do banco ficou em cerca de R$ 70 bilhões.

O diretor de Privatizações do BNDES, Leonardo Cabral, admite que 2020 acabou sendo melhor do que o esperado para a instituição financeira em termos de desinvestimentos. No período, o banco conseguiu vender parte de suas maiores posições da carteira de ações, tal como Petrobrás – vendeu R$ 22 bilhões em fevereiro – e Vale, cerca de R$ 10 bilhões, recursos que foram para o caixa do banco e ajudaram a engordar o lucro.

“Passamos um pouco mais da metade da nossa meta de desinvestir R$ 90 bilhões até o fim de 2022. Saímos de um modelo único de venda, o que foi possível após ajustar nossa política de atuação”, disse Cabral.

As vendas de ações da Vale ocorreram em um momento de mudança de governança da empresa, que deixou de ter um controlador, e com a alta histórica da ação na Bolsa brasileira, na esteira dos preços do minério de ferro, seu produto carro-chefe. Fora a venda do restante das ações da Vale, o BNDES planeja vender, já em janeiro, suas debêntures participativas herdadas da época da privatização da mineradora, uma operação na casa de R$ 6 bilhões. “Será o fim de um ciclo”, diz o executivo.

Redução

O processo de enxugamento da carteira de renda variável do banco de fomento começou no fim de 2019, com o BNDES vendendo sua participação na Marfrig, quando embolsou R$ 2 bilhões em uma oferta de ações na B3. Também vendeu toda sua participação na AES Tietê para sua então sócia na companhia, em uma transação competitiva, num processo de fusão e aquisição (M&A) tradicional. Vendeu, ainda, ações da companhia de logística Hidrovias do Brasil, que abriu seu capital no segundo semestre de 2020. Em outra oferta de ações, se despediu de uma posição antiga, na gigante de celulose Suzano. O banco também vendeu uma série de ações em operações comuns na Bolsas, ao longo de diversos pregões.

Cabral frisa que, se colocar apenas na mesa a participação que o BNDES ainda possui na Petrobrás, que mesmo após a venda neste ano segue como a maior exposição da carteira, valendo algo em torno de R$ 30 bilhões em ações (dependendo do preço da ação, que caiu neste ano), e sua participação remanescente em Vale, o volume já se aproxima do total feito em 2020.

“É o mesmo volume com poucas soluções. Mas não vai parar. Queremos ajustar nossa carteira e sair de posições maduras e entrar em outros tipos de investimento”, comentou o executivo. O BNDES quer sair, assim, dessas grandes empresas que marcaram a história do banco, quando o governo do PT estabeleceu foco na criação das “campeãs nacionais”, para investir em empresas menores e em projetos que têm mais carência de capital.

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Crise da covid-19 reforçou novo papel do BNDES

Em vez de aportes bilionários para grandes grupos, como em 2008, cresceram os financiamentos para pequenas e médias empresas

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

03 de janeiro de 2021 | 05h00

RIO - A reação à crise causada pela covid-19 deixou clara a mudança de foco do BNDES. O banco mirou nas empresas menores, em vez das “campeãs nacionais” e dos investimentos faraônicos em infraestrutura. Vendeu participações acionárias em grandes companhias, em vez de apoiar operações de fusão e aquisição. Nem as combalidas companhias aéreas, atingidas em cheio na pandemia, viram a cor do dinheiro da instituição.

Tudo muito diferente da crise financeira global de 2008, quando o banco foi turbinado com aportes bilionários do Tesouro Nacional – R$ 127,5 bilhões, apenas em 2008 e 2009 – e atingiu seu auge em 2010. Esse papel já tinha ficado para trás, numa guinada iniciada no governo Temer, em 2016. A partir de meados de 2019, o governo Bolsonaro acelerou as mudanças. Os empréstimos caíram para o nível dos anos 1990. O banco voltou a atuar em privatizações e concentrou esforços na estruturação de concessões.

Quando a covid-19 desabou sobre a economia global, a lembrança de 2008 e 2009 e o caixa de R$ 140 bilhões atraíram as atenções para o BNDES. Em março, dias antes de a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciar que o mundo enfrentava uma pandemia, o presidente do banco, Gustavo Montezano, descartou uma ação imediata. O papel naquele momento inicial seria manter as linhas de crédito “abertas e inalteradas”, mesmo após a covid-19 já ter derrubado as bolsas de valores mundo afora.

Menos de duas semanas depois, quando já estava claro que a covid-19 não afetaria apenas o comércio bilateral com a China ou os mercados financeiros, o próprio Montezano anunciaria, numa transmissão pela internet, as primeiras medidas do BNDES para mitigar a crise. De lá para cá, a ação emergencial do banco já somou R$ 150,6 bilhões em apoios aprovados, informa o banco.

Isso interrompeu a tendência de queda nos desembolsos, que podem ter ficado acima dos R$ 60 bilhões inicialmente projetados, mas, como sinalizou Montezano em novembro, a prorrogação das medidas emergenciais não está no radar. Tudo leva a crer que o novo papel do BNDES será reforçado.

Mesmo os números bilionários escondem um apoio mais tímido. Nos R$ 150,6 bilhões, estão incluídos valores que não são novos empréstimos operados pelo banco, como os R$ 20 bilhões repassados do Fundo PIS/Pasep, administrado pelo BNDES, para o FGTS – que depois foi liberado para os trabalhadores – ou os R$ 16,3 bilhões em suspensões de pagamentos, empréstimos que deixaram de ser cobrados de empresas e de governos.

Programa emergencial

O foco nos pequenos negócios sobressai no Programa Emergencial de Acesso ao Crédito (Peac). Principal medida de crédito contra a crise, responde por R$ 91,5 bilhões do total anunciados pelo BNDES. Mesmo esse montante partiu todo de bancos comerciais repassadores, entre públicos e privados, sem recursos do BNDES. O Peac gira em torno do FGI, um fundo de aval ao crédito que já funcionava sob administração do banco, mas era pouco usado. Em operação desde junho, após uma redução de encargos decidida pelo Congresso Nacional em agosto, o Peac decolou.

“As grandes empresas conseguiram tomar dinheiro. Foram lá nos bancões e colocaram caixa para dentro. As pequenas não”, afirmou o diretor de Crédito e Garantia do BNDES, Petrônio Cançado.

Dados do Banco Central (BC) citados pelo executivo mostram que o crédito para empresas grandes cresceu fortemente de março. A entrada do Peac e de outras linhas, como o Pronampe, operada pelo Banco do Brasil (BB), virou o jogo a partir de meados do ano. Em outubro, o saldo das operações para pequenas e médias tinha salto de 27,8% no ano, ante 11,1% para as grandes.

Por isso, para o economista Vinicius Carrasco, professor da PUC-Rio e diretor do BNDES na primeira gestão do governo Temer, o banco acertou no foco. Diante do choque da pandemia, as empresas precisavam de apoio emergencial para “fazer a travessia”. Como o risco de crédito aumentou, por causa das incertezas associadas à crise, agravando justamente o histórico problema da falta de garantias, o apoio do Tesouro foi importante.

Para Manoel Pires, coordenador do Observatório Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o foco foi correto, mas o governo poderia ter apostado mais em medidas de crédito com apoio do Tesouro. Em vez disso, o governo escolheu enfrentar a pandemia mais com a transferência de renda para as famílias, como o auxílio emergencial.

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Risco afastou banco de grandes empréstimos

Pacote de ajuda desenhado para o setor aéreo, um dos mais afetados com a crise, não teve demanda por causa das condições muito rígida para as empresas

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2021 | 05h00

RIO. Meados de abril, auge da paralisia da economia causada pela covid-19. Executivos do setor bancário revelaram que vinham mantendo reuniões entre si e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O objetivo era desenhar linhas de apoio aos setores mais atingidos pela pandemia. O “sindicato” – jargão do mercado para a parceria entre bancos numa mesma operação – coordenado pelo BNDES montava um pacote estimado em R$ 50 bilhões.

Com seus aviões estacionados em aeroportos às moscas, as companhias aéreas haviam recebido um sinal positivo do presidente do BNDES, Gustavo Montezano, ainda em março. Quando as conversas para a formação dos sindicatos vieram à tona, seguiam como prioridade, acompanhadas do setor elétrico, da cadeia automotiva e do setor varejista.

Passados oito meses, só saiu do papel o empréstimo sindicalizado de R$ 15,2 bilhões para o setor elétrico, fechado em julho, com R$ 2,7 bilhões do BNDES. Para o setor aéreo, um programa de apoio, com orçamento de R$ 3,6 bilhões para as três companhias atuantes no País, foi aprovado em julho, mas as condições consideradas rígidas afastaram as empresas. Em outubro, a Azul fez uma operação nos moldes da linha do BNDES, mas abriu mão dos recursos do banco de fomento. Levantou R$ 1,745 bilhão no mercado.

O caso é emblemático do novo papel do BNDES na economia. Na visão da atual diretoria do banco, a opção pela coordenação de sindicatos e pelo uso da emissão de títulos no mercado – como na linha para o setor aéreo – economizaram recursos públicos. Tido como próximo do ministro da Economia, Paulo Guedes, o presidente do Conselho de Administração do banco, Marcelo Serfaty, foi protagonista nas discussões com as instituições financeiras privadas, sempre a favor de condições rígidas para as empresas.

Com “soluções de mercado”, o BNDES reduziria seu risco, com um “selo” de garantia de decisões “colegiadas” com outros bancos, evitando a escolha “arbitrária” de setores. Economistas críticos da atuação do BNDES nos governos do PT citam frequentemente, como um dos problemas, a escolha de setores e empresas para receberem apoio privilegiado – como o frigorífico JBS ou as construtoras envolvidas na operação Lava Jato.

Embora os pacotes setoriais não tenham saído do papel, para o diretor de Crédito e Garantia do BNDES, Petrônio Cançado, as grandes empresas não ficaram desamparadas pelo banco. Se beneficiaram do adiamento da cobrança de dívidas e puderam contar com as linhas, que ficaram disponíveis para novos projetos de investimento, mesmo quando as instituições privadas se retraíam.

Segundo o diretor, as companhias aéreas aproveitaram as negociações com o BNDES para se reestruturar financeiramente. “Teve um momento lá em que não havia dinheiro para nenhuma empresa do setor aéreo. Colocamos uma linha, colocamos as condições. Não eram subsidiadas, eram condições duras, mas justas, e era o que dava para fazer. As empresas pegaram as condições do banco e, com isso, negociaram com seus credores. E conseguiram ir a mercado e fazer uma solução melhor. O BNDES deu o conforto de ter o dinheiro disponível, se precisasse”, disse Cançado.

Parte do trabalho do BNDES foi monitorar as condições financeiras para essas grandes companhias, conforme o executivo. Pouco após o fundo do poço da crise, a situação melhorou, inclusive para alguns dos setores na mira do sindicato de bancos. Grandes varejistas listadas na Bolsa logo conseguiram levantar recursos com emissões de ações ou títulos de dívida.

A decisão de deixar as companhias buscarem “soluções de mercado” acabou encontrando eco no temor, por parte dos técnicos do BNDES, de serem responsabilizados, no futuro, pelas decisões em torno do apoio às empresas – como ocorreu, no passado, no caso do frigorífico JBS.

Isso também ficou claro na linha para o setor aéreo. Em meados de junho, o orçamento do programa passou pelo Comitê Gerencial, formado por todos os superintendentes do BNDES, com três votos contrários. Segundo uma fonte que acompanhou o processo, uma das “questões de atenção” levantadas no comitê foi que o Tesouro não participaria do apoio, deixando o risco apenas com o BNDES.

Um profissional que já atuava no BNDES na crise de 2008 – e elogiou o foco atual nos pequenos negócios – ponderou que a falta de apoio para as companhias dos setores mais expostos à pandemia poderá ser um problema na retomada da economia. Como puxam a demanda em cadeias de fornecedores, essas empresas têm um papel importante para impulsionar a atividade. Caso estejam em condição financeira frágil, podem enfrentar dificuldades, disse o executivo, que pediu para não se identificar.

Para Arthur Koblitz, presidente da AFBNDES, associação que representa os funcionários do banco, a atuação da instituição contra a crise tem sido “medíocre”, o que ficou evidente da falta de apoio ao setor aéreo. Além disso, as vendas das participações acionárias mostrariam que a agenda de “encolhimento” do BNDES foi retomada.

“Isso coloca o Brasil numa posição única. A Alemanha capitalizou o KfW (o banco de desenvolvimento alemão). O Brasil está descapitalizando, esvaziando o BNDES”, afirmou Koblitz.

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