Venda de imóveis despenca nos EUA

Números assustaram os mercados no mundo todo por reforçarem o temor de que a economia americana pode entrar em nova recessão

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

A venda de imóveis residenciais despencou em julho nos Estados Unidos ao nível mais baixo desde maio de 1995. Analistas e mesmo autoridades do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) afirmavam ontem que o risco de a economia americana enfrentar um segundo mergulho e entrar em nova recessão não pode ser descartado.

Segundo a Associação Americana de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês), a venda de casas já existentes caiu 25,5% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado e 27,2%, quando comparado a junho. O resultado ruim no setor imobiliário, que foi um dos principais responsáveis pelo colapso financeiro de dois anos atrás, se adiciona às más notícias no setor de empregos e na indústria. A economia não consegue retomar o crescimento a um ritmo forte capaz de reduzir o desemprego, atualmente em 9,5%.

Na avaliação de Charles Evans, presidente do FED em Chicago, "apesar de existirem alguns sinais de recuperação econômica e evidências de estabilização nos preços residenciais, ainda não voltamos à normalidade". "O segundo mergulho não é a possibilidade mais provável, mas estou preocupado de como será a recuperação."

O indicador reforçou o receio dos investidores de que o crescimento econômico nos países mais industrializados continue lento e sujeito a novas quedas, confirmando a previsão feita pelo economista americano Nouriel Roubini de que o crescimento pós-crise pode acontecer em "W", com altos e baixos e sem sustentabilidade.

O índice Dow Jones da Bolsa de Valores de Nova York fechou em queda de 1,32% e o Nasdaq, 1,66%. O valor do dólar teve sua cotação mais baixa em relação ao iene nos últimos 15 anos.

A Bolsa de Valores de São Paulo seguiu o humor externo e fechou em queda de 1,25%.

O recuo na venda de imóveis já era esperado por causa do fim dos incentivos do governo para a compra de casa própria. O problema é que os analistas previam queda bem menor. Levantamento da Bloomberg, com 74 economistas, estimava redução de 13%, metade do registrado.

Segundo os números da NAR, se a atual taxa de vendas de casas já existentes for mantida, o total de residências negociadas no ano será de 3,37 milhões. Em junho, a previsão era de 5,26 milhões. Lawrence Youn, economista-chefe da NAR, afirmou que a tendência é de que as vendas continuem baixas nos próximos meses. "Os consumidores racionalmente aproveitaram para comprar suas casas antes que o crédito do governo (para comprar novas casas) expirasse."

Na Europa. O temor de que a recuperação americana não seja sustentável, associado às preocupações com a economia europeia, também levou os pregões da Europa a fecharem em quedas que variaram de 1,05% na Suíça a 5,78% na Irlanda.

As baixas se espalharam. Em Londres, a bolsa caiu 1,51%, enquanto em Paris recuou 1,75%. Até mesmo na Alemanha, onde o Escritório Federal de Estatística confirmou o crescimento recorde de 2,2% no segundo trimestre do ano, a bolsa caiu 1,26%.

O receio sobre um crescimento não sustentável já havia sido admitido pelo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet. Ontem, foi a vez de Martin Weale, membro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra (BoE), reconhecer que o perigo paira sobre a economia da Europa, dos EUA e do Japão. "Seria imprudente afirmar que esse risco não existe."

Na Europa, as dúvidas também persistem sobre as finanças públicas em países como Grécia, Portugal e Espanha. Um dos focos de incerteza é Madri, onde o governo anunciou investimentos de ? 500 milhões em obras públicas. Para os mercados, o valor não é suficiente para relançar a atividade produtiva, abalada pela recessão e pelo desemprego na casa de 20%, e ainda incrementa o déficit público.

Mercado fraco

25,5% foi o recuo de julho ante julho

27,2% foi a queda em relação a junho

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