Venda de consórcio bate recordes, mas especialistas criticam a modalidade

Poupar para comprar à vista ou financiar pagando juros, mas com o bem entregue na hora, são opções mais indicadas para os consumidores

Roberta Scrivano, de O Estado de S. Paulo,

23 de maio de 2010 | 23h00

Há meses, as vendas de consórcios de motos, automóveis e casas batem recordes sucessivos. Especialistas em finanças pessoais, porém, dizem que a modalidade não está entre as melhores opções para quem quer adquirir um bem, principalmente após a estabilização da economia.

Segundo eles, poupar para comprar à vista ou financiar, bancando os juros, mas com a entrega do bem na hora da compra, são duas alternativas melhores que o consórcio.

Fábio Gallo, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e colunista do Estado, questiona: "Qual a racionalidade de pagar para alguém guardar o seu dinheiro?"

O pensamento de Gallo leva em conta que quem entra em um consórcio não precisa do bem de imediato e, mesmo assim, prefere pagar - a taxa de administração e um fundo de reserva - para um consórcio administrar a verba. "Se não há necessidade imediata, poupe", recomenda.

Luiz Fernando Savian, presidente da região Sudeste da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac), defende o produto e garante que consórcio é um bom negócio. "Tudo depende do perfil da pessoa", argumenta.

Segundo Savian, a falta de disciplina intrínseca ao ser humano na hora de poupar é mitigada com a aquisição do consórcio. "Estamos falando de um autofinanciamento que não cobra juros. Aí estão dois bons motivos para adquirir o consórcio", diz.

Simone Domingues, contadora da Trade Contabilidade, afirma que é necessário comparar o consórcio com o quanto renderia aquele valor aplicado (na poupança ou em um fundo de investimento, por exemplo) todos os meses. "Quanto mais longo for o prazo, mais rentabilidade você perde", observa.

Dificuldade

Por esse motivo, na opinião de Simone, o consórcio de imóveis é hoje o menos vantajoso e ela diz isso por experiência própria. "Acabei de dar um lance no consórcio de imóveis em que estava e tive uma trabalheira danada para conseguir a minha casa", conta. O principal problema enfrentado pela contadora foi encontrar um imóvel que se enquadrasse na carta de crédito do consórcio, que havia sido contratado um ano antes do sorteio.

Fábio Ferraro, diretor comercial da construtora Obracil, afirma que casos como o de Simone são comuns no mercado. "Os imóveis têm se valorizado muito rapidamente", afirma o especialista em mercado imobiliário. "Por isso, se o integrante do consórcio demorar para ser sorteado, certamente sua carta de crédito estará defasada."

Simone observa, no entanto, que, para carros e motos, o consórcio pode valer a pena. É que, de acordo com ela, nesse tipo de produto, não são cobrados juros e a taxa de inadimplência (que é bancada pelos membros adimplentes do grupo) é baixa, o que, portanto, não costuma gerar gastos extras.

Além dos consórcios mais vendidos (imóveis, automóveis e motos), há o de serviços, que funciona como uma linha de crédito. O interessado procura a instituição e entra em um consórcio que tem apenas o valor da carta de crédito determinada. Quando sorteado, recebe o dinheiro sem carimbo, ou seja, pode usá-lo para qualquer tipo de serviço, de cirurgia plástica a festa de casamento.

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